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Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não." City of Angels

♥ 15 - A GOTA D'ÁGUA ♥

Eu estava terminando de me arrumar para o colégio quando ouvi gritos do andar de baixo. Soltei a escova de cabelo, peguei a mochila e desci as escadas correndo.
- Alguém pode me explicar o que está acontecendo? – perguntei olhando pra Lucy.
- Será que não conseguem ficar sozinhas sem brigar? – papai desceu as escadas vestindo o casaco.
- Foi ela que começou – Nathália gritou.
- Fale baixo – ordenei.
- O que fez Lucy? – papai olhou furioso para ela.
- Perguntei se iria tomar café e ela disse que ia comer no colégio...
- E qual o problema nisso? – olhei de cara feia pra ela.
- Ela disse que não comeria porque eu podia ter colocado algum veneno já que eu não tive coragem de matá-la enquanto ela estava dentro de mim – demorou um segundo até que alguém falasse.
- Nathália, não... – papai balançou a cabeça negativamente.
- Vai defender ela, pai? Se for, é melhor nem continuar. Mas você está pouco se importando, não é? Não sou sua filha mesmo, não tem nenhuma obrigação comigo – ela disse alto.
- Nathália, não admito que fale assim comigo – papai reclamou.
- ao admite? – ela zombou – Quem é você pra admitir ou não. Meu pai? Não, você não é – ela deu de ombros.
- Nathália Brandow! – ele levantou a mão.
- Bate! Bate em mim – ela deu tapinhas no rosto – PA-PAI – ela dividiu a palavra em duas. Seu rosto era furioso e desafiador. Meu pai foi na direção dela – que baixou a guarda e recuou.
- Pai, não! – pedi entrando na sua frente e colocando as mãos em seu peito – Por favor, não.
- Saia da frente Sammy – ele não me olhou nenhum segundo.
- Deixa ele Sammy, quero ver se é capaz de bater na filha dos outros! – Nathália desfiou atrás de mim.
- Cala a boca! – gritei. Papai avançou mais passos – Pai, por favor.
- Não – ele me tirou da frente.O empurrão não foi forte, mas me pegou de surpresa. Tropecei no tênis e caí sentada no chão. Levantei rápido, meu braço batendo o vaso onde estavam as rosas – que caiu e quebrou, espalhando rosas, água e vidro pela sala – me rendendo um arranhão. Entrei no mínimo espaço entre papai e Nathália – que se encaravam.
- Pai – falei devagar – Não – peguei sua mão levantada – Por favor – ele não deu atenção – Olha pra mim – fechei s olhos e baixei a cabeça – Por favor – implorei. Sua mão baixou junto com a minha e voltei a olhá-lo. Seu rosto estava desmoronado – a fúria tinha evaporado – e lágrimas escorriam por seu rosto – Para o carro Nathália – a olhei por cima do ombro. Ela baixou a cabeça e pegou a mochila antes de passar ela porta.
- Desculpe – ele sussurrou e baixou a cabeça, soluçando baixo.
- Pai – o abracei. Lucy estava encostada na parede, também chorando – Ela falou aquilo da boca pra fora – disse me afastando dele. Segurei seu rosto com as duas mãos – Você é o pai dela, foi você quem a ensinou a viver.
- Sammy, eu a amo tanto – ele baixou a cabeça.
- Ela também, pai. Ela também – afaguei seus cabelos. Ele levantou o rosto.
- Vá para o colégio – ele passou as mãos no rosto.
- Se cuida pai. Eu te amo – dei um beijo em seu rosto e ele me puxou num abraço.
- Precisava daquilo? – apoiei a mão no teto do carro enquanto Nathália fitava o chão de braços cruzados – Estou falando com você – puxei seu braço e ela olhou pra mim.
- Vamos chegar atrasadas.
- Por que fez aquilo?
- Não quero falar.
