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Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não." City of Angels

♥ 18. NA HORA DE MINHA MORTE ♥

  
Um cheiro forte invadiu minhas narinas, que arderam em protesto à fragrância desconhecida. Meu corpo ficou pesado e um véu escuro cobriu minha mente, um segundo após eu sentir alguém se esforçando para segurar meu peso.
Em algum momento, senti um leve balanço e meus ouvidos começaram a captar minuciosos barulhos. Cansada, abri os olhos e me vi dentro de um carro, meus dedos roçando no banco macio e cheio de ondulações e logo depois em algo frio.
  Olhei para o lado e Ashley estava desfalecida.
- Ashley! – minha mente despertou. Aproximei-me dela e lhe toquei o rosto – Ashley, acorde! – balancei seu ombro de leve – Por favor – grunhi ao ver que ela não respondia.
- Que comovente – uma voz quase lírica soou. Encarei a motorista e vi que ela também me olhava pelo retrovisor.
  Seus cabelos deviam ser na altura da cintura e esvoaçavam – serpentes vermelhas atacando enquanto se enroscavam umas as outras. Prendi a respiração ao ver seus olhos verde esmeralda me fitando, um sorriso de lado retorcendo seus lábios cheios.
- Quem é você? – perguntei olhando para os lados. Estávamos numa estrada, sem nenhum carro. Já era noite.
- Pense um pouquinho. Vamos lá, eu espero – ela arqueou uma sobrancelha ruiva.
- Jany Michell – sussurrei com medo.
- Exatamente – ela parecia feliz ao escutar o pavor em cada letra de seu nome.
- Onde estou? – tentei arrancar de minha mente alguma coordenada, mas ela estava obscura e vazia, assim como a estrada à nossa frente.
- Você está em um Cadillac Eldorado Brougham 1957 prateado – ela estava se divertindo.
- Não perguntei isso – disse entre dentes e virei para Ashley, que ainda estava desmaiada – O que você com ela? –quase gritei.
- Amoníaco, assim como você. Mas acho que eu coloquei mais nela.
- Onde está Melissa?
- Na mala.
- O quê? Você a colocou na mala? – gritei e fui para junto da porta – Pare o carro.
- Não – ela disse como se estivesse negando um doce.
- Pare, deixe elas irem, por favor – implorei no mesmo instante em que Ashley gemeu – Ashley – chamei segurando-a nos braços.
- Sammy – ela balbuciou.
- Odeio drama – Jany revirou os olhos e diminuiu a velocidade, indo para o acostamento – Saiam do carro. Se tentarem fugir, mato você – ela olhou pra mim e apontou uma arma.
  Em um segundo a porta ao meu lado estava aberta ao contrário. Procurei por algum sinal de que houvesse alguém por perto, mas nada. Estávamos sozinhas.
  Jany abriu a mala com uma mão, enquanto a outra mirava em mim. Melissa estava encolhida e vi seus olhos em pânico encontrarem os meus e depois os de Jany.
- Você não vai matá-la – Melissa disse entre dentes.
- Aposte – Jany sorriu de lado – Saia daí – Jany se aproximou enquanto Melissa se levantava e puxou-me, me fazendo ficar ao seu lado – Junto dela – Jany ordenou a Melissa, que se postou ao lado de Ashley – Escolha – Jany me olhou.
- O quê? – perguntei confusa.
- Ashley ou Melissa?
  Elas me encaravam. Eu não podia escolher, não tinha o direito de dizer quem morre e quem vive. Não tinha o controle sobre a vida de ninguém. Exceto uma.
- Você as liberta... - comecei.
- Não entendeu? É só uma! – Jany gritou.
- E eu fico o lugar delas.
- Não! – as duas gritaram – Sammy, não! – Ashley estava desesperada.
- Você ia ficar comigo de qualquer jeito – Jany disse – Mas como sou uma pessoa caridosa, lhe concedo esse pedido. É o último, vai desperdiçá-lo com elas?
- Salvar vidas nunca é desperdício.
- Por isso que você vai morrer. É boa demais. Chega a ser idiota. Entre no carro. Agora – ela ordenou. Ashley e Melissa me encaravam e numa última olhada, vi que choravam.
- Você vai se arrepender – Melissa disse às minhas costas.
