"Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.
City of Angels
- Sempre te acharei - ele pôs a mão em meu rosto, causando arrepios em minha pele. Seus olhos arderam nos meus, as faíscas passando entre nós. 
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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. 
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3. HOSPITAL 

- Ela vai ficar bem, acalme-se Arthur! - alguém falou ao fundo. 

- Como eu vou ficar calmo Bryan, se já faz quarenta e cinco minutos que ela desmaiou e até agora não deu nenhum sinal de que está, no mínimo, viva? E o médico que não chega,droga! 

Quase pude ouvir minha mente dar um suspiro de alívio. Havia vozes, então eu não estava mais perdida na floresta escura e fria. Mas como me encontraram? Não parecia haver nada além de árvores e ladeiras fatais.

- O Dr. Mason chegou! - anunciou uma garota que parecia estar muito nervosa. Essa voz eu conheceria em qualquer lugar, estando desperta ou não. Era uma voz amiga, doce, era a voz da Sophia. 

- O que aconteceu com ela? Vocês podem me dizer como isso aconteceu? - uma voz firme, grave, mas não rouca, encheu a sala com um tom alarmado, porém experiente. 

- Ela se perdeu e quando ele a encontrou, ela estava caída, desmaiada e com a cabeça sangrando. - alguém falou aos prantos. Parecia ser a voz da Ashley e pensar que poderia mesmo ser ela chorando por mim, me fez querer mexer alguma parte do corpo para sinalizar que eu estava viva. Tentei apertar um pouco a mão que segurava a minha, mas nada aconteceu. Percebi então que o único sentido que havia mais ou menos voltado era a audição. 

- Sinceramente não sei como ela sobreviveu, olha a quantidade de sangue! Arthur saia do lado dela, deixe-me analisá-la. - a voz experiente estava mais perto e a mão que antes segurava a minha desapareceu no mesmo instante. 

- Claro pai - Arthur falou agoniado. Então quer dizer que é o pai dos Mason que está aqui? Algo tocou minha testa e perdi a concentração. 

- Ela está ardendo em febre. Os ferimentos não parecem fundos, mas vou precisar limpá-los antes de dizer qualquer coisa e tenho que desinfectá-los antes que as chances de infecção aumentem. E ainda tenho que ver a nuca. Melissa me passe minha maleta, por favor. - houve uma pequena pausa - Obrigado. Vou aplicar a anestesia nela, mas não poderei esperar o efeito, tenho que limpar logo isso. - respondeu o Dr. Mason.

Senti que alguém examinava minha cabeça e depois algo começou a cortar. Foi como se eu estivesse me cortando com uma folha de papel, até que essa folha parecia ter se transformado em uma lâmina que me cortava cada vez mais profundamente, até que em algum momento a dor foi tão insuportável ao ponto de todos os meus sentidos voltarem de vez e eu ser puxada para fora da escuridão. 

- Ah! - gritei me sentando em uma cama na qual eu estava deitada anteriormente. Eu respirava rápido demais devido à dor que parecia estar me dilacerando. Minha cabeça girou e meu corpo se jogou para trás, mas braços me seguraram. A primeira pessoa que vi foi Arthur, que estava bem na minha frente, olhando para mim assustado. Sua camisa branca estava machada, parecia terra e sangue, mas não tive certeza, pois uma jaqueta a cobria. Ao lado dele estava Ashley, encarando-me com alivio e pesar. Olhei rapidamente em volta, ignorando a dor em minha cabeça e vi que eu estava em um hospital: O quarto era grande e havia máquinas do meu lado. Todos do acampamento pareciam estar lá. Quando me virei para ver quem me tinha "cortado", vi um homem de cabelos lisos, escuros, com olhos verdes e de pele branca como algodão, olhando atento, mas surpreso para meu rosto. Seus braços fortes me seguravam. Ele era extremante lindo e pelo que percebi era o pai dos Mason. Ele era o Dr. Mason. Quando tentei perguntar o que tinha acontecido, ele me interrompeu. 

