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Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não." City of Angels

► Recadinho aos leitores: E então queridos? Estão gostando do romance da Cassia? Ainda foram poucos os comentários por essa razão só vou publicar o próximo capítulo quando mais pessoas comentarem algo sobre a história e/ou sobre o trabalho na Cassia. Não é justo eu disponibilizar uma coisa, ser cobrada por ela, mas não ter o mínimo de reconhecimento de vocês né? Então, se querem que o próximo capítulo saia bem rapidinho... deixa ai seu comentário!Beijos ~Raíssa


♥ 24. LAÇOS ♥


 Mesmo com Richard ao meu lado, a situação continuava bem difícil. Os dias passavam lentamente e a noite praticamente rastejava. Sophia havia me dito que eu não podia ficar trancada em casa, saindo só para o colégio e supermercado. Conversei com Richard sobre isso, argumentando que não tinha vontade de fazer nada.
- Se não quer fazer nada, então não faça – ele deu de ombros enquanto estávamos no refeitório – Você pode ir para a praia e ficar olhando o tempo passar – ele sorriu de leve.
  À noite não consegui dormir. Fiquei revirando na cama até que decidi seguir sua sugestão. Vesti uma calça jeans, uma camiseta de algodão e um casaco. Tomando cuidado para não acordar ninguém, fui para o carro.
  Não demorou mais de vinte minutos para chegar à praia. Estacionei e desci devagar pelas rochas, tendo atenção para não tropeçar em nada. Ao chegar à areia, vi um tronco de árvore caído e sentei-me nele. Fitei o mar à minha frente, acompanhando o movimento das ondas e o barulho que o vento fazia. Fechei os olhos e deixei meus pensamentos vagarem.
  Em questão de segundos minha cabeça estava muito longe dali. Minha mente foi inundada por lembranças de meses atrás. Naquele tempo eu nunca imaginaria que Arthur fosse me deixar tão rápido e muito menos que eu fosse seu motivo para estar ali. Eu ansiava por sua presença, por seus braços me envolvendo. Mas de tudo, o que eu mais sentia falta era de poder ver seu sorriso e seus olhos todos os dias.
  Encarei a lua cheia – que parecia tocar o mar – por algum tempo. Depois comecei a andar pela areia, minha inconsciência soltando todas as recordações que eu havia aprisionado.
  Quando vi que já estava ficando distante de onde eu deixara o carro, voltei e me empoleirei em uma das rochas, pondo as mãos nos bolsos pra esquentar.
- Sempre serei sua – sussurrei. Fiquei por alguns segundos esperando por uma voz que não iria escutar... nunca mais.
  A praia era um bom lugar para ficar. Lá, minha mente podia vagar sem limite, sem medo de ser atingida de repente por uma pontada de dor.
  Eu havia achado mais um lugar onde ele estava presente. Talvez eu ansiasse por ele em todos os lugares.
  Cheguei em casa e assim que deitei, adormeci.
Ando pelas ruas desertas de fim de tarde sempre procurando na próxima curva alguém que sei que não estará lá. E quando todas as minhas forças são sugadas, penso em desistir, em ceder, mas algo dentro de mim grita e me conduz a mais alguns passos, mas o que quero não está em lugar algum. É aí que penso no passado, fecho os olhos e rezo para que a dor que vem com as lembranças seja anestesiada, mas todo meu esforço é em vão. Minha mente tenta alcançar, tenta encontrar novamente seus braços acolhedores porque eu tremo de frio, porém não me movo com velocidade suficiente para alcançá-lo, para torná-lo substancial. O desespero me toma e começo a gritar seu nome, enquanto ele vira na próxima esquina sem nem ao menos olhar para trás. Corro, feliz por finalmente conseguir um pouco de agilidade e viro a esquina, onde há uma rua sem saída. Ele está lá com a mesma roupa que usou quando foi embora. Ao me ver sorri do mesmo modo com me lembrava e me convida a um abraço. Corro para seus braços estendidos, mas uma luz extremamente forte o cobre quando suas asas se abrem, e aos poucos ele desaparece, até que meus olhos não aguentam o brilho e pisco. O procuro em volta, mas não há mais nada, nenhum som a não ser o de uma folha seca sendo levada pelo vento. Grito por ele em reação ao desespero e a dor que me invade, e desmorono no asfalto, tudo se tornando negro enquanto uma tempestade cai do céu, me deixando completamente encharcada.  
 Seu retrato é a primeira coisa que vejo ao abrir os olhos e seu nome é a primeira palavra que digo enquanto meu coração novamente me diz... Adeus.