- Pode até ser, mas quando isso acontecer, ela já vai estar morta mesmo – ela deu de ombros – Vão embora. Se encontrarem o caminho de volta – ela gargalhou.
- Você... – Ashley grunhiu.
- Dê mais um passo e atiro na cabeça dela – olhei para trás num rompante e vi a arma apontada para mim.
- Não! – Melissa gritou.
- Ótimo. Obrigada por terem sido ótimas iscas – Jany sorriu e após um instante ela entrava no carro. Ela sorriu perante meus olhos assustados e prendeu meu rosto com as mãos em um pano com amoníaco, tudo voltando a ficar escuro.
  Às vezes eu sentia que estava voltando a ficar sóbria, mas lá vinha a escuridão de novo. Jany devia estar me desmaiando a cada vez que me mexia.

  Abri os olhos e por um segundo esperei que Jany fosse me fazer dormir novamente, mas nada aconteceu. Eu não havia percebido, mas já era de manhã. Nós tínhamos dirigido a noite toda.
- Pra onde está me levando? – perguntei sentando-me. Minha cabeça girou e me segurei no banco.
- Não lhe interessa – seus olhos estavam com olheiras e vi quatro copos de café expresso no chão do banco do passageiro e mais um no suporte.
- Por que está fazendo isso? – perguntei ainda sonolenta.
- Vingança, minha cara.
- O que fiz?
- Sabe, eu já conhecia suas amiguinhas. Na verdade, toda a família. Bryan, Suzan, John; falta alguém – ela estava enumerando com os dedos e quando perguntou balançou o indicador e me olhou pelo retrovisor – Ah, sim. O inesquecível Arthur Mason – ela semicerrou os olhos e abaixou a mão para tomar mais um gole do café.
- Como você os conhece? – perguntei atordoada.
- Eu morava em Ohio, na verdade em um hospital de Ohio...
- Por que em um hospital?
- Eu havia sofrido um acidente e perdi meus pais. Dias depois, quando acordei e me contaram,fiquei catatônica. Não comia nem bebia nada e logo comecei a ficar doente e louca. Certa vez eu estava na cama chorando e senti alguém sentando-se ao meu lado. Quando olhei era um homem muito bonito, olhos e cabelos claros. Era John Mason. Ele conversou comigo durante horas e falou sobre sua família. No começo era só um monólogo, mas depois comecei a interagir com ele. Os dias se passavam e começava a melhorar, mas toda noite tinha pesadelos e acordava gritando. Eu via meus pais por toda parte. Comecei a me tratar com um psicólogo, mas não surtiu nenhum efeito. Teve um dia que John não foi me visitar. À tarde um rapaz louro e de olhos azuis como o céu entrou em meu quarto. Pensei que ele tivesse se enganado, mas me disse que era filho de John. Ele conseguia ser mais bonito que o pai e sua voz me encantou. Arthur conversou comigo a tarde toda. Alguns dias depois, recebi alta. Ele me levou para casa com seus irmãos. Ashley foi extremamente simpática, assim como Bryan. Melissa foi um tanto fria, mas ignorei. Desde esse dia, eles sempre iam me ver, sempre preocupados comigo. E então me apaixonei por Arthur – sufoquei ao ouvi-la e cravei minhas unhas no banco – Diversas vezes dei sinal que gostava dele, mas ele nunca notava. Até que um dia decidi contar a ele. Liguei para Ashley e ela me disse que ele estava no hospital. Dirigi até lá e fui direito ao consultório de John. Encontrei-o conversando sobre mim.
- Arthur, você sabe que tem que falar com ela, dar alguma explicação – John falava.
- Eu sei John, mas o que vou dizer? Contar que somos anjos, que nossa missão é cuidar dela e que daqui a alguns dias iremos para NY? – Arthur não havia notado que eu estava na porta, mas John sim – ela continuou – Ele se levantou e me encarou, enquanto eu permanecia mortificada. Arthur se virou e pude ver o pedido de desculpas em seus olhos. Sai correndo e chorando pelo hospital. Cheguei em casa péssima e fiquei na cama encarando o nada. Até que quis saber mais, mesmo que isso me matasse. No outro dia fui ao hospital e pedi para John me dizer tudo. Ele me contou sobre o fato de estar em todos os lugares...
- Como?
- Você não sabe? – ela parecia surpresa ao ver meus olhos pelo retrovisor.
