"Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.
City of Angels
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14. PATERNIDADE.



  Eu duvidava que algum de nós merecesse a nuvem pesada que nos cobria, mas nossos problemas estavam só no começo.
  Eu tinha uma leve noção do que ocorria a minha volta. Sabia que algo de muito ruim acontecia, mas mesmo com meu esforço, minha mente estava bloqueando minhas lembranças. Minha audição estava funcionando, sabia disso porque pude escutar um baixo murmúrio vindo de algum lugar.
- ...quando ele chamou por ela – foi a única parte que entendi do que Lucy falou.
- Como ela está – disse Arthur em meio a parede escura que começava a liberar algumas lembranças. De repente minha mente deu um estalo e tudo veio à tona.
- Ela está se mexendo – escutei a voz de Richard e alguns passos que pararam ao meu lado – Sammy? Pode me ouvir? – tentei abrir os lhos e consegui. Pisquei duas vezes por conta da luz que estava acesa bem acima de meus olhos – Ela acordou – ele disse com alívio. Eu estava no meu quarto.
- Onde está Nathália? – perguntei olhando pra ele.
- Aqui Sammy – ela falou e virei a cabeça. Ela estava na porta com os braços cruzados. Nossos olhos se encontraram e ela começou a chorar, enquanto vinha até mim e me abraçava.
- Eu sinto tanto – disse.
- Você escutou Sammy? Ele não pé meu pai! – ela disse chorando.
- Eu escutei – afaguei seus cabelos.
- Vou chamar o Dr. Mason – Richard disse.
- Sammy? – Arthur me chamou. Olhei para o lado e vi Arthur e Lucy perto da cômoda. Uma raiva cresceu dentro de mim. Nathália me abraçou mais forte.
- O que ainda está fazendo aqui? – ralhei.
- Sammy... – ela começou.
- Saia daqui – disse lentamente.
- Mas...
- Agora – falei entre dentes.
- Por favor, filha – ela avançou um passo.
- Saia daqui agora! – gritei e lágrimas caíram de meus olhos. Escondi o rosto nos cabelos de Nathália. Passaram-se alguns segundos até que alguém afagou minha cabeça. Minha primeira reação foi a de me encolher.
- Shhh... sou eu, calma – Arthur disse e relaxei. Levantei a cabeça e olhei para ele. Seu rosto era sereno, mas havia um leve vinco em sua testa. Nathália se afastou de mim.
- Vou lá pra baixo – ela levantou e fungou, limpando com as mãos o choro. De cabeça baixa, ela saiu do quarto.
- Isso não podia ter acontecido – olhei para baixo.
- Sinto muito – ele deu um beijo em minha cabeça.
- Você sabia? – o encarei.
- Não.
- Como você está? – papai perguntou entrando rápido no quarto.
- Pai – estendi os braços e ele me abraçou – Como você está? – repeti sua pergunta.
- Ainda vivo – ele disse com a voz embargada.
- Rudolf, preciso examiná-la – John colocou a mão em seu ombro.
- Claro – papai se afastou.
- Como está Sammy? – John perguntou.
- Se disser que quero morrer, responde sua pergunta?
- Tudo irá se acertar – ele sentou na cama – Agora, organicamente falando.
- Dor de cabeça e um pouco de tontura.
- Certo. Você teve um choque muito, é normal que fique assim.
  John me medicou e disse que a qualquer hora poderia chamá-lo, se houvessem problemas. John tranquilizou meu pai e disse que Nathália estava precisando dele, pois pensava que ele não fosse mais amá-la por não ser sua filha.
- John, posso ficar mais um pouco? – Arthur perguntou.
- Não acho que vá fazer mal. Ele pode Rudolf?
- Claro filho. Eu lhe acompanho até a porta John.
- Até logo – John falou enquanto saiam do quarto.
- Sammy, fiquei tão preocupado! – Arthur sentou na cama e sua máscara de tranquilidade foi arrancada.
- Não sei o que fazer Arthur – comece a chorara. Ele me abraçou.
- Você vai conseguir superar.
- Nathália não merecia, ela suportaria tudo. Que eu não fosse sua irmã, Lucy a mãe dela, mas isso?
- Ela vai suportar. Ela encontra forças em você.
- Mas eu não tenho mais forças, Arthur – me afastei dele – Será que não entende? Não aguento mais ver minha família destruída e fazer nada, por que não sei o que fazer... – disse desesperada soluçando.
- Sammy, Sammy... – ele tentou me fazer olhar pra ele – Sammy, me escute – Arthur segurou meus braços – Você é mais forte do que pensa. O que aconteceu é que a volta da sua mãe mexeu muito com você. Mas está na hora de levantar a cabeça. Sammy, não vou dizer que é fácil, porque nós dois sabemos que não é. Nathália está se segurando em você, se você não for forte, todos desmoronam. Você consegue. Entendeu?
- Sim – baixei a cabeça.
- Vou estar com você, eu prometo – ele murmurou e me abraçou.
- Posso entrara? – Richard perguntou da porta.
- Claro, Rick – disse me afastando de Arthur.