- Calma Sammy – disse ofegando –, foi só um sonho – fechei os olhos – Só mais um sonho – respirei fundo e levantei da cama, abaixando o porta retrato onde eu estava com Arthur ao passar por ele.
- Bom dia – papai disse ao me ver na cozinha.
- Oi – peguei a garrafa de leite na geladeira.
- Aproveitando que sua irmã já foi para o colégio – ele pigarreou. Nathália agora ia todos os dias com Evan e o pai – porque ele ainda não sabia dirigir – Você tem um tempo para o seu velho pai? – ele sorriu timidamente. Puxei a cadeira e sentei.
- Pode falar – disse segurando o copo na mesa com as duas mãos.
- Sammy já se passaram cinco meses e mesmo sabendo que você está se esforçando, não vejo muita melhora.
- Pai, é complicado – murmurei.
- Eu sei querida. E até fico feliz por você não ter se tornado uma altista dentro de casa, mas, você parece presa em seu próprio mundo. Quando Richard te trouxe pra casa no dia do baile você estava aos pedaços, mas pensei que fosse superar. Você é tão forte, aguentou tanta coisa. Mas não.
- Não estou do mesmo jeito. E não diga que estou pior, porque sei que não estou – encarei seus olhos.
- Não, não está pior. Mas sua recuperação é extremamente lenta – virei a cara – Estou mentindo? – sua voz era firme.
- Não – encarei meus dedos.
- Quando pensei que sua mãe havia morrido...
- É diferente, ele não morreu – interrompi agoniada.
- Mas não está aqui – ele levantou as sobrancelhas – Continuando. Eu queria desaparecer, mas encontrei um ponto de força. Você e Nathália. Encontre o seu também – ele sorriu de lado – quando você achar, sua vida vai voltar a fazer sentido – ele levantou, deu um beijo em minha cabeça e foi para o trabalho.
  Continuei sentada por alguns instantes, depois fui para o colégio.
- Oi Sammy – Bernard disse ao me ver. Meus amigos em geral não me recebiam mais com sorrisos, como faziam antigamente, todos tinham cautela.
  Exceto um.
- Como vai Bernard? – perguntei enquanto atravessávamos o estacionamento.
- Bem e - ele fez uma pausa e me olhou – você? – sua voz era insegura.
- Indo.
- Sammy! – Richard chamou atrás de mim. Virei para olhá-lo e ele sorria para mim. Era ele.
  Richard Bulevarck era meu ponto de força.
  Dei uma risada baixa enquanto ele me abraçava, tirando-me do chão ao me girar.
- O que houve? – ele estava surpreso e seus olhos arregalados quando me colocou no chão.
- Nada. Por quê? – perguntei ainda com um sorriso no rosto.
- Você está sorrindo – ele parecia me idolatrar.
- Fiquei feliz em te ver – seus olhos cintilaram – Sabe, fui ontem à praia.
- Foi? – suas sobrancelhas se uniram – De que horas? – estávamos andando. Procurei por Bernard, mas não o vi ao nosso lado.
- À noite.
- À noite? – ele reclamou. Pude sentir seus olhos em meu rosto, mas continuei sem olhar.
- Foi – sussurrei.
- Você é louca? Sammy, não se vai à praia à noite. De que horas foi isso?
- Não sei. Acho que quase meia noite.
- Você é suicida? – ele ralhou.
- Richard...
- Sammy... Não é bom você ir lá à noite.
- Mas não havia ninguém!
- Você assiste algum noticiário?
- Claro que sim.
- Mas não deve saber nem o que está passando na tela porque – ele suspirou – Por favor, não faça mais isso.
- Ok – dei de ombros.
- Você pode ir – paramos na frente da sala onde eu teria a primeira aula – Mas vá num horário normal. Como você está hoje?
- Melhor – sorri levemente.
- Boa aula – ele deu um beijo em minha testa.
  O dia seguiu normalmente, Ainda me sentia mal quando entrava no refeitório e via minha mesa reduzida em seis, mas meus amigos amenizavam o buraco em meu peito toda vez que eu olhava para os lados e sabia que eles não estariam lá.
   Comecei a ir à praia quase todo dia. Richard era completamente condizente, contando que eu não ficasse lá até tarde.
Andei devagar pelas pedras, tendo cuidado para não escorregar. Sentei na areia e fitei o mar ainda calmo. Não havia nenhuma só pessoa na praia e provavelmente não haveria nenhuma por um tempo. Estava frio e nublado, ninguém era corajoso o suficiente para enfrentar a brisa congelante e forte do mar.