- Saber de quê?
- Eles podem estar em um lugar sem que você os veja. Se quiserem não serão vistos – fiquei perplexa. Arthur nunca havia me contado nada sobre isso.
- Tem mais? – perguntei.
- O resto você já sabe. Eles são imortais enquanto não estão na forma de humanos.
- Você sabe como é essa forma de anjo?
- Nunca vi. John me contou que é como se fosse a última coisa que podem fazer pela missão.
- O que aconteceu depois?
- O que você acha? – ela revirou os olhos, irritada – É claro que foram embora. Mas não sou de desistir. Fui atrás deles em NY, consegui descobrir onde eles estavam, mas cheguei tarde demais. Eles tinham ido para Boston. Quase desisti, mas algo me dizia que eu conseguiria encontrá-los. E consegui. Eu estava tentando achar a casa deles, quando um rapaz parou no mesmo posto de gasolina que eu estava. Ele desceu de seu carrão e vi que segurava algo relacionado à Boston. Perguntei se ele conhecia algum Dr. Mason e ele disse que sim. Ele me disse sobre todos eles e falou de você e de seu súbito envolvimento com Arthur. A partir dali eu quis te matar – seus olhos em brasa me fitaram por um segundo e meu corpo congelou – Perguntei a ele se sabia onde você morava e ele me deu todas as coordenadas para chegar até sua casa. No dia seguinte fui até lá e cheguei a tempo de ver você saindo para ir ao colégio, pude ver pela mochila no ombro. Aquilo me deu uma raiva que você nem imagina. Como Arthur podia ter se apaixonado por você? Uma adolescente do ensino médio! Eu que devia estar no seu lugar. Quando chegou ao colégio, esperei você sair do carro, mas você só abriu a porta e se virou, baixando a cabeça. Fiquei te observando e vi quando Arthur correu pra você – Jany falava do dia em que minha mãe havia voltado. O pior dia – Ele te tomou nos braços de um jeito que nunca faria comigo. Aquilo me encheu de ódio. O rapaz que havia me dito onde você morava apareceu e fizemos um acordo.
- Que acordo? Quem era esse rapaz?
- Não lhe interessa. O que importa é que você está aqui hoje.
- Jany, quem é ele? – só podia ser ele. Ele disse que voltaria!
- Eu não vou dizer!
- É Iron, não é? Jany, ele quer me matar! – fiquei desesperada.
- Cale a boca, se não te ponho para dormir de novo! E dessa vez vai ser com uma bala bem no meio da sua testinha! – ela gritou.
- Jany...
- Samantha... – ela gritou e pegou a arma.
- Desculpe, desculpe – pedi em pânico.
- Melhor assim. Quer saber o resto, ou não? – ela estava calma, como se nunca tivesse se alterado.
- Continue – sussurrei.
- Talvez Arthur tenha se encantado por sua beleza. Você é muito mais bonita que eu. Um rosto de boneca, cabelos sedosos e um corpo que qualquer um mataria para ter. Mas você continuava sendo só uma adolescente cheia de problemas – ela mudou de marcha grosseiramente – Depois de alguns minutos você estava discutindo com Arthur. Você marchou até o colégio e o deixou sozinho na chuva. Ele se encostou em seu carro e disse olhando para o céu: Deus, me dê forças para terminar minha missão. Aí sim entendi o motivo para todos os Mason te mimarem. Você é a missão de Arthur. A única razão para ele estar com você! Óbvio! Ele nunca se apaixonaria de verdade por você. NUN-CA – ela riu.
  Senti meu chão desmoronar. Iron um dia havia falado a mesma coisa. E agora o que Jany me contou. Arthur nem conseguia mais me aguentar. Recolhi minhas pernas, enterrei o rosto nos joelhos e chorei.
  Chorei por não significar nada mais para Arthur do que uma tarefa a cumprir, por também não ter acreditado em Iron. Cada beijo, cada abraço, não era nada além de uma atuação. Eu estava prestes a morrer por quem nem sequer se importava comigo. Lembrei do choro da Ashley. Até o último minuto ela fingiu.
  E Nathália? Ela não merecia ficar sozinha. Perdoe-me, pensei.
  Ao que parecia ter sido uma ou duas horas, mas eram quarenta minutos no máximo, o carro parou.