- Sério? – perguntei com ironia – Será que você não tem nada pra falar pra mim também? O que você tem na cabeça? Ao menos você pensa?
- Para de me encher, ok? Abre o carro, quero ir para o colégio – ela virou para a porta. Puxei seu braço de novo e ela ficou de frente para mim, olhando em meus olhos.
- Eu desisto de você. Você não tem mais jeito e eu lavo minhas mãos. Depois daquele episódio que você fez lá dentro... – a soltei rispidamente – Agora é com você e a sorte – destravei as portas do carro – Entra – ela ficou paralisada por alguns segundo.
- Sammy... – ela grunhiu enquanto estávamos a caminho do colégio.
- Faça o que quiser, mas se o papai perder o controle de novo deixo ele partir você no meio – olhei pra ela – Entendeu?
  Ao chegarmos no colégio, ela desceu do carro em silêncio e entrou na escola. Encostei a cabeça no banco e fechei os olhos. Minutos depois alguém bateu na porta.
- Oi Miguel – disse ao descer o carro com as chaves e a mochila na mão.
- Vi Nathália entrando no colégio, está tudo bem?
- Ela quase ia levando uma surra hoje.
- O que ela fez? – ele perguntou surpreso.
- Disse coisas horríveis para o papai, esfregou a cara dele que ela não é sua filha.
- Já tentou conversar com ela? – ele se encostou ao meu lado no carro.
- Desde que Lucy voltou que faço isso. Ontem ela se comportou tão bem, pareceu madura. Mas hoje... Já disse a ela que desisto.
- Sammy ela descobriu que a mãe a rejeitou, o pai dela é um estranho. É um choque muito grande e a garota só tem quinze anos.
- Eu sei. Mas ela não tem o direito de descontar nos outros, principalmente em quem não tem culpa de nada. Estou fazendo o possível pra ajudar e sofro também, mas nem por isso saio gritando e falando coisas pra todo mundo.
- Sammy, Nathália é muito diferente de você. Sua história é completamente diferente. Você amadureceu muito cedo, Nathália vive cada coisa no momento certo. Devia levar isso em consideração.
- Mas...
- Você tem controle sobre o que vai fazer, ela não. Ela reage fazendo os outros sentirem o mesmo que ela.
- Você acha?
- Sim. Deveria pensar nisso antes de desistir dela – ele passou o braço por meu ombro e encostei-me a seu peito.
- Eu me achando tão adulta e...
- Ninguém é adulto o suficiente nessas situações.
- Vou falar com ela quando chegar em casa. Pedir desculpas.
- Tudo vai se resolver – ele deu um beijo em minha cabeça.
- Obrigada – olhei pra ele e ele sorriu.
- Posso saber o que estão fazendo fora da sala de aula? – Sr. Davis perguntou vindo em nossa direção.
- Cheguei atrasada, na verdade...
- Ela estava com um problema e... – Miguel começou.
- O que tem a ver com a história Thompson? – ele cruzou os braços.
- Sr. Davis eu estava ajudando – Miguel respondeu.
- Estava dando uma de psicólogo?
- Não, estava dando um a de amigo.
- Que interessante – ele ironizou – Pois então venha fazer amizade com as paredes da diretoria, me acompanhe.
- Sr. Davis foi minha culpa. Pedi pra ele ficar aqui.
- Impressionante como você sempre está metida em encrenca. Na piscina e agora isso.
- Desculpe – murmurei. Sr. Davis me olhou desconfiado.
- Suas aulas?
- Trigonometria – respondi.
- Inglês – Miguel respondeu.
- Venham. Que isso não se repita.
- Obrigado – Miguel sussurrou.
- Deveria ter deixado. Você precisa aprender a controlar os nervos.
- Com licença Sra. Murf – o diretor pediu ao chegarmos em minha sala – Poderia deixar a Srta. Brandow entrar, por favor?
- Claro – ela me olhou – Entre querida – ela sorriu.
- Tchau Miguel.