  Ali, naquele mesmo lugar, um dia Arthur me ensinou a nadar. Eu lembrava nitidamente de suas mãos me segurando, sua voz suave me assegurando de que eu não devia temer o mar e sim se movimentar com ele. Parecia uma lembrança distante e mentirosa agora. As ondas batiam umas nas outras, um estalo soando pela praia solitária.
  Pus-me de pé e tirei o sobretudo que me aquecia. O vento chicoteou meus ombros nus e com um arrepio de frio percorrendo meu corpo, tirei a regata, o maiô – que eu havia comprado numa tentativa fracassada de aprender a nadar – ficando a mostra. Tirei o shorts e ainda relutante caminhei até o mar.
  A água tocou meus pés e estava quase congelando. O encarei por um segundo e entrei cada vez mais no mar. A água estava na altura da minha cintura quando parei. Respirei fundo e mergulhei.
  Era a melhor sensação do mundo. A água – mesmo estando gelada – envolvia meu corpo como um abraço. Meus braços e pernas se moviam em sincronia e eu podia sentir as ondas passando por cima de mim. Ali eu podia senti-lo, mais nítido e substancial do que em qualquer das minhas lembranças.
  Um feixe fraco de luz solar penetrou na água e pelas minhas pálpebras fechadas pude sentir a claridade.
  Quando fiquei sem ar voltei à superfície e uma chuva ficava cada vez mais forte. Olhei para trás e vi ondas altas se formando. Meu corpo congelou no mesmo instante em que meu coração deu uma guinada.
  Aquilo não era real. Não podia ser. Senti algo puxando minha mão, mas quando olhei não havia nada. O vento me atingiu e escutei o zumbido baixo do meu nome. A onda atingiu minhas costas, me empurrando para frente e depois me puxando para ela. A força em minha mão aumentou e percebi que eu estava sendo conduzida para fora do mar. Quase desesperada, forcei minhas pernas a se movimentarem ao meu favor e quando percebi, eu estava na areia. Olhei para minha mão fechada e não havia nada. Com a mesma mão, segurei o pingente de asa que um dia eu havia dividido com Arthur. Mesmo no frio, o pingente estava quente contra minha pele.
  Ele havia me salvado. Não o pingente, mas o que ele representava. De algum lugar distante, Arthur havia me tirado dali.
- Eu juro Sophia, senti alguém...
- Alguma coisa – ela me interrompeu no telefone.
- Que seja! – dei de ombros – Alguma coisa me tirou de lá.
- Sammy, acha mesmo que foi ele? Não tem como, pelo amor de Deus!
- Sophia, precisa acreditar em mim. Não estou louca!
- Sammy... – ela grunhiu.
- Por favor. Eu não inventei isso, não posso ter inventado – prendi meus dedos no cabelo.
- Olhe, eu acredito em você. De verdade. Mas só não engulo que de algum lugar do país, Arthur tenha te salvado. Nem que um pingente tenha feito isso.
- Ok. Obrigada – sentei na cama aliviada.
- Como você está?
- Bem.
- Vou te pedir uma coisa. Não conte nada ao Richard, ele vai querer te matar e a mim também, por acreditar em você.
- Pode deixar. Esse é mais um dos nossos segredos.
  Algumas vezes pedi para que Richard fosse comigo, mas ele disse que era um momento em que eu poderia ficar sozinha para pensar e que talvez ele atrapalhasse.
  De tanto insistir, ele cedeu. Assim que as aulas acabaram na sexta feira, fomos para a praia. Estacionei no acostamento e ele veio logo atrás, parando o Jeep há alguns metros. Hoje não estava frio, então deixei o casaco no banco, ficando só com a camisa de algodão de maga longa.
  Richard me acompanhou até uma rocha grandalhona. Ele sentou numa mais baixa que a minha.
- Você gosta daqui, não é? – ele perguntou despreocupado.
- Gosto – respondi fitando o mar.
- Gosto de te ver assim, sabia?
- Assim como? – olhei confusa para ele.
- Lutando pra voltar ao normal – ele sorriu torto.
- Você tem grande responsabilidade nisso.
- Sério? – ele sorriu mais.
- Sim. Meu pai falou para que eu encontrasse algo para ser minha alavanca para voltar ao normal. Uma espécie de ponto de força – olhei para baixo – Eu achei você – sussurrei.
- Obrigado por pensar que eu possa ser isso pra você – olhei para ele vi que tinha um sorriso de lado em seu rosto.
- Você é.
  Ficamos olhando para o mar por alguns instantes, até Richard soltar um suspiro pesado.