- Por favor, Samantha, fique assim, eu preciso terminar de limpar sua nuca. - ele falou com um sorriso que me deixou desconcertada. Não consegui dar uma resposta e isso o fez pensar que eu estava nervosa -meus olhos arregalados olhando para ele - mas minha respiração estava controlada e eu não estava mais sentindo aquela dor insuportável, na verdade, tudo parecia meio dormente. - Samantha, está tudo bem, você está segura agora. Você ficará bem. - disse ele numa voz tranqüilizadora - Eu preciso terminar de desinfectar isso para que a situação não piore. - me olhei e vi que minha calça jeans tinha um rasgão na coxa direita e minha pele exposta sangrava, olhei para meu tronco e minha blusa estava cheia de rasgos e manchada de sangue, mas em minha barriga só havia arranhões superficiais. Meus braços também estavam aranhados. Quando olhei novamente para o Dr. Mason percebi que eu ofegava e que meus olhos estavam embaçados. Depois as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto em soluços descompassados e barulhentos. 

- Pai, ela entrou em estado de choque! - Ashley falou e levantei a cabeça para olhá-la. As lágrimas em seus olhos haviam voltado e agora seu rosto revelava uma expressão preocupada. Eu não tinha percebido, mas o meu choro havia se tornado pior e eu já perdera o controle sobre ele. 

- Sammy... - Arthur começou. 

- Samantha, se acalme, por favor. Você vai ficar bem. Samantha olhe pra mim - O Dr. Mason falou quando não olhei para ele. Sua voz era firme, autoritária. Olhei seu rosto e o vi com uma expressão séria – Samantha, você tem ferimentos por quase todo o corpo, mas o de maior risco é o da nuca. Fique calma, você ficará bem - tentei acenar com a cabeça e soltei um grunhido de dor ao tentar. 

De vez em quando alguém falava pra mim que eu iria ficar boa e aos poucos minha respiração foi se acalmando à medida que o choro cessava. Depois que o Dr. Mason terminou de limpar os ferimentos e de colocar todos os remédios, se dirigiu a porta e pediu para que todos saíssem, pois eu precisava descansar. 

- Pai eu vou ficar um pouco mais. Estou com o carro, então não se preocupe. - disse Arthur quando o Dr. Mason o chamou para sair do quarto. 

- Está bem, mas seja breve e tome cuidado. Samantha daqui a pouco a enfermeira vem pegá-la para tirar um Raio- X do seu crânio, aparentemente você não tem nenhuma seqüela da pancada, mas é melhor averiguarmos seu caso para que não tenha chance de formar nenhum coágulo. - Falou ele e saiu do quarto dando uma última olhada para Arthur. 

- Como você está? - ele estava preocupado. - Agora, bem. - eu estava um pouco enjoada, mas nada comparado a dor que eu senti. - Você nos preocupou - Ele disse sorrindo levemente. 

- Desculpe - respondi amuada 

- Vou deixar você descansar. Amanhã volto. Na verdade, mais tarde - disse ele olhando no relógio. 

- Ok. 

- Tchau, Sammy - ele se aproximou de meu rosto - Arthur, estou toda suja - gemi ao vê-lo se inclinando para me dar um beijo na testa. 

- Fique boa logo - ele me deu um beijo e saiu, dando-me um sorriso torto ao passar pela porta. 

Depois de algum tempo a enfermeira me levou para tirar Raios-X, quando terminou voltei para o quarto e decidi que precisava de um banho, mas seria impossível neste momento. 

- Está na hora do seu analgésico querida. - uma senhora havia entrado no quarto com uma seringa na mão e um sorriso bondoso nos lábios - Você deve estar sentindo dor, os ferimentos não são graves, mas são muitos e a pancada também não deve ter ajudado, mas você é uma menina forte, irá se curar logo - disse ela vindo a meu encontro. 

- Acha que vou ficar com cicatrizes? 

- Depende de como seu corpo irá reagir, mas creio que não. Vou aplicar essa injeção em seu soro e irá se sentir melhor. Deve estar desconfortável e com dor, não é? -perguntou ela gentilmente 

- Não, estou bem - menti. Eu estava dolorida, parecia que um trem tinha passado por cima de mim e me deixado na consistência de uma gelatina, fora a dor insuportável na cabeça, mas ela não precisava saber disso. 

