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Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não." City of Angels

♥ 16. FÉ ♥



O final de semana foi a pior parte. Sem nada para fazer, nem ninguém pra tentar me distrair com amenidades, me fechei em um globo envolvido pela tristeza, onde nem Arthur conseguia entrar. Porém, ele insistia e a cada tentativa eu armava mais ainda meu globo, não deixando nenhum ponto fraco.
  Mas no domingo de madrugada, ele tentou novamente.
  Eram quase três horas e eu encarava o teto, depois de chorar durante a noite. Não havia mais nada dentro de mim, tudo era um vazio. Estava cansada, mas ao fechar os olhos, o acidente me aterrorizava e eu voltava a chorar. Conclui que era mais seguro permanecer acordada. Ainda faltavam cinco horas para poder vê-la por meros trinta minutos, mas eu ansiava por esse mínimo de tempo como quem ânsia por água após passar uma temporada no deserto. Eu queria vê-la, me certificar de que seu coração ainda estava batendo.
  Ouvi um pequeno barulho no vidro da janela lateral e olhei, esperando que se repetisse para eu confirmar que realmente tinha escutado algo. Segundos depois, ouvi de novo. Levantei da cama fui até a janela. Estava meio escuro do lado de fora, mas reconhecei a sombra que jogava pedregulhos no vidro. Arthur estava pegando mais pedras no chão, mas ao me ver largou-as e limpou a mão no jeans.
  Pude ver a luz em seus olhos e me parecia que ele estava sorrindo. Levantei as sobrancelhas e abri a janela.
- O que você está fazendo aí? – sussurrei.
- Posso entrar? – ele perguntou.
- Não posso descer. Vou acordar todo mundo e Lucy vai ver quando eu abrir a porta, ela dorme no andar de baixo.
  Ele revirou os olhos.
- É pela janela Sammy – disse ele presunçoso.
- Pela janela? – perguntei assustada. Minha voz foi um pouco mais alta e prendi a respiração – Ficou louco? Você pode perder o equilíbrio e cair. Não, não.
- Sammy, você é muito boba, sabia? – ele sorriu – Observe – ele piscou e flexionou os joelhos, no outro segundo estava na minha frente, segurando-se na escada. Arfei e o encarei com olhos incrédulos – Viu? – ele sorriu enquanto eu me afastava da janela.
- Entra – ele deu um leve salto, ficando de pé novamente na minha frente.
- Como você está? – seu sorriso havia desaparecido com a mesma rapidez em que havia se postado em seu rosto. Suas sobrancelhas se uniram. Ele estava preocupado. Arthur segurou minhas mãos.
- Contando as horas para vê-la – baixei a cabeça e ele me puxou, abraçando-me.
- Ela vai ficar bem. Tenha fé – ele afagou meus cabelos. Afastei-me dele.
- Fé? – bufei – Ela já se esgotou. Rezei muito, pedi muito, mas ela continua do mesmo jeito. Não quero um milagre, só que ela progrida um pouco. Aconteceram várias coisas ultimamente e desde que Lucy voltou, tenho fé de que tudo vai voltar a ficar bem. Mas, me desculpe, eu não tenho mais fé. Tudo só faz piorar e não vejo nenhum lado bom nisso – disse friamente.
- Sammy...
- Não Arthur, não adianta. Já parei de pedir, rezar, ou seja lá o que for. Cansei.
- Samantha, Deus sabe o que faz – ele estava começando a ficar bravo.
- Talvez ele não tenha feito nada – meus olhos começaram a se encher de lágrimas – Talvez ele nem estivesse por perto na hora em que tudo começou. Minha família está sendo destruída aos poucos e ela é tudo o que tenho.
- Ele não vai deixar nada de ruim acontecer.
- Ele fez isso – levei as mãos ao rosto e voltei a chorar. Ouvi um suspiro de Arthur e senti seus braços me envolvendo, seus lábios beijaram minha cabeça.
- Não é culpa Dele.
- Eu não aguento mais. Quero minha irmã de volta. Não consigo vê-la naquele estado e não poder fazer nada. Sinto-me um lixo.
- Você faz mais do que pode.
- Mas não o suficiente para salvá-la.
- Ela vai ficar bem – ele me afastou um pouco, segurando meus braços – Acredita em mim?
- Arthur... – virei a cabeça. Ele segurou um lado de meu rosto, fazendo-me olhar para ele.
- Acredita? – seus olhos eram intensos.
- Sim, eu acredito – ele sorriu e seus braços voltaram a me envolver.
  Ele ficou abraçado comigo até que eu parasse de chorar, mas com o cansaço adormeci. Senti vagamente que ele havia me levantado, aninhando-me em seus braços e me levando até a cama. Devo ter acordado por alguns segundos, porque me lembro de tê-lo visto deitando-se ao meu lado e de eu ter repousado a cabeça em seu peito.
  Acordei com o sol batendo em meu rosto. Assim que abri os olhos vi Arthur ao meu lado, dormindo. Sorri ao vê-lo e me apoiei de lado para observá-lo. Seus traços pareciam mais perfeitos com a luz do sol que passava por minha janela ainda aberta.
  Seus olhos azuis – agora fechados -, seu nariz arrebitado e seus lábios cheios. Com medo de acordá-lo, passei as pontas dos dedos por sua testa, sobrancelha; acompanhei de leve o contorno dos olhos, o desenho de seu rosto, descendo pelo queixo até subir para sua boca, onde acariciei de leve.