- O que foi?
- Sammy, vou fazer uma pergunta, responda a verdade, seja ela qual for, está bem? – seu ar despreocupado tinha isso embora com o vento que nos chicoteava.
- Está bem – respondi na defensiva.
- Por que você não consegue dizer adeus pra mim? Por que toda vez que quer me deixar pra trás, toma a decisão oposta? Isso me deixa louco – Essa era a pior pergunta que ele podia fazer, mas ele tinha o direito de saber, e eu não concordava inteiramente com isso. Por fim, suspirei e desviei o olhar de seu rosto que esperava por uma resposta.
 - Eu fico melhor quando converso com você. – admiti em voz baixa – A dor cede por algum tempo, é como se você me tirasse da minha realidade. Por um momento me sinto bem, mas então você vai embora e a dor volta a me esmagar – eu encarava o mar à minha frente, mas eu sabia que ele estava analisando minuciosamente minhas feições e que eu estava com os braços cruzados, os punhos cerrados junto ao corpo – Sinto a minha força esvaindo-se de mim, a sinto sendo acorrentada em algum lugar inacessível em meu interior. Eu sinto que a hora de encarar tudo o que me apavora se aproxima. Fecho os olhos e me abraço, ficando como uma bola para tentar me proteger das lembranças, para me proteger da dor que percorre meu corpo como se estivesse impregnada em minha corrente sanguínea. É por isso que não consigo me ver sem você, por isso que sou tão egoísta, porque fico anestesiada quando você está por perto. Eu preciso de você e mesmo sabendo que isso nos machucará eu insisto em levar isso adiante. Porque só você Rick, só você consegue me mostrar que ainda é possível viver, nem que seja só por algumas horas – sorri sem nenhum humor e olhei pra ele – Não precisa ficar assustado eu não vou ter um ataque.
- Não estou assustado. Eu daria a minha vida pra que você não sofresse, eu queria poder fazer isso. Você não sabe o quanto é horrível te ver assim Sammy.
- Não precisa querer dar a sua vida pra me ver melhor – murmurei.
- Mas eu não consigo te ver sem o brilho no olhar que você tinha antes e fingir que está tudo bem. Eu quero fazer alguma coisa pra mudar isso Sammy, você não imagina o quanto – sua voz ficou meio abafada com a rajada de vento que nos atingiu - emaranhando-se em meus cabelos, jogando-os pra trás – mesmo assim, pude ouvir a dor em sua voz.
- Não – toquei seu rosto – não fique assim. Eu não devia ter contado nada, não devia ter respondido à sua pergunta – baixei a cabeça, minha voz atingindo um tom quase inaudível.
- Se eu perguntei era porque eu queria uma resposta, eu já esperava que você dissesse isso, mas supor o que você ia dizer e escutar você mesma falando são duas coisas completamente diferentes – ele levantou meu rosto – Só me pegou desprevenido, desculpe pelo que falei – ele sorriu e eu guardei a imagem dele em minha mente para me confortar quando eu estivesse suplicando pra dor me deixar dormir. Sem pensar - num impulso de meu coração – o abracei. Eu estava precisando de seu abraço mais do que eu supunha e tê-lo ali comigo de repente me pareceu um pedacinho do paraíso no meio do caos em que eu estava vivendo.
- Sammy, você sofre mais do que quer dizer – ele grunhiu
- Não é isso – sussurrei – É que não existem palavras o bastante para colocar por extenso o que se passa comigo Rick – o abracei mais forte, sentindo o cheiro de seus cabelos, agora mesclado com o aroma salgado do mar, ainda assim o seu cheiro.
- Eu te amo – sua voz era tão baixa que pensei ter inventado o que ele disse – Só uma vez, por favor, olhe pra quem está do seu lado, por favor... – ele não estava pedindo, estava suplicando, mas parecia que ele não falava comigo. Afastei-me para olhar seus olhos.
- Richard, eu não consigo. Desculpe-me, mas eu não posso – baixei a cabeça novamente, não querendo ver a dor que eu sabia que estava em seu olhar – Não sou a mesma Sammy pela qual você se apaixonou meses atrás, eu estou quebrada – balancei a cabeça – Essa não é a palavra certa. Estou dilacerada Rick. Você não merece, por favor, entenda isso. – minha voz se tornou embargada e só percebi que estava chorando quando uma lufada de vento atingiu meu rosto e senti uma trilha mais fria em minha pele. Impressão. Fria na superfície, totalmente em chamas no coração.