- Bom, ainda assim será bom ter algum remédio em seu corpo - disse ela. Com certeza não tinha acreditado na minha mentira mal contada. 

- Obrigada. - sorri um pouco 

- Até mais criança - enquanto ela aplicava o analgésico e ele se espalhava em minha corrente sanguínea, comecei a ficar com sono, então fechei os olhos e me deixei adormecer novamente, me sentindo um pouco melhor. Não sei quanto tempo dormi, mas o bip irritante de alguma máquina que estava no quarto me acordou. Olhei em volta meio atordoada e me deparei com a Ashley sentada em uma poltrona um pouco distante da cama onde eu estava olhando para mim com o mesmo sorriso que vi em seu rosto no dia em que nos conhecemos. Era um sorriso feliz. 

- Que bom que você acordou. Como se sente? - perguntou saltando da poltrona, vindo se sentar na ponta da cama. 

- Eu estou bem e você como está? - podia até ser impressão minha, mas a meu ver o quarto parecia ter ficado mais alegre, mais claro. 

- Estou ótima, melhor agora, eu confesso, ao ver você no estado físico normal. Bom, quase normal - disse ela olhando para os curativos em meu corpo e franzindo o cenho. 

- Não estou mais com dor, verdade - não falei com tanta certeza, mas era verdade, só não sei se ela acreditou em mim. 

- Você acordou sem dor e se permanecer assim, terá alta amanhã e se, se sentir capaz, poderá até ir para o colégio. - falou ela perdida em suas conclusões. 

- Quem te disse isso? - perguntei num tom desconfiado que a fez voltar suas atenções para mim. 

- O papai, claro! Ou você acha que fui eu que te diagnostiquei? - ela levantou as sobrancelhas e me olhou com uma cara de quem não acreditava no que eu havia pensado.Olhando-a, comecei a rir. 

- Por que você está rindo? - ela fez beicinho, me fazendo rir ainda mais. - Estou rindo de você Ash! 

- Dã... A propósito gostei de você ter me chamado pelo um apelido, ele soa bem na sua voz! - ela levantou da cama e veio para mais perto de mim - Agora vou indo, tenho que chamar o papai pra te examinar! - ela me deu um beijo na minha testa e saiu do quarto com um andar tão suave que deixaria qualquer modelo com inveja. 

- Com licença Samantha - disse o Dr. Mason depois de alguns minutos, batendo de leve na porta e entrando no quarto. 

- Bom dia Dr. Mason - ainda estava pensando no jeito da Ashley, então um sorriso ainda estava estampado em meu rosto. 

- Bom dia Samantha. Pelo que vejo você está bem melhor hoje! - ele parecia satisfeito ao falar. 

- Ashley esteve aqui alguns minutos atrás e creio que esse meu bom humor seja culpa dela. 

- A Ashley gosta muito de você, a faz feliz te ver bem. Ela ficou muito nervosa com tudo o que te aconteceu. - ele tirou o curativo de minha nuca e já estava fazendo outro. Depois que refez todos os curativos, deu um suspiro pesado e começou a tirar as luvas das mãos. 

- Você teve muitos ferimentos Samantha, foi muita sorte nenhum deles terem sido profundos. Como está a cabeça? - perguntou pegando a radiografia em sua maleta e dando uma olhada nela. 

- Não sinto mais dor. 

- É, você não teve nenhuma fratura e não apresentou nenhum sangramento, suas costas também não sofreram danos - ele analisou a outra radiografia - então creio que não houve nada além desses arranhões. Se o seu quadro continuar evoluindo, amanhã você já terá alta, mas vai ter que continuar fazendo os curativos em casa, ok? 

- Claro, pode deixar. 

- Até mais Samantha! De noite passo aqui novamente para ver como você está. - disse ele saindo do quarto. Os minutos se passaram e comecei a ter fome, mas teria que esperar minha comida chegar, ou que alguém entrasse no quarto pra que eu pudesse pedir algo. 

- Posso entrar Sammy? - Arthur bateu na porta e esperou do lado de fora por minha resposta. 

- Pode. 

- Como está? 

- Bem - depois de ter tomado um banho constrangedor com a enfermeira me vigiando. 