- Até mais.
- Quando essa aula acabar se dirijam ao refeitório,por favor – Sr. Davis falou.
- Por que chegou atrasada? – Ashley perguntou quando sentei ao seu lado.
- Vai me dizer que não sabe?
- Sammy, não vejo o futuro.
- Problemas com Nathália – pendurei minha bolsa no encosto da cadeira.
  A aula passou sem maiores acontecimentos. Sra. Murf nos passou uma lista de exercícios valendo nota para entregarmos depois das férias de verão. Assim que tocou para o intervalo, todos pegaram suas coisas e quase correram para o refeitório. Enquanto andávamos pelo corredor, contei a Ashley o que havia acontecido.
- Nossa, Sammy. Que barra – Ashley disse surpresa.
- É.
- Mas tudo vai se acertar – ela sorriu.
- Impressionante como vocês dizem a mesma coisa. É algum tipo de lema?
- Não, sua boba. Só sabemos que tudo vai ficar bem – ela deu de ombros.
- Como sabem?
- Sabendo Sammy – ela disse irritada – Agora fica feliz que Arthur está vindo. Olhei para onde ela olhava e o vi com um casaco azul escuro sobre a camisa preta e um jeans escuro. Seu cabelo estava molhado e com a luz fluorescente pareciam fios de ouro.
- Oi Sammy! – ele sorriu.
- Oi!
- E aí, Ash!
- Oi mano – ela sorriu e virou para mim – Vou pegar um refrigerante, que um também?
- Não, valeu.
- Ok. Já volto.
- Encontra com a gente na mesa – ele disse – Vamos – Arthur segurou minha mão.
- Melhor? – Miguel perguntou quando cheguei na mesa.
- Sim – respondi me sentando sabendo que todos olhavam pra mim.
- O que houve? – Arthur perguntou. Ashley chegou no mesmo instante e contou a história por mim.
- Bom dia alunos – Sr. Davis começou – As férias de verão estão se aproximando e com elas, como todos sabem, os exames. Estudem que na próxima semana começam as provas na East Boston High School. Ótimas provas e férias melhores ainda!
- Finalmente férias – Sophia disse.
  Sr Davis saiu do refeitório e voltamos a conversar. Apoiei minha cabeça mochila de Arthur que estava em cima da mesa enquanto escutava Bernard contar a história de um filme. Arthur começou a mexer no meu cabelo e me esforcei muito para prestar atenção, mas desisti e fiquei só olhando Bernard falar e falar.
  As aulas passaram como um jato e quando vi estava ido para o estacionamento.
- Ah que ótimo, Richard colocou o carro bem atrás do meu – disse olhando para o Jeep grandalhão dele. Tentei ver alguma coisa pelo vidro, mas só enxerguei o brilho da chave – Pelo menos tem como eu tirar o carro do meu caminho – abri a aporta e entrei. Assim que liguei o motor e olhei no retrovisor, vi alguém debruçado no banco de trás – Meu Deus! – gritei e desci do Jeep aos tropeços – Oh, meu Deus!
- Sammy, Sammy – ele gritou.
- Richard? – perguntei surpresa.
- Sou eu. Calma, ok? – ele segurou meus braços.
- O que estava fazendo lá dentro? – perguntei assustada. Vi um balançar de cabelos meio escuros atrás dele. Inclinei a cabeça para o lado – Myllena? – perguntei confusa – Ah, me desculpem – levantei as mãos - Eu, eu... Me desculpem – senti meu rosto ficar quente.
- Tudo bem Sammy – Myllena disse vermelha.
- Será que você podia tirar o carro de trás do meu? – perguntei sem jeito.
- Claro – Richard respondeu.
- Myllena me...
- Sammy, tudo bem, ok? – Myllena sorriu – Não aconteceu anda do que está pensando.
- Não?
- Não – ela riu – Por favor, não faz nem quinze minutos que largamos e tenho juízo.
- Ah.