- Não importa como você está, sei que a Sammy pela qual me apaixonei está aí dentro, perdida em algum lugar. Deixe-me resgatá-la Sammy, é só o que eu te peço – ele fechou os olhos e apoiou a cabeça nas mãos. Estendi a mão para afagar seus cabelos, mas a recolhi, eu não podia dar um deslize.
- Não Richard. A Sammy que você ama morreu – ele abriu os olhos e me encarou. Seus olhos claros eram pura labareda de fúria. Encolhi-me e desviei o olhar. – Eu nunca vou voltar a ser o que era. Mesmo que um dia eu fique menos destroçada, ainda assim não serei inteira – ele ia começar a protestar, eu teria que me apressar se eu quisesse que ele me desse algum crédito – E mesmo que eu dê a chance que você tanto espera, o que você achará quando você me beijar e eu pensar no Arthur? Como você vai reagir quando souber que estou com você simplesmente porque você me venceu pela insistência, quando se der conta de que eu nunca direi eu te amo porque seria uma mentira? Como será a sua resposta quando perceber que cada beijo meu, cada toque chama pelo nome dele, não pelo seu? Richard você merece alguém que possa te amar, alguém que não tenha sempre um passado a sua espreita. Richard você merece alguém diferente de mim – voltei a olhá-lo e sua fúria tinha sido substituída por uma dor latejante.
- É você quem eu quero Samantha. Não me importa se você está inteira ou dividida em cem pedaços, ainda assim é você quem eu amo. Entenda isso ao menos uma vez. Lembra-se de quando namorei a Myllena? – balancei a cabeça e ele continuou – Eu tentei encontrar em cada parte dela, nem que fosse só um minúsculo pedaço seu Sammy. Como você pôde ver sem sucesso nenhum, porque tudo o que eu queria era impossível pra mim e mesmo agora, ainda é.
  Meu coração mais uma vez me dominou e o abracei, percebendo o erro só depois de ter cometido. Será que ele tomaria isso como uma rendição? Não, ele não faria isso, eu deixei bem claro que nenhuma parte de mim jamais seria dele, não do jeito que ele queria, pelo menos.
Por que as coisas tinham de ser assim? Por que eu simplesmente não conseguia dizer adeus e cumprir minha palavra? O que eu era? Uma psicopata sem limites, que maltrata até seu melhor amigo? Não, eu era bem pior que isso, algo tão ruim que não me vinha à mente nenhuma palavra para me autonomear.
Lágrimas escorreram por minha face e soluços brotaram de minha garganta. Richard empurrou meus ombros e me afastou para segurar meu rosto.
- Eu queria, eu queria poder te amar do jeito que você quer Rick, mas não consigo. Eu não posso escapar, eu queria poder fugir disso tudo e deixar meu passado para trás, mas se eu fizer isso sofrerei mais ainda. Sofrerei por não poder lembrar dele, mesmo que seja só uma recordação nebulosa que o tempo leva aos poucos. Em cada parte de mim ainda há uma parte dele, e me desculpe dizer, mas, eu não quero mudar isso – sussurrei com a voz embargada.
- Isso é loucura. – disse ele com a voz coberta de repulsa
- Não Rick, isso não é loucura. Definitivamente não estou louca. Se não fosse pela dor, a lembrança dele seria como qualquer outra. A saudade é a única presença dele, é a única coisa que me permite dizer que ele ainda está na minha vida.
- E se eu provasse?
- Provasse o quê? – perguntei confusa por ele não ter reagido a minha resposta
- Que ele não é o único que pode balançar o seu coração – ele sorriu presunçoso, desafiador
- Como é?
  Ele não respondeu, em vez disso me puxou pela nuca – um aperto delicado que me impossibilitou de escapar – e me beijou.
A pedra onde eu estava empoleirada não era lisa, mas derrapei ficando entre as pernas dele. Seus lábios separaram os meus e me vi não lutando contra aquilo. Minha cabeça girava e meu coração parecia ter voltado à vida, mas não era o mesmo sobressalto que acontecia quando o Arthur me beijava, era diferente, mais suave do que a sensação de tê-lo querendo sair pela boca. Contudo, não era uma sensação ruim.