  Ao olhar para cima, ele estava me encarando e sorriu ao encontrar meus olhos.
- Como você está? – sua voz era suave, aveludada.
- Melhor. Dormiu bem?
- Sim – ele sorriu. Parecia estar sorrindo não para mim, mas de algum pensamento – Só falta uma hora.
- Pra quê?
- Pra você ver Nathália.
  Sorri. Minha ansiedade acabaria logo.
- Que bom – suspirei de alívio – Arthur, não quero ser inconveniente, mas você tem que ir.
- Eu sei – ele sorriu de leve – Vá se arrumar. Daqui a pouco venho te buscar.
- O quê? – perguntei confusa. Ele sorriu.
- Faça o que eu disse – ele sentou.
- OK – levantei da cama meio confusa e peguei umas roupas – Vai sair por aqui? – perguntei ao passar pela janela. Ele pareceu pensar por alguns segundos.
- Deixe-a aberta, por precaução – ele respondeu despreocupado. Abri a porta do quarto devagar, observando se tinha alguém no corredor – Cuidado se for sair pela porta.
  Fiquei debaixo do chuveiro enquanto a água escorria pelo meu corpo. Lavei meu cabelo, exagerando no Shampoo e consequentemente no condicionador, depois me enxuguei e vesti a roupa. Esfreguei a toalha no cabelo até que ele ficasse úmido e o penteei deixando-o extremamente liso. Por fim, passei um pouco de perfume e voltei para o quarto.
  Abri a porta esperando que ele estivesse sentado na cama como eu o havia deixado, mas ao entrar vi minha cama arrumada – como se eu não tivesse dormido nela – as cortinas longas abertas atrás de minha cama. Ao olhar para a janela na lateral, a vi fechada e um rosa branca havia sido deixada no parapeito. Sorri e fui até ela. Seu aroma era mais concentrado do que o de todas as rosas do buquê que Bryan havia me dado.
  - Bom dia Sammy – papai disse desanimado na mesa.
- Oi pai – dei um beijo em sua bochecha.
- Como vai Lucy? – ela estava sentada ao lado de papai, mexendo seu café.
- Bem – ela não me olhou. Peguei um vaso em estreito no armário da lavanderia e voltei para a cozinha, coloquei água e a rosa dentro. Subi as escadas, colocando o vaso na minha mesa do computador.
- Que rosa era aquela? – papai perguntou quando voltei à cozinha.
- A peguei, mas esqueci de por em um vaso – torci para que ele não se lembrasse de que eu não havia saído de casa no dia anterior. A não ser para ir ao hospital.
- Você vai hoje? – Lucy perguntou.
- Sim – respondi sentando.
- Pode me responder uma pergunta? – ela me olhou.
- Pergunte – respondi pegando o leite.
- Quais são as chances da Nathália? – tive a sensação de que ela estava guardando aquela pergunta há muito tempo.
- Não sei bem como funciona – respondi enquanto pegava o achocolatado – Nathália sofreu uma lesão que desativou temporariamente seus sentidos. Mas o que vai determinar quanto tempo ela ficará em coma, é o tempo que seu corpo levará para reagir aos medicamentos e se recuperar. Seu estado ao menos é estável – ela baixou a cabeça. Em um impulso estiquei o braço e toquei sua mão – Ela vai ficar bem – Lucy me olhou maravilhada e recolhi o braço como reflexo. No mesmo instante a campainha tocou. Olhei o relógio em meu pulso e já eram oito horas. Levantei-me e fui abrir a porta.
- Oi – Arthur sorriu de lado.
- Oi – revirei os olhos – Entra. Obrigada pela rosa – sussurrei quando ele passou por mim.
- De nada – ele sorriu e me acompanhou até a cozinha.
- Bom dia Sr. E Sra. Brandow – Arthur havia absorvido a ideia de que tinha que chamar Lucy de “Sra. Brandow”e por mais que eu protestasse, ele não mudava.
- Bom dia – ambos responderam.
- Aceita um café? – papai perguntou.
- Não. Obrigado, Sr.
- Pode esperar dois minutos? Tenho que ir lá em cima – perguntei a ele.
- Pode ir, eu espero.
- Obrigada.
- Sente-se filho – papai disse gentilmente.
- Obrigado.
  Subi as escadas e fui até o banheiro escovar os dentes, depois passei no quarto e peguei a bolsa, colocando a certeira e o Iphone dentro. Descia as escadas e ao chegar à cozinha vi Arthur conversando com papai enquanto Lucy lavava a louça.
- Vamos? – perguntei ansiosa. Arthur se levantou.
- Vamos. Até logo Sr. Brandow – papai levantou para apertar a mão dele.
- Até. Sammy, daqui a pouco vou para o hospital.
- Ok. Liga quando estiver chegando.
- Tá – papai respondeu.
- Tchau Sra. Brandow – Arthur se despediu indo para a porta.
- Até mais, Arthur – Lucy respondeu.
- Já te disse que não precisa chamá-la de Sra. Brandow – disse como se fosse um palavrão enquanto íamos para o carro.
- Ela é sua mãe, quer você queira ou não. E tenho que respeitá-la – ele abriu a porta do Jaguar para que eu entrasse. Esperei por ele para responder.
- Não é falta de respeito chamá-la pelo nome – cruzei os braços. Ele suspirou.
