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Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não." City of Angels


♥ 17. DECISÃO ♥



Passei alguns minutos sentada na cama, esperando que meu corpo voltasse ao normal. Por fim, só restou uma sensação de perigo, como se eu estivesse perdida em um lugar escuro e desconhecido. Foi assim o resto do dia.
  À noite, assim que meu pai chegou do trabalho, o telefone tocou, Eu estava vendo o noticiário e nem ao menos prestei atenção.
- Alô? Olá rapaz! – ele esperou alguns segundos – Não, elas não estão aqui. Espere só um momento. Sammy? – ele me chamou.
- Oi? – olhei para ele.
- Viu Ashley e Melissa hoje? – ele parecia preocupado.
- Não – respondi achando a pergunta estranha – Por quê?
- Os Mason não sabem onde estão e elas não atendem o celular – o aperto em meu peito voltou e respirei fundo para contê-lo – Arthur? Ela não as viu. Qualquer coisa peço para ela ligar para você, ok? – Arthur falou algo – Não se preocupem, isso é coisa de garotas. Já, já voltam. Até logo.
  Passei a noite sentindo o mesmo aperto no peito que se intensificava à medida que a chuva do lado de fora ficava mais forte. Tentei me tranquilizar absorvendo a ideia de que meu pai estava certo e que elas logo voltariam.
  Mas algo dentro de mim sussurrava que talvez não.
  Já se passava das dez quando fui dormir. Assim que deitei, peguei o Iphone no criado-mudo e disquei o número da Ashley – que caiu na caixa postal assim como o de sua irmã.
- Arthur?
- Oi Sammy – sua voz era apática ao me atender ao telefone.
- Elas chegaram?
- Não, nenhum sinal delas – fiquei em silêncio por alguns segundos – Sammy?
- Oi.
- Tudo bem? – quase pude ver suas sobrancelhas se unindo e seus olhos escurecendo. Pensei em contar sobre o que havia acontecido. É só uma paranóia. Eu não ia preocupá-lo ainda mais.
- Tudo. Quando elas chegarem me liga?
- Ok.
- Pode ser a qualquer hora.
- Tudo bem.
- Tchau, eu te amo – disse por fim.
  Apaguei o abajur e fechei os olhos, me concentrando na respiração. No meio da noite, ouvi um barulho alto e acordei. Com a ventania forte, a janela ao lado da cama havia aberto, a cortina balançando com o vento. Com um suspiro levantei e fui fechá-la.
  Eu já havia sentido aquilo. Era uma sensação demasiadamente familiar. Senti que alguém me observava, mas mesmo que eu tentasse, não conseguiria ver na escuridão. Alguém acendeu a luz na casa de frente a minha. Um feixe de luz iluminou vagamente a rua e pude ver o desenho da sombra de alguém no asfalto. Levantei os olhos para tentar ver quem era e pude notar dois pontos de luz fitando-me diretamente. 
  Arfei de medo e peguei o celular embaixo de meu travesseiro. O número de Arthur estava em chamadas recentes, mas antes mesmo que começasse a chamar, não havia mais nada. Fechei a janela num rompante e me enrolei nos cobertores.
  Em algum lugar de minha mente, eu reconhecia aqueles pontos de luz.
  Pela manhã estava tudo do esmo jeito. A chuva não cessava e a sensação continuava a me incomodar. Ao descer, ouvi o barulho do motor do carro do meu pai – ele acabara de ir para o trabalho. Lucy estava na cozinha quando fui tomar café.
- Bom dia – Lucy cumprimentou guardando alguma coisa no armário.
- Oi – abri a geladeira – Ele foi trabalhar ou no hospital.
- Os dois.
- Ah – peguei a garrafa de leite – Vai fazer alguma coisa hoje? – peguei no armário a lata de biscoitos.
- Não, por quê? – ela perguntou encostando na bancada.
- Vou ver Nathália, que vir? – desde quando eu havia ficado boazinha?
- Sério? – ela perguntou surpresa. Sentei-me e peguei um biscoito.
- Sim – coloquei o leite no copo.
- Quero – ela ficou me silêncio – Seu pai pediu pra você fazer isso?
- Não. Também não sei o que deu em mim – peguei mais dois biscoitos e fechei a lata.