- Ele só estava me beijando. É que ele é muito... espirituoso.
- Ok – ri.
- Pode vir – Richard chamou do carro.
- Estou indo. Até mais Myllena.
- Tchau.
- Valeu Rick – disse ao me aproximar.
  Por conta do tempo que gastei no estacionamento, peguei um engarrafamento miserável, mas consegui achar um atalho pelas ruas congestionadas.
  Chegando perto de casa vi Nathália e Lucy conversando em frente à varanda. Que estranho Nathália com ela, geralmente ela nem a cumprimenta, pensei. Só quando cheguei mais perto percebi a presença de uma moto grandalhona – que tinha um desenho de dragão na lateral – perto da entrada de carros. Com um frio na barriga estacionei o meu carro. Nathália e Lucy não estavam conversando, estavam brigando, notei isso quando escutei suas vozes alteradas. Desci do carro com um suspiro e fui ver de que se tratava a reunião de família ao ar livre.
- Posso saber o que estão fazendo aqui? Nathália de quem é esse troço?
- É minha gata. E não é um troço, é uma moto, caso você não saiba. – olhei para trás e vi um cara todo vestido de preto e correntes que pareciam coleiras. Seu aspecto me fez unir as sobrancelhas de desdém. Ele era alto – dava para ver isso mesmo ele estando sentado na escada da varanda – em sua sobrancelha tinha um piercing, fora todos os penduricalhos que tinha em suas orelhas. Tirando tudo aquilo de cima dele – todo aquele preto e prateado – ele podia ser considerado um rapaz bonito. Mas ele mascava um chiclete de um jeito que me deixou nauseada.
- E posso saber o que você está fazendo aqui?
- Vim buscar sua irmã para dar um rolé. Se quiser pode vir também gata. Vai ser divertido – ele disse me olhando de cima a baixo.
Dei um sorriso irônico e me virei para a Nathália.
- Você vai ter que explicar isso. Já pra dentro Nathália.
- Eu estava tentando fazer ela entrar, mas ela é muito teimosa – explicou Lucy
Sorri ironicamente mais uma vez.
- Quem é você pra falar de bons modos e de como ela foi educada? Cale-se, ok? Nathália, pra dentro, agora – ordenei.
- Você não manda em mim Sammy! Eu não vou. E não me espere, só vou voltar amanhã! – ela bateu o pé.
- Ah é mesmo?E posso saber o que você vai fazer com esse cara entupido de metal?
- A gata vai dar um rolé de bruxa na night! – o garoto disse atrás de mim.
- Nathália não acredito nisso. Onde achou essa criatura? Em que toca você foi buscar ele? Ao menos entende o que ele fala? – minha raiva estava começando a zunir em meus ouvidos e meu controle estava a ponto de desaparecer. Ela riu histericamente. Desnorteada, prestei mais atenção em como ela se vestia. Uma calça preta – assim como a dele – uma blusa preta com uma estampa de uma banda de rock pesado, uma munhequeira também cheia de prateado e quando olhei para seu rosto, seus olhos pareciam que tinham levado um soco. Para onde tinha ido seu estilo todo patricinha mimada e insuportável?
- Você não vai me impedir e não tenho que te dar explicações, vamos Keane –eladisse subindo na moto.
 - Ei, ei, ei, ei – andei até a moto – você não sabe andar nessa coisa. Entra Nathália, dessa vez não estou brincando – ela virou a cara – Agora! – gritei. Ela olhou para mim, os olhos uma fenda, o rosto vermelho.
- Eu não vou, ok? Você não me controla Sammy, você não tem nenhum poder sobre minha vida, agora saí do meu caminho! – ela berrou.
- Olha aqui sua... – comecei.
- Nathália ouça sua irmã, por favor, por mim – Lucy implorou ao meu lado.
 - Cala a boca!– nós duas ralhamos ao mesmo tempo sem olhá-la.