- Chegamos! – a voz de Jany tilintava – Já deu adeus a sua vidinha?
- Não – eu não ia morrer. Não ia ser idiota, ia salvar minha pele. Jany estava certa ao dizer que eu só morreria por ser tão boa. Não ia culpar a ninguém pela minha morte, porque não haveria uma. Vou viver, por você Nathália.
  Virei-me para a porta e esperei que Jany a abrisse. Ainda me confundi por um segundo ao vê-la sendo aberta ao contrário, mas meu instinto de preservação junto com a raiva que sentia me deu forças. Chutei a porta e dei impulso para ficar de pé. Jany caiu e corri por uma escadaria velha. Estava chovendo muito e tentei ser rápida e ter cuidado de não escorregar ao mesmo tempo.
- Sua idiota! Você não vai escapar! – ela gritou atrás de mim, sua voz sendo abafado por um trovão.
  Era uma estação de trem abandonada. Vi de relance a placa na entrada. Central Station, foram as únicas palavras que consegui ler. Corri pela câmara – um lugar onde as paredes que pareciam mosaicos pichados estavam descascando, mostrando as vigas de ferro enferrujadas. O teto era em arco e tinha vitrores quebrados por onde a chuva entrava, além dos próprios furos da cobertura. O chão estava com os sedimentos das paredes misturados a água, além dos sedimentos dele próprio. Eu não sabia para onde ir, mas faria de tudo para ficar fora do campo de visão dela.
  Pela visão periférica, avistei uma escada. Corri até ela e subi – sem cuidado nenhum com o chão deteriorizado e com a gosma que a água tinha feito por cima dos degraus. Vigas de ferro estavam no chão, algumas ainda com partes presas ao teto que pingava. Tentei achar algum lugar para me esconder, mas não tinha. Disparei pelo corredor longo, repleto de pilares e luminárias que pareciam bigornas prestes a cair em minha cabeça. Olhei para trás algumas vezes, e ficava aliviada a cada vez que constatava que Jany não estava perto de mim. Mas na última vez não tive sorte.
- Ah – arfei quando voltei a olhar para frente e a vi meio molhada me encarando, as mãos apontando uma arma para mim. Seus olhos eram gélidos e um sorriso se espalhava lentamente por sua boca.
- Falei que você não ia escapar.
- E eu prometi que não ia morrer – disse ofegando. Dei alguns passos para trás, tomei impulso e me virei, voltando a correr. Ouvi Jany gritar um palavrão e um disparo. Algo queimou meu braço, mas não parei em nenhum segundo. Desci pela mesma escada, mas dessa vez segui por outro caminho. Comecei a correr por outro corredor onde tinham poços de elevadores e entradas escuras. Sem opção entrei em uma delas e desci pelas escadas de madeira velha. Lá embaixo cheirava a mofo e supus que talvez inundasse em época de chuva e eu esperava que não fizesse isso enquanto eu corria por ali. Havia avisos de Não fume colados nas pilastras amarelas e ferros salientes no teto, um pinga-pinga infernal incomodando meus ouvidos.
  Eu só tinha que correr. Encontrar a saída daquele labirinto e pegar o carro de Jany. Com alguma sorte a chave estaria na ignição.
  Iron.
  Iron destruiu qualquer esperança que ainda estivesse em mim. Ele estava na minha frente, eu não sabia como tinha esbarrado em seu corpo. Ele não estava ali. Eu estava olhando, não estava? Iron segurou meus braços – apertando o machucado – e percebi que eu não tinha saída. Nunca tive.
  Seus olhos encararam os meus e pude ver em suas íris azuis o pavor dos meus. Eu estava desesperada, um desespero quase humanamente impossível.
- Por favor... Não – implorei, minha voz quase um zumbido.
  Ele apertou mais meus braços e vi seus olhos se estreitarem.
- Vá – ele me empurrou – Corra Sammy, vá! – ele me virou, minhas costas batendo em seu peito e me empurrou. Corri um pouco e olhei para trás, meus cabelos cobrindo meu rosto e o vi com as duas mãos na cabeça e depois uma delas esmurrou uma das pilastras.
- Obrigada – sussurrei. Sabia que ele podia escutar.
  Só quando cheguei a uma área com colunas dóricas a cada dois ou três metros parei. Apoiei as mãos nos joelhos e tomei fôlego. Respirei o suficiente para correr o que restava até o carro de Jany.