- Deixe-me chamá-la assim, está bem? – ele me observou por alguns segundos, depois ligou o carro – A propósito, você esta muito bonita – ele acelerou. Prestei atenção em sua roupa. Arthur vestia uma calça jeans escura, uma camisa de branca de mangas longas e sem gola – que realçava seu corpo. Segundos atrasada respondi.
- Obrigada. Você também – ele olhou para mim e sorriu.
  Chegamos ao hospital mais rápido do que se estivesse em meu carro. Ao chegarmos, Arthur estacionou ao lado da Ferrari de John.
- Essa vaga é para médicos.
- E qual o problema? – ele estava despreocupado ao sair do carro. Abri a porta sem esperar por ele.
- Você não é médico – disse quando ele fechou minha porta.
- Sou formado, só não exerço - ele piscou.
- Você é formado em medicina? – fiquei de boca aberta.
- Sim – agora andávamos pelo estacionamento, indo em direção a entrada do hospital.
-Igual a John?
- Não. Ele é geral, eu só sou cardiologista – ele deu de ombros.
- Cardiologista – repeti – E por que não trabalha nisso?
- Só foi um capricho meu. Queria saber como é fazer um transplante – ele me olhou e sorriu.
- Você fez anos de medicina para poder fazer um transplante? – perguntei incrédula.
- Exatamente.
- E os outros?
- Bryan é engenheiro. Ele praticamente assina todas as plantas das nossas casas. Melissa é advogada e Ashley é formada em moda. Apesar de que, ela aprende mais quando vai ao shopping do que vendo desfiles e tendo aulas.
- Enquanto todos já têm uma profissão, eu luto todos os dias para ser aceita em uma faculdade.
- Também tivemos que passar por isso – ele me lembrou.
- Mas não tenho memória fotográfica.
- Tenho que aceitar isso. Você também não tem uma intuição tão aguçada.
- Anh?
- Sabemos o que devemos fazer com o dinheiro. Principalmente a Ashley.
- Não entendi.
- Exemplo: Ela pode pegar dois dólares agora e transformá-los em dois mil. Vai levar alguns minutos, mas vai acontecer. Ela sabe onde devemos investir.
- Por isso que vocês são tão ricos? – havíamos chegado a área inicial da UTI e minha ansiedade aumentava junto com minha curiosidade.
- Sim.
- Eu ainda fico maluca – disse para mim mesma.
- Por quê? – ele olhou para mim.
- A cada dia que passa me surpreendo mais com vocês.
- Tem muitas coisas que você ainda não sabe – ele disse despreocupado. Olhei para ele.
- E suponho que não me contará tão cedo – estávamos chegando perto do quarto de Nathália.
- Só com o tempo – ele sorriu torto e voltou a olhar para frente – John! – ele acenou.
- Oi Arthur – ele disse quando nos aproximamos – Como vai Sammy? – ele parecia feliz.
- Bem. E Nathália?
- Tenho boas notícias – ele sorriu.
- O que aconteceu? – eu quase não conseguia respirar.
- Ela teve alterações nos batimentos cardíacos, que eram constantes até ontem e hoje pela manhã quando a enfermeira foi vê-la, ela estava com o rosto para o outro lado – quando John terminou, eu estava sorrindo ao mesmo tempo em que lágrimas caiam de meus olhos.
- Posso entrar? – perguntei eufórica.
- Pode – ele sorriu gentilmente.
- Obrigada! – em um impulso o abracei.
- Ow, antes terá que se acalmar – ele me abraçou.
- Não, não. Estou bem – disse ao me afastar. Funguei e enxuguei o choro com as mãos.
- Arthur, cuide dela – John falou, depois olhou para mim – Sammy, você não pode ficar muito tempo. No máximo dez minutos, está bem?
- Está ótimo. Até ontem eu só podia vê-la através desse vidro. Dez minutos lá dentro é... muita coisa – sorri.
- Certo. Passe álcool nas mãos antes de entrar – ele sorriu e andou alguns passos – Ah e... Sammy?
- Sim? – virei para olhá-lo.
- Quando Rudolf chegar peça para ele ir até mina sala, sim?
- Pode deixar – assenti. John saiu. Olhei para Arthur e sorri.
- Eu sei, eu sei. E é ótimo, ela está voltando Sammy – ele me abraçou.
- Quero vê-la – disse ao me afastar.
- Passe álcool – ele apontou para o reservatório que ficava na parede. Apertei e passei nas mãos, respirei fundo e olhei para ele. Arthur sorriu torto e abriu a porta.
  O quarto tinha cheiro de remédio e só se escutava o bip do eletrocardiograma. As luzes eram fortes, as cortinas verticais em nada atenuavam a luminosidade. Nathália estava no lado direito do quarto, com uma intravenosa no braço – por onde o medicamento era colocado. Cruzei o quarto, peguei uma cadeira na mesa de vidro perto da janela e sentei-me ao seu lado. Segurei sua mão com cuidado e olhei para seu rosto – agora pálido – onde haviam poucos arranhões quase cicatrizados.