 - Por você, por você não Lucy! Por você eu não faço nada, nem se minha vida dependesse de você. Eu preferia morrer ao...
- Chega! – ela gritou – Eu não aguento mais. Você não pode falar assim comigo, sou sua mãe!
- Preferia que não fosse!
- Nathália, pelo papai – sussurrei.
- Não Sammy, estou cansada. Estou cansada de vocês, de suas mentiras e expressões de sofrimento. Estou cansada desse inferno que minha vida se tornou.
- Eu nunca menti pra você, nunca. – disse aliviada por ela ter me dado atenção. Talvez eu pudesse fazê-la perceber a loucura que estava cometendo.
- Ah, não? E quando você disse que a mamãe me amava, lembra? Quando eu falei pra você o que a tia Debbie me disse, lembra Sammy? Você se lembra da sua resposta? Era tudo uma mentira, uma grande mentira!
- Eu não sabia, por favor Nathá...
- Nathália, não faça isso, não faça filha.
- Não me chame de filha! – Nathália berrou – Você nunca foi minha mãe, você nunca me amou. Agora não se dê ao trabalho de fingir que gosta de mim! Eu não acredito em suas mentiras Lucy, não acredito. Você morreu, eu não conheci minha mãe!
- Basta! Não fale assim comigo Nathália Brandow! – ouvi um estalo e de repente o rosto de Nathália estava virado para o outro lado. Desorientada virei para Lucy e a vi arfar. Horrorizada olhei novamente para a Nathália e seu rosto tinha uma marca vermelha que cobria boa parte do lado direito de sua face.
- Você. Bateu. Nela – rosnei entre os dentes. Por um momento minha visão ficou vermelha e ouvi os batimentos de meu coração pulsando ferozmente.
- Oh, meu Deus! – ela cobriu a boca com as mãos – Nathália me desculpe. Me perdoe, eu não...
- Você bateu nela! – gritei, minhas mãos seguraram seus braços e a sacudi.
- Eu te odeio. Eu odeio você! –Nathália falou com a voz abafada. Eu ainda estava segurando Lucy quando ouvi a moto ronronar.
- Suba logo Keane –Nathália disse bruscamente
- Olha gata, eu acho...
- Suba logo seu idiota! – ela gritou.
- Ok, calma gata. Não fica estressadinha seu sotaque era enrolado.
- Nathália não... – pedi.
- Eu não quero e não vou ficar aqui. Será que dá pra vocês me deixarem em paz?
- Nathália você não vai sair com esse cara, de moto e muito menos você pilotando. Desce daí, agora! – tentei parecer forte, mas minha força já estava esgotada. Minhas palavras saíram como uma ordem mal dita.
- Não – ela acelerou e saiu cantando pneu.
- Pois então vá! – gritei em meu desespero, desistindo. Ela freou e tive alguma esperança. Mas ela se virou e me olhou atordoada. Depois acelerou e saiu cantando pneu.
Respirei fundo algumas vezes e me virei para Lucy, que estava sentada no chão com a cabeça entre as mãos que estavam apoiadas nos joelhos.
- Por que você não morreu? – perguntei bruscamente, minha voz coberta de nojo. – Nunca mais tente levantar um dedo sequer para ela, entendeu? Se fizer isso de novo, não respondo por...
Um estalo alto calou-me. Não era um estalo, parecia que um raio de enorme descarga elétrica tinha atingido o solo e nós estávamos perto demais. Lucy levantou o rosto num rompante e olhou para mim. Meus olhos encontraram os dela e eles estavam perturbados. Engoli em seco e andei alguns passos me postando no meio da rua.
- Não! Nathália! - meu coração parou de bater.
Eles já tinham chegado à esquina.
A moto tinha se chocado com uma picape.
Nathália estava do outro lado da rua, perto do meio fio e Keane não estava tão longe da moto quanto ela.