- E a cabeça? 

- Até agora bem. Dr. Mason esteve aqui pra ver como eu estava e fazer os curativos. E você? 

- Estou bem - ele me encarou por alguns segundos, alguns conflitos acontecendo em seus olhos. - Pode me dizer por que fez aquilo? - sua voz ficou séria. 

- Anh? - perguntei confusa. 

- Por que foi tão longe na floresta? 

- Eu estava procurando você - disse na defensiva 

- Não podia ter me esperado? - ele disse estreitando os olhos. 

- O quê? Eu não sabia que ia me perder - falei. 

- O que você fez foi uma loucura! Nunca mais faça isso comigo! - ele disse reclamando. 

- Eu não tive culpa, o que deu em você? 

- Você podia ter morrido, não pensou nisso? - ele estava com raiva e parecia se controlar. 

- Olhe aqui. Se eu soubesse que ia me perder, não teria ido lá. Agora você some com minha mochila, com história de armário, que só você vê e ainda reclama porque fui atrás? Faça-me o favor! - retruquei. - Que isso não se repita! - Saia daqui - ordenei. 

- Está me pondo pra fora? 

- Não - ironizei - estou pedindo gentilmente que você desapareça da minha linha de visão! 

- Ok - ele respondeu e saiu marchando, os olhos em fúria. Enquanto a raiva ia amenizando, comecei a pensar o que poderia fazer com que ele agisse daquela maneira. Não encontrei nenhuma resposta, o que me deixou frustrada. Saí de meus devaneios quando alguém bateu na porta. Deve ser o babaca do Arthur, pensei com raiva. 

- Olha, se você veio conversar comigo é melhor ir embora. Eu cansei de suas mudanças de humor repentinas! 

- Até onde eu sei, eu não fiz nada. Sou eu, a Sophia. Não me mate, está bem? - disse ela entrado no quarto com as mãos para cima. 

- Ah, Sophia, é você? Desculpe-me - falei, ficando vermelha. 

- Tudo bem, mas você pode me dizer pra quem era aquela bomba? - perguntou se sentando na cadeira vazia do outro lado da pequena mesa. 

- Para Arthur Mason - o garoto que me deixa praticamente uma pilha. 

- E por que tanta delicadeza com ele? - ela perguntou confusa - Era uma maneira de agradecer por ele ter salvado sua vida? 

- Como? - perguntei confusa. 

- Ok. - ela suspirou - falei demais - ela disse franzindo o cenho. 

- Diga logo - disse. - Ele passou a noite toda te procurando. Não parou nenhum minuto, nem quando já havíamos chamado a guarda florestal. 

- Ele me procurou? - perguntei amuada. 

- Sim. Desde o primeiro minuto em que sentimos sua falta. - ela disse pesarosa. 

- Ah... - pensei em sua reação a pouco e entendi. Ele estava preocupado comigo. A imagem dele coma camisa branca suja apareceu em minha mente. Era mesmo terra e sangue. Ele havia me carregado. - Quando fui encontrada estava há quantos metros do acampamento? - perguntei. 

- Três quilômetros. 

Arthur havia me carregado pela floresta escura e densa por três quilômetros, fora o que ele levou para me achar ali. Um sentimento de culpa me invadiu e senti remorso por ter falado daquele jeito com ele. Era só preocupação, afinal. 

- Sammy, está tudo bem? - Sophia perguntou quando meus olhos ficaram sem foco. 

- Estou - sussurrei. Sacudi a cabeça de leve para voltara realidade - Você já soube? Eu posso ter alta amanhã. – disse tendo me recuperado da raiva e colocando um sorriso no rosto. 

- Já? - perguntou surpresa. 

- É, mas só se meu estado continuar evoluindo. Se eu não apresentar mais dores. Essas coisas, sabe? 

- Que bom! - ela sorriu. - Sophia, por que meu pai e minha irmã ainda não vieram me ver? - perguntei, lembrando que ainda não os tinha visto. 