- Oi Nathália – sussurrei – Fiquei muito feliz por você ter melhorado. Será que você pode me escutar? Sei que você não gosta quando falo dela, mas Lucy está sofrendo muito – funguei. Lágrimas começaram a encher meus olhos – Brenda vem quase todo dia, ela gosta muito de você. Se puder me escutar, saiba que te amo muito. Me perdoe por ter dito que desistia de você. Nunca vou te deixar, prometo. Lembra de um bolo que eu fazia, que eu colocava caramelo dentro e derretia mais uns pra pôr em cima? Eu parei de fazer porque você comia tanto que já estava começando a engordar. Quando acordar, faço um desses pra você – enxuguei as lágrimas com a mão livre – Eu juro, faria de tudo pra não te ver assim. Como eu queria poder fazer alguma coisa – tirei minha mão da dela e limpei o rosto – Quando você ficar boa a gente vai viajar, o que você acha? Lembra das nossas viagens em Dallas? As férias eram tão boas! – sorri em meio as lágrimas.
- Sammy? – Arthur entrou no quarto. Enxuguei o rosto com asa mãos.
- Oi?
- Já deu a hora – ele falou colocando as mãos em meus ombros, por trás.
- Tudo bem – levantei e me aproximei de Nathália – Eu te amo – dei um beijo em sua testa, Arthur colocou a cadeira no lugar e saímos do quarto. Meu coração parecia mais leve depois de tê-la visto.
- Como você está? – Arthur perguntou do lado de fora.
- Bem – ele passou a mão delicadamente em algumas lágrimas que ainda molhavam meu rosto.
- O que vai fazer agora? – ele perguntou segurando minha mão.
- Não sei. Tenho que ligar para o meu pai- procurei o celular nos bolsos.
- Tome – ele me entregou – Ele ligou e disse que estava com John.
- Ah. Por que perguntou o que eu iria fazer?
- Queria que fosse a minha casa.
- Fazer?
- Ash e Mel querem falar com você.
- Ah. Vou falar com meu pai.
- Ok – andamos pelos corredores, pegamos o elevador e subimos até a área dos consultórios. Na porta de sua sala tinha uma placa, escrito: Dr. Mason; Clínico Geral. Arthur bateu na porta antes de entrar.
- Pode abrir – John falou.
- Com licença.
- Como foi lá Sammy? – John perguntou.
- Fio muito bom poder vê-la de perto – olhei para me pai que estava sentado perto da parede – Oi, pai.- Oi. John me contou que Nathália deu alguns sinais.
- É – sorri – Você vai vê-la?
- Só à tarde. Temos que deixá-la descansar.
- Sr. Brandow?
- Sim, Arthur?
- Ashley e Melissa querem falar com Sammy. Ela pode ir à minha casa agora?
- Pode – papai respondeu gentilmente enquanto eu encarava Arthur.
- Vamos então, Sammy – ele sorriu, mas quando olhou para mim parou.
- Vamos – respondi com frieza – Tchau pai, volto logo. Qualquer coisa, me liga.
- Ok – ele respondeu.
- Tchau John.
- Até logo, Sammy – saí da sala e espere Arthur.
- Por que você perguntou?
- Por nada. Ficou zangada? – ele parecia confuso.
- Arthur, ele pode querer que eu não vá e só respondeu o contrário para agradar você. Se eu tivesse perguntado, ele me diria a verdade. Ele pode precisar de mim para alguma coisa.
- Não pensei por esse lado, desculpe – entramos no elevador.
- Tudo bem – suspirei.
- De verdade?
- Não vou ficar com raiva de você por causa disso.
  Quando chegamos ao estacionamento quase não havia mais vagas. Andamos até o Jaguar e Arthur abriu a porta para mim.
- O que elas querem? – perguntei quando ele entrou.
- Não – ele ligou o carro. Peguei o Iphone na bolsa e disquei o número de Ashley. Ela atendeu no mesmo instante.
- Oi Sammy! – ela falou entusiasmada.
- Oi Ash! – sorri. Arthur olhou para mim.
- Preciso que você venha aqui. Pode vir agora?
- Na verdade estou ligando pra avisar que estou indo, tudo bem? – mordi o lábio. Arthur balançou negativamente a cabeça.
- Sammy, quantas vezes preciso dizer que não precisa avisar? – ela forjou estar zangada – Mande Arthur pisar no acelerador, tchau! – ela desligou.
  Guardei o celular. Arthur riu – O que foi?
- Nada – ele sorriu torto – Só cumprindo ordens – ele acelerou.
- Você ouviu? – perguntei pasma.
- Prestei atenção – ele me lançou um sorriso travesso e voltou a olhar a estrada. Segundos depois recuperei o fôlego e virei o rosto para a janela.
  Assim que saí do carro vi Ashley na varanda de seu quarto, no terceiro andar. Ao me ver acenou e sorriu.
- Oi Melissa – cumprimentei quando entramos na casa e a vi no sofá, de pernas cruzadas com o laptop na mão.
- Oi Sammy – ela fechou o laptop e veio até nós.
- Cadê a Ash? – Arthur perguntou.
- Aqui maninho – disse ela do topo da escada bifurcada – Fui avisar ao Bryan que Sammy chegou – ela apontou para trás, onde Bryan sentava no corrimão e deslizava por ele.
- Sammy! – ele abriu os braços enormes e sorriu.
- Oi Bryan – ele me abraçou. Meu Deus, como ele é forte! Até meus pensamentos estavam sufocados – Bryan... Não consigo respirar.
- Ah, me desculpe – ele me soltou, fazendo meus pés voltarem ao chão.
- Tudo bem – disse respirando.
- Você é um exagero – Ashley disse vindo para o meu lado – Olá Sammy – falou ela com sua voz de fada e sorriu.
- Oi. O que vocês querem falar comigo? – olhei sugestivamente para Melissa.
- Vamos subir – ela respondeu.