- Ok – ela me olhou desconfiada por um segundo e seguiu para seu quarto.
  Depois de terminar de escovar os dentes, conclui que eu estava parecendo a menina de O Chamado. Passei as mãos pelo cabelo, desfazendo a semelhança.
- Por que está fazendo isso? – Lucy perguntou enquanto eu dirigia.
- Não sei – também me fiz a mesma pergunta, obtendo a mesma resposta que dei a ela.
- Você não precisa fazer isso, sabe não é?
- Fazer o quê? – por um segundo olhei para ela de sobrancelhas unidas.
- Sammy, está magoada comigo. Não precisa fingir que me perdoou.
- Não, eu não te perdoei. Mas também não estou fingindo o contrário. Já tem problemas demais na nossa casa, quero pelo menos amenizar um deles.
- Nossa casa? – eu nunca me referia a casa como sendo nossa, e sim como minha ao falar com ela.
- É nossa. Mesmo eu não gostando, você é minha mãe.
- Você me considera sua mãe? – bufei ao ouví-la.
- Você me deu à luz e por conta disso é minha mãe. Nada mais.
- Ah.
- Mas obrigada.
- Pelo quê – ela estava surpresa novamente.
- Por ter se preocupado com Nathália, por ter se importado quando soubemos que ela está em coma.
- Ela é minha filha. E não só porque veio de meu ventre – olhei para ela pelo canto do olho. Ela sorriu levemente e ficou olhando pela janela, como eu fazia.
  Ao chegarmos tentamos encontrar John em seu consultório, mas estava vazio. Fomos ver Nathália e o vi de cabeça baixa anotando algo em sua prancheta em frente ao quarto dela.
- John – sorri. Ele levantou a cabeça e pude ver que seus olhos eram sem vida, manchas arroxeadas abaixo deles. Meu sorriso cessou – O que houve? – toquei seu rosto.
- Elas não chegaram – ele baixou a cabeça novamente.
- Não – repeti. Meu coração voltou a apertar – Não encontraram? – ele voltou a me olhar.
- Procuramos em todos os lugares possíveis e nada. Ligamos para todos os seus amigos e nenhum as viu. Elas não são assim Sammy. Elas não somem – ele baixou novamente a cabeça e deixou os ombros caírem, levando uma mão ao rosto. Aproximei-me dele e o abracei.
- Nós vamos encontrá-las – ele me abraçou forte e chorou.
  Eu podia sentir sua dor, o medo de perder. Eu havia sentido isso quando vi Nathália caída no chão, quando soube que ela estava em coma. É como se seus pés não se movessem com a velocidade necessária, como se o chão fosse retirado e você estivesse em uma queda livre sem chance sobrevivência.
- Vocês comunicaram à polícia? – Lucy perguntou. Afastei-me de John.
- Bryan ligou hoje de madrugada. Há essa hora já devem ter começado as buscas.
- Você deveria pedir uma folga pra tentar achar as meninas. Na verdade, você está precisando dormir, John – passei os dedos abaixo de seus olhos.
- Eu não vou conseguir Sammy. Vou ficar preocupado com elas. Estando aqui no hospital monitoro quem entra e quem sai. Se elas se machucarem e vierem para cá, irei saber.
- Machucar? – perguntei confusa.
- Elas são humanas – ele respondeu. Na verdade ele quis dizer: Elas estão humanas. Essa era mais uma coisa sobre ele s que eu descobrira.
  Lucy pediu licença e foi ver Nathália. Fiquei com John.
- Elas disseram para aonde iam, quando saíram?
- Não. Elas saíram muito cedo, ainda estávamos dormindo. Na hora do almoço, Suzan sentiu que algo estava errado e à noite realmente ficamos preocupados.
- Elas estão bem – lembrei do que ele disse sobre Suzan. Será que ela havia sentido da mesma forma que eu? – Vou ligar para meu pai, talvez ele possa ajudar – peguei o celular no bolso da calça. Após alguns toques, ele atendeu.
- Oi Sammy.
- Pai, ainda não acharam elas.
- Não? – ele estava preocupado – Já comunicaram à polícia?
- Sim, mas disseram d madrugada e ainda não acharam nenhuma pista. Você pode fazer alguma coisa? – rezei para que sim.