- Eles vieram, mas você estava dormindo. Vieram ontem, pouco depois que chegamos, mas você estava desmaiada. Seu pai e Nathália iam ficar, mas ele foi chamado para ir resolver umas coisas e teve que ir para o trabalho. Nathália ficou mais um pouco, depois o Bernard a levou para casa. De manhã vieram te ver, mas já tinham te medicado e estava dormindo, então eles foram falar com o Dr. Mason pra saber como era o seu estado de saúde, depois eles ficaram um tempinho com a gente, e foram embora, mas seu pai disse que antes ou depois do almoço viriam te ver. 

- Ah, tá. Eles sempre vêem na hora errada. Só espero não dormir antes ou depois do almoço. 

- É. E já vou indo, tenho que ir para casa tomar um banho e descansar um pouco, estou exausta. 

- Você ainda não dormiu? - perguntei surpresa. 

- Como eu ia dormir quando você estava mais pra lá do que pra cá? E àquela hora em que você acordou gritando deu arrepios em todo mundo. Ashley chorou tanto, foi triste. Lembrei dela chorando e suspirei. Coitada da Ashley, ela deve ter ficado assustada. 

- Sim, mas e quando eu acordei? Quando ficou tudo bem? 

- Eu quis ficar aqui só por desencargo de consciência, não queria ir para casa enquanto você ainda corria riscos. - Tá bom. Mas agora já estou bem, então vá para casa e aproveite o resto de seu fim de semana e só me apareça aqui amanhã, isso se eu não tiver recebido alta! 

- Sua boba, até parece que vou perder o quebra pau de você com Arthur quando vocês se encontrarem. 

- Ah, claro! Obrigada por me lembrar. Não se preocupe você não vai perder nada, eu mando alguém filmar caso você não veja. - Disse desviando os olhos para o tampo de vidro da mesa. 

- Mas nada é como ao vivo e a cores! Agora vou indo Sammy - Ela se levantou e veio me dar um beijo na cabeça. 

- Até loguinho. 

- Tchau, se cuida e cuidado com os nervos! - Ela saiu rindo do meu estresse. 

O resto do dia passou normal. Depois do almoço meu pai e minha irmã vieram me ver e nós ficamos conversando praticamente a tarde toda. Como já é de costume eu e Nathália tivemos nossas desavenças, mas papai a mandou dar um tempo porque eu estava de cama, então ela ficou com uma cara emburrada, mas só por alguns minutos. Depois eles foram para casa pegar algumas coisas para passarem a noite aqui. 

Sophia voltou no finalzinho da tarde e nós ficamos conversando. Ela me deu o relatório completo sobre cada um que estava no hospital. Quem não pôde ficar, quem tinha ido embora, quem chorou, quem fez escândalo e tudo mais que tinha ocorrido do lado de fora do quarto. No começo da noite todos menos o Arthur, entraram no quarto acompanhados pelo Dr. Mason que veio ver como eu estava. Depois que ele saiu ficamos atualizando nosso banco de notícias. 

 Durante toda a noite percebi que Ashley às vezes me observava com um olhar ambivalente, mas talvez fosse só impressão minha. Não perguntei por ele, porque eu sabia que se eu perguntasse, a Sophia iria falar algo que me colocaria como assunto principal da conversa. Lá pelas onze da noite, meu pai e a Nathália entraram no quarto e meu pai tentou expulsar todo mundo, mas como eles já tinham pegado tapetes e almofadas - sabe-se lá de onde - para passarem a noite aqui, meu pai cedeu e deixou a gente continuar a conversa. Como o Dr. Mason já havia me liberado dos analgésicos, a enfermeira só entrou para pegar a bandeja do meu jantar, checar os aparelhos e ver se eu estava com dor. Com o passar dos minutos a conversa foi se reduzindo. Alguns dos meus amigos, meu pai e minha irmã tinham pego no sono. Só ficou eu, Sophia, Anita, Richard, Ashley e Bryan conversando. Mas fiquei com sono e me deixei levar por ele, até que adormeci completo e profundamente. 

- Posso entrar? - perguntou a Ashley com um sorriso. 

- Pode! Bom dia Ash! - retribui seu sorriso 

- Pelo que estou vendo, você está bem melhor, não é? - perguntou se sentando na outra cadeira. 

- Sim 

- Fiquei preocupada com você - seu rosto desmoronou um pouco. 