- Vou precisar de você por algumas horas – Bryan falou para Arthur enquanto eu acompanhava as meninas.
- Ok.
  Eles foram para o corredor do lado esquerdo da sala, que levava para a sala de jantar e a garagem.
  Subimos até o terceiro andar – onde ficava o quarto de Arthur – e fomos até uma porta de madeira clara.
- Esse é o meu quarto Sammy – Ashley empurrou a porta para os lados, exibindo seu enorme quarto – Entra – ela sorriu.
  O quarto dela era lindo, assim que se entrava via-se um jardim de inverno do lado esquerdo à varanda – que dava para a frente da casa – e na parede da porta tinha um espelho de canto a canto – Você gostou? – ela perguntou entusiasmada.
- Deixa eu adivinhar – coloquei a mão no queixo teatralmente – Foi você quem decorou.
- Exatamente! – ela sorriu mais ainda – Olha – ela apontou para sua cama. Olhei e vi vários livros e dois cadernos – nosso material escolar.
- Vamos estudar – melissa respondeu a meu pensamento oculto.
- Venha – Ashley pegou minha mão. Revirei os olhos e me rendi. Passamos a manhã estudando para as provas do dia seguinte. Com a melhora de Nathália, minha mente ficou menos sobrecarregada e pude me concentrar nos livros. Ashley e Melissa eram ótimas professoras de história quando não decidiam contar com detalhes o que realmente havia acontecido. Já se passavam das duas da tarde quando terminamos a última questão de cálculo.
- Ufa! Acabamos – suspirou Melissa se jogando para trás na cama.
- Ainda bem – olhei pra ela.
- Não aguento mais ver números na minha frente – disse Ashley imitando melissa.
- Ash, qual a raiz quadrada de π mesmo? – mordi o lábio para reprimir uma risada.
- Pelo que eu saiba é... – disse ela se sentando com a mão no queixo e os olhos no teto.
- Ahhh... – ela me puxou, derrubando-me na cama. Ela jogou um travesseiro em mim e começamos a rir.
- Estou com fome e vocês? – Melissa perguntou passando a mão na barriga após um minuto.
- É Ana - disse colocando os braços atrás da cabeça. As duas se olharam confusas.
- Ana? – Melissa perguntou.
- A anaconda de estimação da Ash está pedindo comida – olhei para ela. Melissa começou a rir e a acompanhei.
- Muito engraçado – ironizou Ashley.
- Vamos comer – Melissa levantou da cama.
- Não estou a fim de almoçar, não – eu disse.
- Então o que vocês acham de brigadeiro de panela, um saco de pipoca e um filme? – Ashley disse animada se ajoelhando na cama.
- Brigadeiro? – perguntei. Já havia escutado esse nome em algum lugar.
- É um doce brasileiro. Aprendemos a fazer em uma de nossas missões – Ashley respondeu com um sorriso – É de dar água na boca só de falar!
- E o que ainda estamos fazendo aqui? – saímos correndo para a cozinha, descendo as escadas a todo vapor – Ashley e Melissa correndo numa velocidade humanamente possível.
  Ao chegarmos à cozinha, Melissa pegou uma panela e uma colher de pau no armário.
- Onde está Suzan? – perguntei depois de recuperar o fôlego.
- Ela foi resolver umas coisas e disse que ia ao shopping depois – Ashley respondeu pegando o achocolatado e leite condensado.
- Toma Sammy – Melissa jogou dois caramelos para mim.
- Por que você não coloca uns desse no brigadeiro. Vamos americanizar um pouco – disse jogando um para cima e pegando-o com a boca.
- Que ideia Sammy – Ashley disse de sobrancelhas franzidas.
- Fica bom, é sério – disse mastigando – eu acho.
- Me dá uns aí, Mel – Ashley estendeu a mão – Se você estragar essa obra prima da humanidade, a oitava maravilha do mundo, eu denuncio você! – revirei os olhos enquanto ela jogava alguns na panela e mexia.
  Melissa sentou no balcão de mármore e me encostei na mesa de mesmo material.
- Sammy, como está Nathália hoje? – Ashley perguntou.
- John disse que o coração dela acelerou e que a enfermeira a encontrou com a cabeça virada para o lado hoje.
- Que bom Sammy – Melissa disse sorrindo.
- É – Ashley sorriu – Daqui a pouco ela está te estressando de novo.
- É – suspirei, sentindo falta de quando ela adicionava mais uma ruga à minha coleção invisível.
- Mel, pega uma tigela no armário, por favor – Ashley pediu.
- Ok. Enquanto deixamos esfriar um pouco, vou fazendo a pipoca – Melissa colocou a tigela de vidro – que fazia a casa ter cheiro de chocolate – na mesa e pegou dois saquinhos de pipoca de microondas.
- Sammy, me ajuda a escolher um filme? – Ashley perguntou.
- Vamos – fomos para a sala e Ashley pegou um controle remoto.
- Aqui só tem CD – falei olhando a estante da TV.
- Observe – Ashley apertou um botão e a estante começou a virar, exibindo uma coleção de DVDs incrível.
- UAU! – havia mais filmes que em uma locadora – Por onde vamos começar?
- Pelas categorias. Tá vendo essas plaquinhas? – ela apontou para as etiquetas de metal.
- Sim – respondi.
- Nelas tem o gênero. Esses são de Shows – ela passava os dedos pelas DVDs -, filmes musicais, comédia, romance... Tem de documentário à vencedores do Oscar.