Como assim não é ruim? Você está louca? Onde está todo aquele seu amor por Arthur Mason? Era só um blefe, então? Para parecer uma vítima, quando você queria dar o bote no Richard?

                                                                           
 Minha consciência gritou para mim e pude sentir a pontada de dor em meu peito. Isso me surpreendeu, geralmente eu não tinha dor quando estava com o Richard. Oh, meu Deus, o Richard! Balancei a cabeça e seus lábios passaram para meu pescoço, deixando um rastro quente onde ele tocava. Enrosquei meus dedos em seus cabelos e o puxei, sem nenhum sucesso.
Então virei o rosto para olhá-lo e seus olhos encontraram os meus. Quando ia pedir para ele parar ele me calou. Sua boca tocou novamente a minha e um suspiro saiu por sua boca, seu hálito quente tocando meu rosto.
- Eu sabia que eu podia balançar seu coração, senti isso no dia em que te beijei na sala de aula. Há quanto tempo! – ele tocou meus lábios mais uma vez, de uma forma urgente agora, mas como eu pude inspirar um pouco de ar, minha cabeça clareou e tive forças para encontrar minha voz.
- Pare Richard – minha voz era firme, fria. Impressionou-me, mas não deixei que ele visse que me surpreendeu, não ia ajudar muito.
- Você não quer que eu pare – Disse ele subindo a mão pela minha cintura para colocá-la de novo em minha nuca.
- Você acha que eu mentiria pra você? Quantas vezes fiz isso? – deu certo, ele gemeu e se afastou de mim. Apoiei-me na rocha e levantei, minhas pernas duras pelo tempo que fiquei sentada. Ele também se levantou. Eu suspirei e me virei pra ele.
- Adeus Richard – disse friamente e comecei a subir pelas pedras, indo para o meu carro. Ele me seguiu. Ao chegarmos à porta do carro ele puxou meu braço e fui obrigada a olhar pra ele. Seus olhos eram convencidos e ele mantinha uma sobrancelha arqueada.
- Você nunca iria me dizer adeus. Você não consegue – ele sorriu. Desviei o olhar pra não fazer exatamente o que ele estava dizendo.
- Estou dizendo agora. Adeus Richard – disse friamente
- Não – sua voz era firme – Você sabe que não pode me dizer adeus, não quando isso iria te magoar,me magoar.
- Mas é exatamente isso que eu estou fazendo. Você precisa aprender a me ver como amiga e eu preciso parar de te ver como a força que me empurra a viver. Eu te amo Rick, não da forma que você anseia,mas ainda assim é amor, pena que você não vê isso – puxei meu braço e me virei abrindo a porta do carro.
- Eu vejo Sammy, quer dizer, eu posso ver, por favor não! – as palavras saíram atropeladas de sua boca e ele segurou minha mão. Não me virei para ele, mas também não avancei nenhum passo. E então a ficha caiu. Eu sabia que não conseguiria deixar o Richard, eu sabia e sentia isso. Então que sentido tinha eu me enganar dessa forma?
Virei pra ele mas disse algo diferente do que eu planejei.
- Você viu isso tarde demais – disse friamente. Parecia que ele tinha levado um choque. Sua mão arrastou-se pela minha e a senti como se estivesse queimando. Mas era óbvio que ela não estava em chamas. Entrei no carro e o liguei, o motor zuniu baixo, mas parecia alto demais no silêncio de dentro do meu carro. Acelerei mas uma culpa vertiginosa me golpeou.