- Obrigada - disse me lembrando de seu rosto quando acordei - mas já estou bem 

- Ótimo - ela voltou a sorrir. 

- Já posso ir embora? - perguntei ansiosa 

- Já não aguenta mais esse hospital, não é? - ela sorriu. 

- Não mesmo - respondi desconcertada. Essa era uma parte bem pequena do motivo pelo qual eu queria sair logo dali. Na verdade eu queria vê-lo, olhar seus olhos e pedir desculpas. 

- Pode sim. Suas coisas estão com o Bryan, lá fora, o seu pai deixou aqui ontem a noite. Ele não vai poder te levar porque tem que ir para o trabalho, então como nós vamos também para o colégio, eu disse que te levaria. Agora vá se arrumar e tomar café, se não vamos nos atrasar. Os outros já foram. A Sophia mandou um beijo. Agora vai! 

- Tá bom - falei me levantando da cadeira e indo para o banheiro que tinha do outro lado do quarto - Você pode ir pegar minhas coisas?

- Claro, eu já volto! - disse ela indo para a porta 

- Ok - falei de dentro do banheiro. Como que no piloto automático, tomei banho, me vesti com a roupa que a Ashley me deu, sequei meu cabelo com a toalha e penteei. Quando percebi já havia acabado tudo o que tinha de fazer e fui tomar o café da manhã que já estava numa bandeja em cima da mesa. Depois que acabei e escovei os dentes, sai do quarto e fui encontrar com os Mason para ir para o colégio. 

- Já terminou tudo? - perguntou a Ashley quando a encontrei com o Bryan e a Melissa no corredor. 

- Já. 

Quando chegamos ao estacionamento foi que eu percebi que eu nunca tinha visto o carro dos Mason, o único que eu já tinha visto fora o Jaguar preto reluzente de Arthur. Mas quando o Bryan desligou o alarme e entrou no carro foi que reparei. Eu já tinha visto o carro, era um Audi Q7 Facelift, meu pai gostava de programas automobilísticos e em algum dia em que eu estava sem ter o que fazer, devo ter assistido o programa com ele e vi esse carro. - Esse Audi é lindo Bryan – elogiei ao entrar no banco de trás. 

- Gosta de carros? - perguntou ele enquanto saíamos do estacionamento 

- Não. Eu vi uma vez na TV. 

- Você devia ver o da Mel e o da Ash! O John deu pra Mel uma Chrysler 300C Convertible e pra Ash uma Mercedes Benz Eclass! 

- Ah - essa era a única resposta que eu tinha no momento. O Bryan havia falado dos carros como se minha resposta a pergunta dele tivesse sido totalmente contrária ao que foi. Quem me salvou de seu falatório foi a Melissa. 

- Ok Bryan. A garota acabou de sair do hospital, não queira levá-la de volta, está bem? Então pára de falar e olha pra frente antes que o carro bata em alguma coisa, ok? - reclamou ela olhando pela janela a estrada passar. 

- Ok, Madame - ironizou o Bryan 

O resto do caminho para o colégio foi sem mais conversas, só de vez em quando que alguém falava alguma coisa, mas nenhuma conversa longa. Fiquei contando os minutos para me encontrar com o Arthur e pensei nele quase o caminho todo, até que deixei um pouco e lado, se não eu iria enlouquecer. Nesse intervalo que minha mente teve, passou pela minha cabeça que eu devia ter falado com o Dr. Mason antes de vir embora, mas quando perguntei, a Ashley disse que não precisou porque ele tinha dito e ela que só o chamassem se eu acordasse com dor ou alguma outra coisa. Caso contrário, como a receita médica já estava com meu pai, eu poderia sair do hospital sem consultá-lo. 

- Bryan, bem que você podia ir mais rápido, não é? Eu não quero chegar atrasada - Melissa falou de mau humor. 

- E eu não quero ter que jogá-la no meio da estrada - Bryan disse com um sorriso sarcástico - Mel, se eu for mais rápido é bem capaz de eu levar uma multa, então, por favor, se esforce e tente ter um pouco de paciência, está bem? - ela ficou calada e acho que isso foi um sim. Quando chegamos ao colégio não havia mais ninguém no estacionamento e ele já estava quase lotado. Quando finalmente ele achou uma vaga e nós descemos do carro Ashley olhou o relógio. 