- Hmmm – olhei para os filmes – Moulan Rouge?
- Ótima escolha – ela pegou o filme e aperto o botão do controle remoto, a estande voltando ao normal.
- Cheguei! – Melissa trouxe o brigadeiro e a pipoca. Ashley acabara de colocar o filme quando foi para cozinha pegar a coca-cola. Melissa sentou no chão de pernas cruzadas e colocou o balde de pipoca em cima do centro. Acelerei o filme, colando na cena inicial. Ashley voltou no mesmo instante.
- Só tinha assim – ela mostrou garrafas de plástico de 500mls, cada uma com dois canudos.
  Comemos o brigadeiro sem olhar para a tigela. Quando as nossas colheres se bateram baixamos os olhos para meu colo.
- Acabou – fiz beicinho com a colher na boca.
- Era pra ter feito mais. Sua ideia de colocar caramelo deu certo.
- Mas ainda temos a pipoca – Melissa a pegou e coloquei a tigela do brigadeiro e as colheres no centro.
  Depois do filme, fui para a cozinha com a tigela de pipoca agarrada ao corpo enquanto mordiscava a última pipoca. Ashley e Melissa pegaram o resto e levaram para cozinha. Ashley jogou no lixo as garrafas e Melissa foi lavar as tigelas e colheres. Ajudei a arrumar as coisas e quando terminamos voltamos para a sala.
- Vamos fazer o que agora? – Ashley perguntou sentando na minha frente, do outro lado do centro.
- Não sei vocês, mas vou pegar minha bolsa, meu sapato e voltar para casa. Já está quase anoitecendo.
- Vai agora não, Sammy – Melissa pediu.
- Tenho que ir, desculpa.
- Vou pegar suas coisas – Ashley levantou e foi para o quarto.
- Acho que comi demais – Melissa falou deitada no sofá atrás de mim.
- Eu também – disse com a mão na barriga.
- Sammy, posso te fazer uma pergunta? – ela deslizou para o meu lado.
- Pergunte – olhei para ela.
- Como está sua mãe? – Melissa parecia preocupada.
- Indo... – baixei a cabeça.
- Não vai perdoá-la nem tão cedo.
- Não – olhei para ela.
- Já previa isso – Ashley voltou com minhas coisas. Calcei os sapatos e levantei.
  Quando estávamos no terraço, Suzan chegou.
- Olá Sammy! – ela me deu um abraço.
- Oi Suzan, como vai? – disse quando nos afastamos.
- Bem e você?
- Bem – sorri de leve.
- E Nathália?
- Melhor, obrigada.
- De nada, querida. Já está de saída?
- Sim, infelizmente.
- Que pena, queria que visse minhas compras.
- Quem sabe outro dia?
- Absolutamente – ela sorriu.
- Sammy, veio com Arthur? – Ashley perguntou.
- Sim.
- Te levo em casa, então – ela foi pra garagem.
- Tchau Melissa, Suzan – eu disse quando vi Ashley saindo da garagem.
- Tchau! – responderam entrando na casa.
- Vamos Sammy! – Ashley chamou do carro.
  Entrei no carro e Ashley colocou uma música animada. Ela parecia ser uma fugitiva da polícia. Pisava no acelerador de um jeito que ninguém conseguiria pará-la, nem Arthur era tão rápido e olhe que o velocímetro dele chegava a quase cento e cinquenta por hora.
- Você deveria aprender a dirigir no limite de velocidade. Você e seu irmão – disse tirando o cinto e descravando minhas unhas do banco.
- Me poupe, Sammy – ela disse quando saímos do carro. Faróis iluminaram o jardim e vi que o carro de papai se aproximava.
- Olá meninas! – papai disse ao sair do carro, Lucy logo atrás dele.
- Olá Sr. Brandow, como vai? – Ashley sorriu.
- Bem, obrigado querida – papai sorriu gentilmente.
- Sammy contou que Nathália melhorou. Daqui a pouco ela volta pra casa!
- Que Deus te ouça filha, Deus te ouça – Ashley sorriu e revirei os olhos.
  Olhei para Lucy e ela estava totalmente fora dali, aprisionada em seu próprio casulo.
- Hmmm... Ash?
- Sim?
- Essa é Lucy – Lucy me olhou maravilhada –, minha... – minha garganta fechou. Pigarreei para voltar ao normal – você sabe. Lucy, essa é Ashley, irmã de Arthur.
- Olá Ashley, como vai? – Lucy sorriu timidamente.
- Oi Sra. Brandow – Ashley sorriu. Revirei os olhos. Por que ela e Arthur eram tão parecidos? – Desculpe, mas tenho que ir. Suzan comprou umas coisas e estou morrendo de curiosidade – Tudo bem – papai sorriu – Lembranças a todos.
- Pode deixar. Até logo Sra. Brandow.
- Até – Lucy respondeu.
- Tchau Sammy – ela sorriu.
- Tchau.
  Ela entrou no carro e desapareceu em segundos.
- O que elas queriam? – papai perguntou.
- Estudar para a semana de provas. Começa amanhã – dei de ombros e passei o braço por sua cintura.
- A propósito, Lucy poderia me fazer um favor? – papai perguntou quando entramos. Lucy se virou com um sorriso no rosto.
- Sim.
- Fale com o diretor sobre as provas da Nathália, está bem?
- Certo – ela estava entusiasmada.
- Sammy, pode levá-la amanhã até o colégio?