- Claro, filha. Vou reunir o maior número de pessoas que eu conseguir e iremos começar as buscas. Ligarei para a delegacia e saberei quem está cuidando do caso. John está por perto?
- Sim – olhei para ele – John? – ele levantou a cabeça – Meu pai quer falar com você. Vou ver Nathália – entreguei o celular a ele.
- Sr. Brandow? – ele chamou ao pegar o Iphone. Passei álcool nas mãos e entrei.
- Nathália, filha. É tão bom te chamar assim sem que você proteste – Lucy falava com a voz embargada, sentada ao seu lado e segurando a mão dela – Mas prefiro mil vezes te ver bem e me odiando, do que te ver numa cama de hospital, sem noção de nada. Sei que já é tarde pra dizer, mas me perdoe, por favor – ela baixou a cabeça – Eu te amo, filha.
  Sorri de leve ao ouvi-la. Nunca havia pensado que mesmo com tanto desprezo, Lucy fosse aprender a amá-la. Como eu queria que ela pudesse escutar!
- Eu te amo muito – ela levantou a cabeça – Você e Sammy – ao ouvir meu nome, meu coração parecia ter ficado mais aquecido – Espero que um dia vocês me perdoem. Eu me arrependi, muito. Daria o que fosse preciso pra que vocês não tivessem sofrido, não queria magoar ninguém, juro – Ela baixou a cabeça e levou as mãos ao rosto. Lucy estava chorando.
  Nathália precisava e de mim e de Lucy, por mais que ela não aceitasse isso. Eu também precisava dela. Nunca havia tido uma mãe, talvez agora eu precisasse de uma.
  Algo que só aconteceria nos mais ilusórios sonhos de Lucy, estava acontecendo... comigo.
- Eu te perdôo – disse em um impulso. Ela se virou nu rompante para mim.
- O quê? – ela sorria e chorava ao mesmo tempo. Lucy levantou da cadeira e parecia trêmula ao me fitar.
- Eu te perdôo... – meus olhos encheram-se de lágrimas – mãe – Lucy sorriu e quase correu até mim, estreitando a pequena distância que nos separava.
- Minha filha, minha Sammy! – disse ela ao me abraçar. Ficamos assim por um tempo, as duas chorando. Nos afastamos quando ouvimos uma leve batida na porta.
- Sammy, já está na hora – John disse na porta.
- Certo – respondi – Vamos Lucy? – era difícil chamá-la de mãe, ainda soava estranho.
- Sim – ela respondeu. John deixou a porta aberta para que nós passássemos.
- Seu celular – ele me entregou. Guardei no bolso da calça.
- Algum sinal? – perguntei.
- Nenhum – ele suspirou.
- Vamos encontrá-las – coloquei a mão em seu rosto, sorri levemente e me virei pra Lucy – Vou te deixar em casa e irei pra casa dos Mason, ok?
- Claro, Sammy. Vá sim.
- John, vá para casa. Precisa descansar e os outros precisam de você também.
- Sammy...
- Elas vão voltar. Tenha fé – disse convicta. Ele suspirou e tentou sorrir.
- Obrigado Sammy – ele me abraçou.
- De nada – dei um beijo em sua bochecha e me afastei.
  A chuva ainda estava forte enquanto eu ia para mansão dos Mason – o céu quase negro – tive que ligar os faróis em pleno dia. Ao desligar o carro senti novamente o aperto no coração. Respirei fundo.
  Saí do carro e andei até o terraço, a porta estava entreaberta. Bati duas vezes enquanto entrava. Suzan e Bryan estavam sentados no sofá – de cabeça baixa – Arthur perto da entrada da cozinha, de costas para mim. Ao entrar, eles se levantaram, Arthur se virou e por um segundo vi a esperança no olhar de cada um transformar-se em decepção.
- Desculpe – olhei para Suzan, que voltou a sentar junto com Bryan.
- Sammy – Arthur disse. Era quase um pedido de socorro. Ele quase correu até mim e me abraçou – Sammy, como é bom te ver – ele enterrou o rosto em meu cabelo.
- Vamos achá-las – beijei seu ombro e me afastei, segurando seu rosto com as duas mãos – Acredita em mim? – olhei em seus olhos sem vida.