- Droga, a gente está quinze minutos atrasados! Bryan você realmente devia ter andado mais rápido - Ashley disse indo em direção ao colégio. 

- Agora a culpa é minha? Ashley pra onde você vai, você quer ser vista pelo diretor? 

- A gente tem que ir assinar a chamada lembra?

- Se você for agora, vão perceber que chegamos atrasados, vamos pra aula, quando for no final nós assinamos - ele já estava indo em direção ao corredor oposto à diretoria. 

- Ok, então. Sammy vá pra sua aula, nos vemos no almoço. - Ashley falou indo com Bryan. 

- Está bem. Você não vai com eles Melissa? - perguntei me virando pra ela. 

- Eu sou da sua turma de Literatura 

- Ah. - nós seguimos para a sala de aula tomando cuidado para que ninguém nos visse. Quando chegamos à sala, o Sr. Smith estava de costas para nós e aproveitamos para entrarmos sem sermos percebidas. Entrei andando rápido com medo de ser pega, enquanto que Melissa que sentava no lado direito da sala, quase no fundo, andou devagar como se tivesse chegado no horário certo. Não vi exatamente onde ela se sentou porque o Bernard chamou minha atenção. 

- Bom dia, Sammy! 

- Bom dia, Bernard! - falei me virando para ele. 

- E aí, como se sente? 

- Totalmente boa não estou porque os ferimentos estão cicatrizando e ainda tenho que tomar alguns cuidados, mas nada exagerado, então, no geral, acho que estou bem. 

- Pronta pra outra então? - Bernard perguntou sorrindo. 

- Não mesmo. A sorte não bate à porta duas vezes! - retribui seu sorriso 

- É verdade, foi um final de semana e tanto não é? 

- É. 

- Bom dia Srta. Brandow - disse o Sr. Smith vindo em direção à nossa mesa. 

- Bom dia Sr. Smith - respondi. 

- É bom saber que a Srta. já está bem - disse ele sorrindo. 

- Obrigada. 

- Por nada. - ele se virou e andou em direção ao quadro. A aula de Literatura foi tranquila, o Sr. Smith mandou cada dupla fazer um exercício para entregá-lo no final da aula ou no fim do dia. Como eu já tinha estudado o assunto, fiz o dever e entreguei. 

Bernard e eu ficamos conversando o resto da aula. Depois, curiosa para saber com quem a Melissa estava fazendo a tarefa, virei para olhá-la e me surpreendi ao vê-la fazendo com Arthur, eu não sabia que ele também era da mesma turma de Literatura que eu. Acho que ele percebeu que alguém o olhava, ou talvez fosse só coincidência. Arthur olhou para mim e sorriu timidamente. Eu ainda não tinha me acostumado com a sua beleza, então, antes que eu perdesse todo o meu raciocínio, sorri levemente e desviei o rosto para prestar atenção ao que o Bernard estava falando. Após a aula de Literatura, fui para a de Geografia. No corredor encontrei Anita e Bianca que eram da minha turma. 

- Você nos deu um susto e tanto, sabia? - Bianca perguntou enquanto estávamos a caminho da sala de aula. 

- É, parece que vocês se preocuparam comigo mais do que deviam. 

- A gente? Isso é porque você não viu como Arthur ficou! 

- Nossa Sammy, você devia ter visto a cara dele enquanto te levava nos braços até a casa, pareciam que estavam torturando ele. - Anitacontou, lembrando da situação. 

- Você está exagerando - respondi indiferente. 

- Não estou não! Estou Bianca? 

- Não está não. Sammy, ele realmente sofreu. Enquanto você estava desmaiada ele não te deixou um segundo sequer. Eu acho que ele gosta de você. - Bianca falou enquanto entrávamos na sala de Geografia. 

- É, pode ser. - a aula passou sem que eu me desse conta. Quando terminei de copiar o que a Srta. West havia escrito no quadro e guardei minhas coisas para ir para o almoço o sinal tocou. Ainda bem que não terei tempo de sobra até o horário do almoço, pensei enquanto me levantava e ia com Bianca e Anita para o refeitório. No corredor vimos Beatriz e Miguel saindo da sala de Inglês. 