- O quê? – perguntei incrédula. Respirei fundo e assenti olhando para o chão – Posso.
- Obrigada – ele deu um beijo em minha cabeça – Sei o quanto custa para você – ele sussurrou em meu ouvido.
-Vou subir, até amanhã – andei até a escada – Não demore amanhã, não posso me atrasar – disse carrancuda para Lucy, olhando-a por cima do ombro.
  Acordei para a manhã de segunda-feira e fui direto para o chuveiro. Arrumei-me minuciosamente, peguei minha mochila e desci para comer algo.
- Bom dia – disse ao chegar à cozinha.
- Bom dia- papai falou terminando de comer.
- Onde está ela? – perguntei pegando uma barra de cereais no armário.
- No quarto – papai levantou e pôs a louça na pia.
- Ah – continuei comendo.
- Até mais tarde Sammy – papai disse ao descer as escadas depois de ter pegado suas coisas no andar de cima. Eu havia terminado de lavar e guardar tudo.
- Tchau, bom trabalho – subi para escovar os dentes. Quando desci, Lucy me esperava, minha mochila no ombro.
- Bom dia – ela sorriu.
- Oi – peguei minha mochila e abri a porta, indo para o carro.
- Tudo bem? – ela perguntou ao entrarmos.
- Sim – liguei o carro.
- Preparada para as provas? – olhei colérica para ela quando o sinal fechou.
- Vou levar você para o colégio, mas não força diálogo, ok? – acelerei quando o sinal abriu e fomos para o colégio em silêncio.
  Ao chegarmos vi todos os meus amigos perto da Mercedes da Ashley. Estacionei ao lado dela.
- Oi Sammy! – Bernard acenou ao me ver.
- Oi pessoal – cumprimentei. Lucy veio para o meu lado.
- Olá Sra. Brandow – Arthur disse se aproximando.
- Oi Arthur – ela sorriu levemente.
- Sammy – ele sorriu.
- Oi – sorri também – Vou levá-la até a diretoria. Já volto. Venha – andamos pelo estacionamento em direção a escola. Uma lufada de vento gelado me atingiu e coloquei as mãos nos bolsos do casaco.
- Bom dia Sammy, como vai? – perguntou a Sra. Holmes com um sorriso gentil.
- Bom dia, tudo bem com a Sra.? – perguntei me aproximando.
- Tudo querida, como vai sua irmã?
- Melhorando, obrigada.
- Que bom O que deseja?
- Sr. Davis está?
- Acabou de chegar. Vou avisar que vai entrar – ela pegou o telefone.
- Na verdade na sou eu é... ela – apontei com o polegar. Sra. Holmes não a havia notado e pude ver a surpresa em seus olhos quando viu Lucy a meu lado. Ela olhou de mi para Lucy duas vezes e pude ver que estava procurando semelhanças que pudessem denunciar nosso parentesco.
- Ah, claro – ela franziu o cenho – Como vai?
- Bem, obrigada.
- Sr. Davis? – ela esperou um segundo – A Sra. Brandow irá entrar, está bem? – ele falou algo que a fez olhar para mim e depois desviar o olhar para uma revista de estava em sua mesa – Não, ela não faleceu Sr. – baixei a cabeça envergonhada – Está certo – ela desligou – Pode entrar.
- Até mais tarde Sammy – Lucy falou.
- Como vai voltar?
- De táxi.
- Tchau – saí da secretaria de cabeça baixa e fui direto para a sala de aula.
  As provas foram tranquilas, talvez porque eu soubesse demais do assunto. Assim que os exames acabaram fui para casa, estava sem cabeça para ver qualquer pessoa, até mesmo Arthur.
  Cheguei em casa e encontrei Lucy fazendo um bolo. Passei a tarde estudando. À noite, Arthur me ligou e ficamos um bom tempo conversando. Ele me disse para não ligar para os olhares de quem quer que fosse, quando lhe contei sobre o que tinha acontecido na secretaria.
  A semana de provas passou rapidamente. Consegui conciliar os estudos com as visitas à Nathália – que agora eram constantes.
  No primeiro dia de julho fui ao colégio para pegar o resultado dos exames. Eu havia sido aprovada em todas as matérias, com pontos sobrando. Cheguei ao hospital feliz. Havia alguns amigos de Nathália do lado de fora do quarto.
- Oi- disse para chamar a atenção deles – Sou Sammy, irmã da Nathália, posso ajudar?
- Oi Sammy, sou Evan – um garoto com mais ou menos minha altura se aproximou. Ele era moreno, de olhos claros. Não era azul ou verde, parecia cor de mel. Esse era o garoto por quem Nathália suspirava.
- Oi Evan – sorri levemente.
- Como ela está? – ele estava preocupado.
- Semana passada ela teve uma melhora, mas s eu quadro voltou a estabilizar. Já tinha vindo aqui?
- Sim, mas não havia ninguém da família.
- Ah. E vocês duas? – olhei para as meninas atrás dele.
- Oi Sammy – disse Brenda – Essa e Mary.
- Ou Mary, como vai? – perguntei a garota loira que mais parecia uma boneca de porcelana.
- Bem – ela sorriu timidamente.
- Sammy, podemos entrar? – Evan perguntou.
- Eu entro, mas sou da família. Não sei se Dr. Mason vai permitir.
- Contanto que sejam rápidos, podem entrar – John se aproximou – Oi Sammy – ele sorriu.
- Oi – retribui seu sorriso.