Eu podia sentir a adrenalina percorrendo meu sangue enquanto eu corria, minúsculas gotas de suor brotando em minha testa e escorrendo por minhas têmporas, o calor e o esforço físico deixando as maçãs de meu rosto quentes e consequentemente vermelhas, me fazendo respirar de boca aberta para inspirar mais ar, tentando suprir a necessidade de meus pulmões exigentes. O motorista estava abaixado sobre Keane, mas seus olhos paravam sobre ela de segundo em segundo.
- Nathália! – desabei no asfalto. Eu podia sentir o calor do chão passando por minha calça, esquentando minha pele, mas não liguei. A dor do chão duro em meus joelhos não era nada comparada a dor interna que eu sentia. Minha irmã que eu tinha acabado de brigar, estava agora em meus braços, sangrando, desmaiada, indefesa. E eu impotente. O que eu iria fazer agora? Minha mente girou procurando por uma resposta, enquanto eu colocava meu rosto em seu corpo.
- Por favor, por favor, acorde – supliquei, minha voz quase inaudível por conta das lágrimas e dos soluços que saíam de minha garganta.
- Ela bateu a cabeça com força no meio-fio, não acho que vá acordar agora, temos que levá-la para o hospital – disse o motorista da picape. Olhei para ele desolada.
- Você não a viu?
- Ela parecia não estar sobre o controle da moto. Na verdade ela parecia nem saber andar nela. –ele respondeu se abaixando perto de mim – Eu freei mas, ela veio na minha direção mesmo assim.
Assenti. Não era necessário dizer a ele que ela realmente não sabia pilotar a moto. Eu precisava levá-la para o hospital.
- Filha, temos que ligar para o seu pai. Oh, Deus como está ferida! – Lucy tinha se abaixado do outro lado de Nathália, estava prestes a tocar seu rosto, onde há alguns minutos ela tinha batido.
- Não toque nela! E não me chame de filha! – reclamei tirando o celular do bolso. Não houve dois toques.
- Alô, oi Sammy! – a voz do Arthur era uma base pra mim agora.
- Arthur, John está no hospital ou ainda está aí? – minha voz era fraca.
- O que houve? – seu tom era preocupado ao me escutar.
 - A Nathália sofreu um... – não consegui terminar, comecei a chorar, minha voz ficando presa na garganta.
- Sammy?! Sammy?! – ele chamou do outro lado. O rapaz que estava ao meu lado pegou o celular da minha mão.
- Alô? – ele escutou por um momento – Meu nome é Lucas. – demorou mais um instante – Ela sofreu um acidente, perdeu o controle da moto e... – houve uma pausa – Está certo. Até mais Arthur
- O que ele disse? –Lucyperguntou. Levantei a cabeça para escutar sua resposta
- Ele nos encontra no hospital. O pai dele está lá. – ele respondeu olhando pra mim – Temos que chamar uma ambulância, já devíamos ter feito isso.
- Eu já chamei. Devem estar a caminho. –Lucydisse.
- Como isso foi acontecer? Ela não merecia! – falei aos prantos.
  Poucos minutos se passaram quando escutamos a sirene da ambulância. Fiquei desolada ao vê-la sendo carregada numa maca pra dentro dela. Lucas nos deu uma carona até o hospital. Por todo o caminho ele ficou se desculpando pelo acidente. Eu não tive forças para dizer nada, estava totalmente arrasada.
  Em questão de minutos eu já podia ver a enorme fachada do hospital. Durante todo o percurso consegui chorar sem soluçar, mas quando vi a ambulância passando pela entrada, não consegui segurar. Levei as mãos ao rosto e chorei, a cabeça encostadas em minhas pernas.
- Desculpe – Lucas sussurrou.
- Não foi sua culpa, você freou – disse em meio aos soluços.