- Sempre – ele estava desesperado.
- Elas vão voltar, eu prometo – beijei sua testa e o abracei.
  As horas se passaram arrastadas e nenhuma notícia vinha. Eu estava no sofá, sentada entre Arthur e Bryan quando o interfone tocou.
- Será que são elas? – Bryan se levantou.
- Elas na tocam o interfone – Arthur respondeu. Bryan desabou no sofá.
- Quer que eu vá atender? – perguntei olhando para ele.
- Por favor – Arthur murmurou.
  Levantei e ao passar acariciei de leve seu rosto. Fui até a entrada da cozinha e peguei o interfone na parede – Alô?
- Por favor, a Srta. Samantha? – uma voz masculina falou. Me assustei. Quem me procuraria na casa dos Mason?
- É ela. Quem deseja?
- Sou o carteiro. Tenho uma correspondência. Você precisa assinar.
- Estou indo.
  Ao abrir a porta, um senhor baixo sorriu de leve ao me ver.
- Desculpe pelo incômodo – ele disse me entregando um envelope – Assine aqui, por favor – ele me passou um papel, algo como um recibo. Assinei e olhei a carta. Sem remetente.
  - Pode me informar quem mandou isso?
- Desculpe-me, mas não faço ideia. Essas informações são sigilosas.
- Ah, obrigada assim mesmo. É só isso – lhe devolvi a caneta
- Não. Tem mais essa. Não é necessário assinar – ele me entregou outra correspondência – Obrigada Srta.
- Por nada – fechei a porta. Algo como um instinto me alertou e dobrei a carta, colocando-a no bolso.
- O que era? – Suzan perguntou.
- Só uma correspondência. Onde coloco?
- Me dê – andei até ela e lhe entreguei – Obrigada.
- Por nada. Posso ir beber um pouco d’água?
- Claro, te acompanho.
- Não precisa – falei de pronto – Sei onde fica tudo – sorri gentilmente.
- Está bem, então – fui para a cozinha um pouco apressada e fiquei encostada na parede, assim ninguém me veria. Peguei a carta do meu bolso e abri com cuidado para que não ouvissem o barulho do papel se rasgando.
  Tirei a carta do envelope e desdobrei. Uma caligrafia fina e meio rabiscada me recebeu. Respirei fundo antes de ler, a sensação ruim que eu vinha carregando desde o começo aumentando.

Você não sabe quem sou, mas sei tudo sobre você e me simpatizei com o que suas amiguinhas me contaram. Sim, você deve estar surpresa, não é? Estou com suas protetoras, Ashley e Melissa. Quer vê-las de novo? Acho que sim, não vai querer ver nos noticiários que suas anjinhas foram assassinadas e a culpada ter sido você. Não se apavore, não farei nada com elas, a menos que não esteja aqui ao pôr do sol.
  Deve estar curiosa para saber quem sou. Sabe onde é a parte de Boston que não é mostrada aos turistas, não sabe? Sim, você sabe. Quero que venha até um galpão, perto de uma livraria, a única que existe nessa parte desconhecia da cidade. Se não souber onde é, se vire.
  Você tem um prazo. Até o pôr do sol. Se não estiver aqui aos primeiros minutos do anoitecer, quem sofrerá pelo seu atraso, serão suas amigas.
  Seja boazinha e não traga ninguém com você. Saberei se não estiver sozinha.
  O galpão fica no final da rua da livraria.
                   Espero ansiosamente por sua chegada;
                                         Jany Michell.

Minhas mãos tremiam e todo meu corpo estava congelado. Olhei para a carta e tudo era turvo. Lágrimas de terror despencavam de meus olhos, molhando meu rosto e por fim caindo no papel. Quase sem força uma subi lucidez m tomou. Limpei as lágrimas e fechei os olhos. Eu precisava pensar. Precisava de uma desculpa para sair dali o mais rápido possível, por que o tempo estava se esgotando.
  Tinha que me reconstruir, recolher todos os meus pedaços e colá-los para poder ir até a sala e dizer adeus a minha segunda família, para poder mentir para eles. Meu estômago estava irrequieto, eu tinha sido reduzida a nada. Dobrei a carta rapidamente e a coloquei no envelope – ignorando o barulho que fez – fui até o armário e peguei um copo, afinal eu estava ali para beber água. Pude sentir o protesto de meu corpo enquanto o líquido fazia seu caminho até meu estômago.