- Como está?
- Melhor.
- Se precisar de mim, é só ligar. Tenho que ir agora – ele parecia pedir desculpas.
- Obrigada.
- Se cuida – ele piscou e sorriu – Até mais Arthur.
- Tchau – Arthur respondeu.
  Arthur e eu ficamos conversando. Ele tentava me distrair com amenidades e agradecia por isso. Depois de algum tempo, papai trouxe meu remédio.
- Nunca tinha visto Nathália daquele jeito. Ela estava aos pedaços. Quando disse que em nada me importava que ela fosse ou não minha filha. Meu Deus, ela desmoronou e me abraçou de um jeito – ele estremeceu – Ela pediu que eu não a deixasse, ela... implorou.
- Pai, ela viu seu mundo cair. A vida dela foi uma mentira. É natural que ela pense que você vai rejeitá-la. No mínimo ela deve imaginar como é seu pai.
- Você acha que ela vai querer conhecê-lo?
- Ela tem esse direito, mas não sei.
- O que você faria?
- Conversaria com Lucy. Infelizmente só ela pode dizer algo sobre o pai dela.
- Você vai conversar com ela? – Arthur perguntou.
- Sim, mas acho que não é uma boa hora. Não por mim, mas por Nathália.
- Ela está dormindo, ou tentando – papai falou.
  Minutos depois papai saiu do quarto. O tempo passava e sem que eu soubesse se era efeito do remédio ou da hora, o sono começou a surgir. Arthur conversava comigo, mas sua frase ficou pela metade. Adormeci e talvez estando nos braços de um anjo eu encontrasse algum conforto esta noite.
  Passei uma noite sem sonhos. Quando acordei pela manhã e abri os olhos, vi que Arthur estava ao meu lado. Na verdade, seu braço era e travesseiro. Sorri ao saber que ele havia ficado comigo.
- Não imagina o quanto imaginei isso – ele sorriu.
- O quê?
- Pensei que nunca mais fosse ver seu sorriso – seu rosto ficou sombrio.
- Você é o motivo desse sorriso – senti seu indicador levantar meu rosto.
- Explique – seus olhos eram intensos.
- Fiquei feliz por você não ter ido embora – ele sorriu.
- Como se sente?
- Acho que pronta.
- Suponho que não irá para o colégio – ele olhou para o lado com olhos semi cerrados.
- Não, não vou.
- Está certo – ele me encarou por alguns segundos.
- O que foi?
- Estou pensando em algo...
- Em quê? – perguntei de sobrancelhas unidas.
- Quero te fazer um pedido.
- E por que não faz? – perguntei. Ele ficou em silêncio – Arthur, peça logo – disse agoniada.
- Se eu te pedir um beijo, serei muito egoísta?
- Por que achou... – bufei. Sorri e antes que ele pudesse responder, me suspendi e o segurei pela nuca, meus dedos se enroscando em seus cabelos dourados. Sua boca era suave na minha e ao mesmo tempo urgente. Em meio a nosso beijo apaixonado, ele se movimentou, ficando em cima de mim, seus braços fortes sustentando seu peso ao lado de meu corpo.
- Senti sua falta – ele disse em meu ouvido.
- Desculpe – disse beijando seu pescoço.
- Você ainda me põe louco – ele olhou para meu rosto.
- É mesmo? – perguntei maliciosamente. Passei meus braços por seu pescoço e o beijei rapidamente.
- Não abuse da sorte, nem de meu controle – ele sorriu e se virou, ficando ao meu lado.
- Obrigada por ter ficado comigo.
- Gostaria que esperasse mais de mim.
- Espero muito de você. Você terá que me aguentar por um bom tempo, então...
- Você também – ele me olhou.
- Eu sei. Por isso vou aparar suas asas de vez em quando.
- Até parece.
- Com licença – papai falou entrando no quarto – Arthur? – ele ralhou, os olhos se arregalando. Arthur levantou rapidamente e o acompanhei, meu estômago ficando do tamanho de uma ervilha.
- Sr. Brandow, posso explicar.
- Acho muito bom – papai cruzou os braços. Um palavrão passou por minha mente enquanto eu encarava o rosto vermelho do meu pai.
- Sammy dormiu em meus braços e não queria me mexer para não acordá-la.
- Nunca vi desculpa mais esfarrapada – ele olhou para mim, me analisando – Samantha Anne Brandow... – ele falou em tom de ameaça.
- Pai, eu não...
- Samantha, se você...
- Pai, não dormi com Arthur – disse apressada – Não do jeito que está pensando – falei mais calma. Seus olhos se tornaram duas vendas que observavam cada inflexão em minha voz. Por fim, ele pareceu acreditar em mim.
- Desculpe – ele me disse – Arthur...
- Tudo bem – Arthur disse com a voz sufocada.
- Pensei que tivesse ido embora ontem – papai levantou as sobrancelhas.
- Eu ia, mas Sammy dormiu.
- Pai, você sabia que ele estava aqui.
- Sim, mas achei que ele havia saído logo depois de mim – ele me olhou.