Continue, vá em frente, magoe aquele que mais te acolheu. Faça o seu melhor amigo sofrer, talvez isso atenue sua dor.

Pisei no freio e ouvi quanto os pneus fizeram um barulho agudo no asfalto. Eu não podia fazer aquilo com ele, minha consciência estava certa. Seja emocional Samantha, ao menos uma vez. Você sabe que não sobreviverá nem ao menos um dia sem ele - eu falava para mim mesma - Na realidade eu não aguentaria nem chegar em casa, e eu sabia disso. Desci do carro às pressas e parei quando o vi a alguns metros de mim, andando de cabeça baixa. Eu o tinha magoado, ferido. Eu era a mais cruel das criaturas.
- Richard! – gritei e lágrimas jorraram pelo meu rosto. Ele se virou e meu corpo me incitou a estreitar o espaço entre nós.
Andar não era o bastante, eu precisava correr. Corri em direção a ele, os pulmões protestando quando meus soluços me impossibilitaram de colocar algum ar para dentro, mas não parei. Minha visão estava embaçada por causa das lágrimas, mas pude ver seu rosto, pude ver o sorriso que eu amava crescendo por ele. Lancei-me para ele e ele deu um passo para trás comigo nos braços.
- Me desculpe, eu sei que isso não é o bastante, mas me perdoe, por favor. Eu te amo Rick, eu te amo e você sabe disso. Você é meu melhor amigo. Perdoe-me – minhas palavras saíram atropeladas, mas sabia que ele entenderia.
Ah, como era bom abraçá-lo! Emaranhei meus dedos em seu cabelo e o abracei mais forte. Quando meus batimentos começaram a reduzir o soltei devagar e segurei seu rosto em minhas mãos.
- Me perdoe – supliquei e enxuguei algumas lágrimas que teimavam em descer por seu rosto com a manga desabotoada da minha camisa. Fechei os olhos esperando por sua resposta.
- Eu te amo Sammy, como não iria te perdoar? É claro que te perdoo – ele me abraçou – Desculpe por tê-la beijado, eu não devia ter feito aquilo, fui um idiota, desculpe – disse ele em meu ouvido.
- Não devia mesmo – respondi, a voz controlada, um traço de humor nela – Da próxima vez que você fizer isso te dou um tapa e vou mesmo embora, não será um blefe – sorri.
- Ah, claro – ele sorriu, mas senti que seu abraço se tornou mais apertado. Beijei sua bochecha e me afastei, mas segurei seus braços. Nunca tinha reparado, ele era tão...forte.
- Agora tenho realmente que ir, meu pai pode ficar preocupado – limpei minhas lágrimas com as costas das mãos e sorri levemente pra ele.
- Está bem. Até mais – ele me deu um beijo na testa e olhou por um segundo em meus olhos.
- Tchau Rick. – sorri e andei para meu carro, parando algumas vezes para olhar para trás, só para vê-lo me observando. Abri a porta e fui para casa me sentindo mais reconstruída, menos destroçada.



                                       PRIMAVERA




Eu podia sentir o silêncio ecoando pela casa... O vento movimentando-se sorrateiramente, invadindo os cômodos e os enchendo com o delicado cheiro das rosas.
Minha esperança havia chegado ao final, enquanto a primavera estava só no começo. Sendo mais uma estação que passava, aumentando mais minha certeza de que sonhos foram quebrados.




 Um Romance de:

~CONTINUA~


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