- Hey meninas! - Miguel chamou vindo em nossa direção. 

- Oi Miguel, tudo bem? - Bianca perguntou. 

- Tudo! E você Sammy? Preparada para o 2º Round? - ele me deu um abraço. 

- Pronta eu estou, quer dizer, mais ou menos, mas espero que não aconteça outra dessa. 

- O que vocês vão fazer hoje de tarde? - Beatriz perguntou. 

- Não sei. Sinceramente não faço a mínima idéia de como está a minha casa. - respondi, imaginando quantos dias eu ia demorar para colocar a casa no lugar de novo, depois que meu pai e minha irmã ficaram sozinhos por quarenta e oito horas. 

- Eu tenho que ir comprar umas roupas no Shopping - Bianca respondeu. 

- Ótimo! E você Anita? 

- Eu não tenho nada pra fazer hoje. Por que Beatriz? 

- Eu queria ir ao cinema e também comprar umas coisinhas. Como vocês não têm nada pra fazer hoje de tarde e o que tem é por lá mesmo, por que não vamos depois da aula para o Shopping? 

- Nem vou poder ir, tenho que ajudar meu irmão com umas coisas lá em casa e ainda vou ter que ajudar o meu pai. 

- Você também só arranja coisa pra fazer no dia em que eu marco pra sairmos. O resto da semana você fica de bobeira por aí! - Beatriz disse. 

- Não tenho culpa se você marcou exatamente no único dia do ano que eu tenho o que fazer - Miguel respondeu. 

- Mas vai ser até melhor ir só a gente, garoto no meio da história atrapalha demais - já estávamos chegando ao refeitório e depois da pequena discussão que Miguel e Bianca tiveram depois dela ter dito que meninos atrapalham fez com que Anita, Beatriz e eu entrássemos no refeitório rindo, enquanto eles dois paravam de brigar e mudavam e assunto, já tendo feito as pazes. 

- Sammy, como é bom ver você! E ai tudo bem?- Sophia falou encontrando-me no meio do refeitório. 

- Oi Sophia, tudo bem sim! - sorri. 

- Sammy? - sua voz fez meu coração parar por um instante e depois voltar a bater num ritmo frenético. Olhei para seu rosto e ele sorriu de leve. 

- Anh... Vou indo - Sophia disse e arrastou os outros. 

- Arthur, me desculpe pelo jeito que falei com você - disse insegura. 

- Eu que comecei. Desculpa, acho que não soube expressar minha preocupação - seus olhos se desculpavam. 

- Obrigada por ter salvado minha vida, por ter me procurado. 

- Sempre te acharei - ele pôs a mão em meu rosto, causando arrepios em minha pele. Seus olhos arderam nos meus, as faíscas passando entre nós. 

- Olá pessoal! E ai Sammy, você e a Mel conseguiram entrar na sala? - Ashley perguntou, sentando. 

- Conseguimos sim! - respondi ao lado de Sophia. 

- Vocês chegaram atrasados? Oi Sammy! - Richard perguntou chegando à mesa. 

- Oi Rick - respondi. 

- Quinze minutos - Bryan respondeu. 

- Nós só chegamos atrasados porque ela demorou e ele dirigiu devagar - Melissa reclamou apontando pra Ashley. 

- Só nos atrasamos porque a Ash demorou porque estava com você na lanchonete do hospital e porque eu dirigi devagar porque você mandou! Ok, Melissa? - Bryan rebateu. 

- Bryan eu não mandei nada, você que... 

- Mel, menos - Ashley reprimiu. Melissa suspirou e ficou calada, enquanto um sorrisinho irônico crescia no rosto do Bryan. Pelo resto do almoço nós ficamos conversando e dando risadas das histórias que aconteceram depois que eu acordei. O Arthur e eu não conversamos muito, mas de vez em quando eu percebia que ele estava olhando pra mim, e nas poucas vezes em que me olhei para confirmar ele estava sério, não com raiva, mas ao ponto de me fazer querer saber o que ele estava pensando.

Romance de:
Continua...

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