- Se tentar correr, atiro. Dessa vez você não vai estar tão longe pra ser de raspão – sua voz maléfica encheu meus ouvidos quando levantei o rosto para voltar a correr.
- Era Iron, não era? – perguntei.
- Sim – ela sorriu perversamente – Já se encontrou com ele, não foi?
- Ele me deixou fugir.
- Não, ele não deixou. Ele conduziu você para mim – ela se aproximou e pegou meu rosto com uma mão, apertando-o – Ele nunca amou você. Nenhum dos dois. Um quer ter seu corpo pra arrancar sua alma e o outro quer cumprir sua tarefinha de casa pra passar de ano por média – ela balançou meu rosto e o soltou, empurrando-me contra uma pilastra.
- Mas eu tive os beijos dele – vi seu rosto ficar perturbado – Mesmo tendo sido uma mentira eu tive os abraços dele. Você nunca saberá como é sentir o corpo dele colado ao seu, qual a sensação da boca dele movimentando-se com a sua – Jany parecia louca ao me encarar – Você nunca saberá como é dormir em seus braços. Ele pode ter estado comigo porque sou sua missão, mas não sabe o quanto ele foi convincente.
  Jany me olhou com fúria e sorri lentamente para ela.
- Isso é um blefe – ela ralhou – Ele é um anjo.
- Ele se esquecia disso quando estava comigo. Eu o fazia esquecer. Ele não fazia isso quando estava com você, não é? – dei de ombros – Que pena – Jany semicerrou os olhos verdes enquanto seu rosto e pescoço ficavam vermelho sangue.
- Eu te odeio! – ela ergueu a mão e no mesmo segundo aconteceram três coisas: Jany colocou toda sua força no tapa porque caí em cima do braço machucado e bati o ombro na quina de uma pedra. Um grito de agonia saiu de minha garganta ao escutar o estalo que meu ombro fez e a dor que veio com ele.
  Vi os sapatos de Jany perto de minha barriga. Ela se abaixou e pegou meu rosto como tinha feito antes – Lição número um: Não provoque Jany Michell – ela jogou meu rosto, fazendo-o bater no chão arenoso. Ela se levantou.
- Não menti – murmurei através das dores – Agora se você não quer acreditar, eu entendo. A inveja cega, não é? – ouvi um rugido e uma dor inebriante me dominou.
  Jany havia me dado um chute no estômago. Mesmo tendo me encolhido um pouco, não pude evitar a tosse que veio. No mesmo instante senti gosto de ferrugem na boca.
- Lição número dois: Não me subestime. Pode mentir o quanto quiser – ela riu.
- Não. Estou. Mentindo – disse com dificuldade. Ela veio até mim e esfregou seu sapato em meu rosto, as elevações do solado junto com a areia molhada machucando minha pele.
- Continue a falar. Enquanto você fala seu rostinho perfeito vai pro espaço – ela apertou a ponta do sapato e colocou mais força, depois o tirou, deixando uma ardência e um rastro quente – Agora só para garantir seu silêncio – havia um sorriso em sua voz. Jany impulsionou o pé para trás e fechei os olhos, contraindo meus músculos. Senti seu sapato vindo com toda a força novamente em meu estômago. Soltei outro grito – muito mais forte que o anterior –, um jorro de sangue invadindo minha boca.
  Por um instante eu parecia estar à deriva. Havia dor – muita – mas eu não me importava. Estava tudo escuro e não havia um único som. Eu havia desmaiado. Meus primeiros pensamentos foi que eu havia morrido e que agora minha alma vagava. Mas havia dor, almas não sentem nada, então eu ainda respirava. Senti um balançar, mas não me incomodei.
   Iron não tinha me salvado. Mas por que ele parecia ter se arrependido quando olhei para trás, quando o vi esmurrar a parede? Talvez ele estivesse arrependido de não ter ele mesmo me matado.
  Após alguns minutos, abri os olhos. Eu estava sentada e amarrada às colunas duplas e Jany estava agachada na minha frente.
- Olá Sammy – sua voz me deu náuseas – Eu avisei. Promessa de anjo não pode ser desfeita. Não tenho como matar você, mas ela tem – Iron disse se agachando atrás de Jany, sua mão afastando o cabelo de seu pescoço. Ele repousou o queixo em seu ombro e sorriu sem mostrar os dentes.