- Posso entrar primeiro? – Evan perguntou.
- Pode – respondi.
- Mas antes terá que passar álcool nas mãos, rapaz – John disse.
- Ok.
- Alguma melhora? – perguntei olhando Nathália através do vidro.
- Não. Tudo estagnado.
- Mas ela estava melhorando – franzi o cenho.
- Isso é normal – John passou a mão por meu ombro – O quadro dela pode melhorar e depois estagnar. Não se preocupe, ela está bem – suspirei.
- Ela vai voltar, não vai? – olhei para ele.
- Sim – ele me olhou nos olhos e sabia que podia confiar neles.
- Fale como médico – sussurrei. Ele sorriu, entendendo minha indireta.
- Ela vai voltar – ele me fez encostar a cabeça em seu peito – Estou falando das duas maneiras – ele afagou meu braço. Voltei a olhar para Nathália. Evan segurava sua mão e vi que algumas lágrimas escorriam por seu rosto, talvez ele realmente gostasse dela.
  John deu um beijo em minha cabeça e saiu pelo corredor. Aproximei-me mais do vidro, quase o tocando. Evan deu um beijo na testa dela e veio em direção à porta enxugando o rosto com as mãos. Brenda e Mary entraram juntas. As duas choraram e Mary chegou a dar um abraço desajeitado em Nathália. Brenda beijou se rosto antes de sair do quarto abraçada por Mary.
- Vou ligar para meu pai – Mary disse com a voz embargada.
- Sammy, ela vai ficar bem, não vai? – Brenda perguntou.
- Vai sim.
- Meu pai já está a caminho. Vamos indo? – perguntou Mary.
- Tchau Sammy – disse Brenda.
- Tchau. Até mais Mary – acenei – Evan?
- Sim? – ele se virou.
- Pode vir aqui?
- Vão na frente. Encontro vocês daqui apouco – ele disse e veio até mim.
- Ok – Mary disse indo com Brenda.
- O que foi? – ele parecia confuso.
- Eu queria te contar uma coisa... sobre a Nathália
- Fale.
- Ela gosta muito e você. Muito mesmo – ele sorriu e seus olhos brilharam – Achei que precisava ouvir isso – dei de ombros.
- Eu precisava. Obrigado Sammy, até outro dia.
  Depois de falar com Nathália, passei na sala de John e avisei que estava indo embora. Ele mandou lembranças para meu pai e Lucy. Saí do hospital quase na hora do almoço. No caminho, parei num posto de gasolina para abastecer o carro e aproveitei para comprar um Doritos e uma coca-cola na loja de conveniência.
  Os primeiros dias das férias foram bem movimentados. Na terça, depois de ter saído do hospital, fui ao shopping com as meninas e só voltamos à noite. Na quarta passei o dia na piscina dos Mason, mas passei tanto protetor solar que continuei da mesma cor. Á noite, Arthur, juntamente com seus irmãos me rebocaram para jantar fora e voltamos quase de madrugada. Na quinta acordei de dez horas e me arrumei rapidamente para visitar Nathália, me sentindo culpada por estar me divertindo enquanto minha irmã estava em coma.
- Oi John, como vai? – perguntei entrando em seu consultório.
- Olá Sammy. Seu pai esteve aqui mais cedo com uns amigos.
- Hmmm... que bom, meu pai está saindo novamente com os amigos.
- Fruto da conversa que tive com ele – ele sorriu.
- Seja lá o que conversou, fez muito bem – sorri – Vou ver Nathália.
  Passei mais tempo que o permitido no quarto dela. Eu não gostava de vê-la preá a tubos, mas seu rosto sereno me passava algum conforto.
  Faltava pouco para a hora do almoço quando cheguei em casa. Assim que entrei, senti o cheiro de orégano e temperos circulando pelo ar. Fui direto para a cozinha e encontrei Lucy tirando uma travessa do forno.
- O que é isso? – espiei a comida por cima de seu ombro.
- Torta salgada. Mas tire seus olhos gulosos, ainda falta terminar.
- Vou tomar um banho – subi aos saltos e fui para o banheiro. Ao terminar, fui para meu quarto.
  As janelas estavam todas fechadas e eu penteava o cabelo, quando meu coração deu uma pontada, como se alguma faca tivesse sido enfiada. Arfei e soltei a escova, que caiu no chão com um baque surdo. Coloquei as mãos no coração e tentei respirar fundo, sem sucesso. Eu ofegava.
- Deus, o que está havendo? – sussurrei.
  No mesmo instante as janelas s e abriram e uma rajada de vento passou por meu quarto. A dor cedeu e corri para a janela atrás da minha cama. Olhei para o céu e uma nuvem quase negra se aproximava. A ventania ficava mais forte e vi frutos caindo das árvores dos vizinhos, folhas e flores enchendo o chão. Tentei fechar a janela, mas só consegui com certo esforço. Corri para a outra e olhei mais uma vez para o céu.
  Por um momento pensei ter visto o desenho de um par de asas nas nuvens ainda brancas, mas quando estreitei os olhos para ver melhor, elas tinham sido cobertas.
  Lutei contra o vento e fechei a janela. Sentei na cama –enquanto escutava o barulho torrencial da chuva, trovões estalando do lado de fora – sentindo um aperto no peito e dificuldade para respirar.
  Mais uma vez, levei as mãos ao coração.
- Meu Deus – sussurrei.

Um Romance de:

~CONTINUA~

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