  Não esperei que o carro aparasse para abrir a porta e correr para a ambulância, onde alguns enfermeiros colocavam a maca no chão. Eles entraram às pressas no hospital e a levaram para o setor de emergência. Em meio a todas aquelas pessoas, pude ver John. Quando ele me viu falou algo e Arthur levantou da cadeira me procurando com olhos preocupados. Ao me ver disse meu nome. Corri até ele e me joguei em seus braços aos prantos.
- Shhh... Calma – ele afagou meus cabelos. John não falou comigo, tinha ido para a emergência com Nathália e enfermeiros. Keane estava logo atrás com outro médico, mas nem ao menos prestei atenção.
- Arthur, foi tão horrível! – disse escondendo o rosto em seu peito.
- Ela vai ficar bem – ele tentou me acalmar, mas sua voz estava aflita demais para ser tranquilizadora.
- Ode ela está? – Lucy perguntou.
- Acabou de entrar na enfermaria – Arthur respondeu.
- Você deve ser Arthur – Lucas falou.
- Sim. Infelizmente nos conhecemos sob essas circunstâncias.
- Onde está meu pai? – perguntei me afastando de Arthur.
- A caminho – Lucy respondeu.
  Fiquei ao lado de Arthur e em minutos vi meu pai correndo pelo corredor. Ao ver sua expressão, caí aos prantos e corri a seu encontro.
- Pai! – grunhi em seus braços.
- Por que Sammy? Por quê? – ele repetia.
- Me desculpe pai.
- Não foi culpa sua – ele me abraçou mais forte.
- Se eu não tivesse brigado com ela, se não tivesse desistido dela. – balbuciei.
- Você fez o que pôde, seu limite havia chegado – ele fez uma pausa – Eu preciso tanto de você Sammy – ele soluçava. Me afastei para olhar seu rosto.
- Pai, por favor não se apóie em mim. Não sei o que fazer – baixei a cabeça.
- Só fique comigo – ele me abraçou
- Eu prometo.
  Aquela era uma promessa. Não só para ele, mas para mim também. Mesmo que eu não tivesse mais forças, ia lutar. Por ele. Ele não ia cair de novo, nunca mais.
  Ficamos esperando notícias, mas elas nunca pareciam chegar. Nenhum de nós falava e diversas vezes me peguei limpando as lágrimas com as mãos. Papai estava sentado numa das cadeiras que tinham presas a parede e apoiava a cabeça nas mãos, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto. Não fui para seu lado, eu não aguentaria. Lucy estava encostada na parede e também chorava, talvez ela gostasse de minha irmã. Voltei a chorar ao pensar que Nathália não podia saber disso e Arthur me puxou para seus braços. Lucas havia ido à cantina comprara um café depois de muito pedir desculpas. Havia se passado quase uma hora, quando John saiu da enfermaria.
- Dr. Mason! – papai levantou num rompante. John estava cabisbaixo.
- Rudolf – ele acenou com a cabeça – Desculpem a demora, mas Nathália teve que passar por exames, nos quais eu tinha que estar presente – ele suspirou – Ela sofreu uma batida muito forte no chão, pelo que pude perceber.
- Sim – eu disse – Ela praticamente voou da moto. Só a vi no chão, perto do acostamento. Só o garoto estava perto da moto.
- O garoto não sofreu nada.
- E Nathália? – Lucy perguntou.
- Nathália sofreu uma queda muito forte e teve comprometimentos cranianos, várias concussões. E a queda ocasionou parada elétrica cerebral. Houve lesões no córtex.
- E o que isso significa? – ela perguntou.
- Ela perdeu todos os estímulos. Fizemos testes para saber se algum dos sentidos esta funcionando, mas houve perda total – ele fez uma pausa – Nathália entrou em coma.
  Todos ficaram perplexos por alguns segundos enquanto eu era despedaçada pouco a pouco.
- Coma! Nathália entrou em coma? – meu mundo caiu e deslizei pelos braços de Arthur aos prantos, um grito de dor irrompendo por minha garganta e coração.

Um Romance de:

~CONTINUA~

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