- Por que Jany? Ele tem motivos, mas você não – disse com dificuldade.
- Você tem tudo – ela levantou. Iron continuou agachado. Nos olhamos por um segundo depois voltei a olhar para Jany – Beleza, amigos, família. Vi sua irmã no dia que te segui até o colégio. Você teve até o que não podia. Mas veja qual o seu fim: Sozinha, numa estação de trem abandonada, sem ninguém para te salvar. Tem esse anjo aqui, mas ele é a favor da morte. Da sua morte em especial. Você é a obsessão dele – olhei para Iron pelo canto dos olhos – Isso é o que dá acreditar em qualquer anjo que vê por aí – Jany balançou negativamente a cabeça – Mas eu quero saber uma coisa. O que ela tem que faz todos a desejarem? Ela é tão patética – ela realmente não achava nada em mim que pudesse atrair um homem.
- Tudo o que você não tem – Iron levantou e lhe deu um sorriso de lado. Não era nem um pouco igual aos que ele me lançava. Não tinha nenhuma sedução no sorriso que Jany havia recebido.
- Iron, você não terá minha alma, pra que quer me matar?
- Infelizmente, porque queria muito seu corpo – Jany revirou os olhos – Sua morte vai ser uma vingança. Arthur me fez ficar assim.
- Não – protestei baixo – Você escolheu o caminho errado.
- Que seja – ele deu de ombros – Não posso ter você, ninguém mais terá – ele sorriu maliciosamente.
- Ela é tão sem sal – Jany me olhou com desprezo.
- Por que você não vai cuidar da sua própria falta de... tudo?
- Me poupe – ele fez uma careta de nojo.
- Sabe Sammy, eu até gostava de você. Você é quente, merecia alguém a sua altura – ele gesticulou para ele mesmo – Só teria um problema. Não poderia levá-la para cama. Que pena. Seria um desperdício não aproveitar seu corpo. Mas o babaca também não pode ou será condenado para sempre, uma punição bem mais severa que a minha, porque ele a ama. Se eu não tivesse cometido muitos erros depois da Bethany esse seria meu destino também – essa era a resposta a repetitiva pergunta que eu fazia. Mas Arthur não me amava, era só parte da atuação. Ou seja, tudo voltava à resposta de que ele se tornaria como Iron, ou alguns dos castigos relativos ao erro dele – Como você pôde me trocar por ele? – ele franziu o cenho – Arthur não tem um terço do meu charme, estilo e fale sério – o canto de sua boca se elevou e ele se abaixou na minha frente, pegando meu queixo – Meu beijo e meu corpo são incomparáveis – virei o rosto e o escutei suspirar enquanto se levantava – Jany – ele estalou os dedos, como quando tentamos chamar atenção – Ela é toda sua – olhei para ele. Iron cruzou os braços e sorriu de lado, acenado com os dedos.
- Adeus Sammy – Jany disse e apontou a arma para mim. Meus olhos encontraram os dela e eles estavam eufóricos, depois encarei os de Iron, minha respiração rápida e forte. Iron me encarou e vi seu rosto se distorcer. Ele não queria fazer aquilo. Não era possível. Ele me veria morrer literalmente de braços cruzados?
- Eu prometi – ele pronunciou sem som, em um pedido de desculpas.
  Meu coração nunca mais bateria.   
Olhei nos olhos da assassina mais uma vez e fechei os meus. Havia chegado o fim. Toda a minha vida seria só uma lembrança na memória do que ficariam, uma recordação que o tempo apagaria. Só esperava que pelo menos entregassem meu corpo ao meu pai, para que ele tivesse o direito de me ver pela última vez.
    Ao fundo, ouvi um barulho misturado ao da chuva, mas já estava distante. Se fosse um resgate, já era tarde demais. Ouvi Jany desativar a trava de segurança da arma.
  E eu sabia, que naquele momento meu coração daria sua última pulsação. Apertei os olhos e dei adeus à minha vida.


  
“Quando a morte vem chegando, parece que as pessoas ficam em paz.
Param de lutar contra ela e se entregam com uma docilidade quase incompreensível.”

                                                                                Zevi Guivelder



Um Romance de:

~CONTINUA~

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