  Respirei fundo e dei os primeiros passos para a despedida.
- Você demorou, vim ver se está bem – encontrei Arthur na entrada. Guardei a imagem de seu rosto, a última. Pensar nisso fez meu coração doer, minha garganta sufocar e logo vi que estava chorando. Abracei Arthur pela última vez.
- Sammy, calma. Você não devia ter guardado isso por tanto tempo – ele estava se referindo ao jeito como eu havia reagido ao desaparecimento delas, mas eu pensava que não estava acontecendo nada de ruim. Elas eram anjos. Afastei-me dele para poder olhar em seus olhos azuis.
- Elas vão voltar. Eu juro – falei entre soluços.
- Eu sei, Sammy – Como ele mentia mal!
- Arthur, eu amo você. Muito. Você foi a única coisa em que acertei em toda aminha vida. Me desculpe pelas vezes em que errei, por todas as vezes em que te deixei preocupado. Sempre estarei com você – segurei o pingente que havia dado a ele – Você sempre será uma parte de mim, a mais importante – o abracei.
- Sammy, por que está falando isso? – ele perguntou confuso. Eu não podia falar nada e eu não tinha tempo para inventar desculpas. Afastei-me dele e fiz minha mente capturar cada mínimo detalhe de seu rosto.
- Deu vontade. Se cuida, tá? Vou pra casa – falei antes que ele fizesse mais perguntas – Depois volto – rezei para que ele não detectasse a mentira em minha voz. Eu jamais voltaria.
- Obrigada querida – Suzan me abraçou e segurei o choro.
- Sammy – Bryan tentou sorrir. Ele me abraçou e como sempre me tirou do chão, deixando-me sem ar. Dessa vez não reclamei. Não faltava muito tempo para a última vez e que meus pulmões funcionariam. Bryan me pôs no chão e toquei seu rosto.
- Sejam fortes – ele me olhou confuso. Abaixei a mão – Tchau – olhei para os três. Arthur semicerrou os olhos para mim. Fui até ele em silêncio e lhe dei um beijo de adeus.
  Eu não poderia falar pela última vez com meu pai e minha irmã, isso me matava, mas não tinha outra escolha. Pensar nela me fez sufocar.
- Meu Deus, cuide da Nathália. A faça acordar, dê forças a ela e ao meu pai. Cuide de Lucy e a faça ser perdoada. Conforte minha família – rezei enquanto pegava a estrada que me levaria a Jany. Durante todo o percurso, minha vida inteira passou como um filme em minha mente. Mas assim que lembranças de Arthur a inundou, bloqueei-as com todas as minhas forças. Sabia que se as revivesse ficaria em pedaços novamente.
  Eu precisava de controle.
  Após duas horas de estrada – agradecendo por meu pai ter completado o tanque no da anterior – comecei a avistar o subúrbio de Boston. As ruas estreitas, com casarões antigos abandonados e muitas vezes com lendas de fantasmas, sem falar nas gagues que circundavam por ali. Uma área nada atrativa para o turismo.
  Era hora de lembrar qual o caminho para a livraria. Por sorte, eu já tinha vindo aqui. Assim que chegamos do Texas, meu pai ficou perdido e ao pegarmos a estrada errada, andamos em círculos durante tempo o bastante para eu memorizar algumas características. Eu me recordava de ter passado por um parque de diversões – na verdade era um carrossel e roda gigante enferrujados – mas não sabia se ainda estavam lá. Com medo de me perder, procurei por alguém na rua. Encontrei uma senhora – que parecia estar muito cansada do outro lado da rua, colocando o lixo na lata, a pé da escada da varanda pequena. Olhando por todos os lados, estacionei e desci, indo ao encontro da senhora.
- Sra.? – ela me olhou assustada – Poderia me ajudar? – seu rosto se suavizou ao me ver.- Claro mocinha. O que deseja? – ela perguntou se apoiando no corrimão da escada.
- Queria saber como chego a uma livraria que tem por aqui, não sei o nome – a chuva tinha dado uma trégua, mas o vento era extremamente gelado. Olhei para as roupas que ela vestia e me pareceram muito finas para aquecê-la. Senti-me um pouco envergonhada de estar usando roupas de marca.
- Sei sim. Só há uma livraria por aqui. Daqui a duas ruas à esquerda, é logo no começo. O nome é Realeza.
- Obrigada – sorri de leve.
- Criança, quantos anos tem? – seu tom de voz era preocupado.
- 17 – murmurei.
- Não devia estar num lugar desses. Você não é daqui, posso ver por suas roupas – ela sorriu gentilmente – Tenha cuidado, aqui é perigoso e você é uma moça muito bonita.
- Obrigada. Tenho que ir agora, desculpe.
- Vá com Deus – ela disse. 
  Voltei correndo para o carro. Ao entrar, olhei para a senhora, que agora subia com dificuldade os poucos degraus. Se tivesse tempo a ajudaria. Segui as informações que ela havia me dado e logo achei a rua. Não encontrei os brinquedos, talvez fosse em outro lugar ou já tivessem tirado.
  Não era tão estreita quanto as outras, nem tão assustadora, mesmo assim me senti num filme de terror. Olhei no relógio do carro e já eram cinco e meia. A noite estava se aproximando – mas já era escuro por conta da nebulosidade. Meu coração parou e voltou a bater rapidamente, meus batimentos se tornando audíveis.
  Pela visão periférica, vi dois carros um pouco mais a frente da livraria. Um carro bem antigo e o Audi prateado da Melissa. Eu havia chegado. Estacionei e encostei a cabeça no volante. Ainda tinha algum tempo.
- Deus, cuide da minha família. Arthur – levei minha mão ao pingente. Agora permiti que minha mente liberasse todas as imagens que tinha dele. Seus beijos, abraços, sorrisos. Seus olhos – Eu te amo – respirei fundo, levantei a cabeça e saí do carro.
  A rua estava deserta e escura. Não se escutava nem ao menos o canto de uma cigarra ou o leve barulho das folhas ao balançar com o vento. Procurei pelo galpão que Jany havia falado e o avistei no final da rua, na esquina. Meu estômago se contraiu dolorosamente ao ver que eu estava mais perto do perigo do que imaginara. Respirei fundo e engoli – como se esse ato fosse fazer meu medo descer pela garganta – e comecei a dar os primeiros passos que me levariam a Ashley e Melissa. Pensar nelas fez minhas pernas se moverem mais rápido – me causado arrepios ao ouvir o barulho de cascalho sob minha bota sem salto –, as passadas ficando mais largas. Minha respiração se tornava mais acelerada à medida que me aproximava do galpão e quando cheguei, estava ofegante, respirando de boca aberta.
  Havia duas portas. Uma de ferro – que era necessário algum tipo de gancho para alcançar o topo quando erguida – e outra para pessoas. Olhei para os lados, certificando-me de que ninguém me veria entrando ali e abri a porta de alumínio destinada apara passagem de pessoas.
  Parecia um galpão inutilizado há anos. No teto havia furos por onde a luz escassa da lua começava a iluminar vagamente. Olhei ao redor e máquinas enchiam o espaço. Eram extremamente obsoletas, do século XIX talvez. À minha frente tinha uma porta com uma placa de metal enferrujado escrito: Atendimento de funcionários só pela manhã. Decidi ir até lá. Jany não estava ali, se estivesse eu já teria escutado uma voz desconhecida chamando por mim ou talvez Ashley e Melissa gritando.
  Tudo estava numa quietude aterrorizante. O único som era o agourento chapinhar de minhas botas sobre o chão parcialmente molhado. Algo dentro de mim ordenava que eu saísse daquele lugar o mais rápido possível, talvez fosse meu subconsciente, mas estava absorta demais em meu medo para fazer algo além do roteiro que eu tinha. Duas vidas dependiam de mim, essa era minha única certeza. Seria eu, forte o bastante para enfrentar o que viria?
  Então, com o pavor inundando minhas veias, girei a maçaneta – arfando quando o som me paralisou – e dei o primeiro passo para ficar frente a frente com o desconhecido.


Um Romance de:

~CONTINUA~

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