- Já que está tudo certo, vou tomar banho – peguei uma muda de roupas – Nathália já foi para o colégio? – perguntei indo para a porta.
- Ela não vai.
- Ok, eu também não. Arthur peça pra Sophia me trazer as anotações de hoje, por favor?
- Claro.
- Quero falar com você – disse quando encontrei Nathália no corredor.
- Ok.
  Quando acabei meus afazeres no banheiro, voltei para meu quarto. Ao abrir a porta me deparei com Arthur sentado despreocupadamente em minha cama. Arregalei os olhos surpresa e fechei a porta com chave.
- Oi – ele sorriu.
- Você não tinha ido embora?
- Eu fui – levantei uma sobrancelha. Agora ele queria me fazer de idiota – Só que pela janela.
- Pela janela? E seu carro?
- Vou ter que voltar do meu jeito – ele disse presunçoso.
- E qual é o seu modo?
- Depois – ele levantou – Vim aqui para desejar boa sorte na conversa com Nathália – ele parou bem na minha frente.
- Obrigada – franzi o cenho.
- De nada – ficamos nos encarando por alguns segundos.
- Você tem que ir – dei alguns passos em direção ao guarda roupa. Arthur puxou meu braço e me beijou, a toalha que estava em minha mão caindo no chão enquanto eu colocava meus braços ao redor de seu pescoço. Nunca o tinha visto tão intenso, talvez eu tivesse mesmo esquecido dele nesses últimos tempos.
  Sua boca era totalmente urgente, suas mãos em minha cintura me prendiam a seu corpo. Nosso beijo era apaixonado e numa leve noção do que estava acontecendo, senti suas mãos percorrerem minhas pernas – agora expostas por conta do shorts curto – até chegarem a dobra de meu joelho, quando me suspendeu. Minhas pernas se enrolaram em sua cintura e ele andou comigo, parando quando minhas costas bateram na porta. Ele desviou o rosto, beijando da ponta de minha orelha até a base de meu pescoço, enquanto inutilmente eu tentava recuperara o fôlego. Por fim desisti, minhas mãos enroscadas em seus cabelos o puxaram de volta e o beijei. Estávamos totalmente envolvidos quando uma batida na porta nos fez parar bruscamente.
- Ai, você mordeu minha língua – dei u tapa em seu ombro.
- Desculpe, eu me assustei – Arthur se esforçava para prender o riso.
- Solte minhas pernas – sussurrei – Quem é? – perguntei ajeitando a lusa e pegando a toalha no chão.
- Sou eu Sammy – Nathália disse.
- Só um segundo – peguei o braço de Arthur e o empurrei para a janela – Você tem que ir embora.
- Ei, espera! Não vai me jogar daqui, não é?
- Você veio por aqui.
- Mas está cheio de gente na rua.
- Droga.
- Sammy? – Nathália chamou.
-Fique atrás da porta – o empurrei de volta – Oi Nathália – abri a porta e sorri.
- Tudo bem? – ela franziu o cenho.
- Tudo ótimo.
- Você parece meio... histérica – ela disse desconfiada.
- Não, não estou.
- Por que está falando embolado?
- Mordi a língua – ouvi um risinho e pigarreei pra disfarçar.
- Ah. Olha, quando quiser falar comigo, estou no quarto.
- Ok. Daqui a pouco chego por lá.
- Ok – ela deu de ombros.
- Tchau – fechei a porta e encostei as costas nela – Ufa! – olhei para Arthur e seu rosto distorceu quando ele não conseguiu mais conter a risada – Cale a boca – pus mão em sua boca.
- Desculpe – ele disse em minha mão.
- Vamos. Sabe dizer se meu pai está em casa? – abaixei a mão.
- Sim, o carro dele está lá fora. Vi quando tentou me jogar pela janela.
- Ótimo – ironizei. Abri a porta e não tinha ninguém no corredor. Escutei o som da TV da sala – Ele está na sala.
- Posso esperara ele sair.
- Não. Vem, dá pra passar – Saímos do quarto e descemos silenciosamente as escadas. Papai estava no sofá assistindo ao noticiário. Aproveitei que estava distraído e quase corri até a porta.
- Vai embora – disse quando Arthur passou pela porta.
- Tchau – ele sorriu e me encarou.
- Vai! – disse entre dentes e o empurrei. Ele riu e me deu um beijo rápido – Arthur! – reclamei.
- Desculpe pela língua – ele sorriu e saiu andando calmamente. Fechei a porta e suspirei de alívio.
- Sammy? – papai chamou.
- Oi pai – minha voz era alta.
- O que estava fazendo?
- Fui ver se... – droga, pense em algo – se tinham colocado o lixo pra fora.
- Lucy fez isso hoje de manhã – ele falou seu nome com raiva.
- Onde ela está?
- Supermercado.
- Mas eu não fui ontem?
- Esqueceu de pegar os produtos de limpeza.
- Ah. Hmmm... Qualquer coisa, estou lá em cima.
  Subi rapidamente e fui para meu quarto conferir se Arthur realmente tinha ido embora. Não havia ninguém lá então fui para o quarto de Nathália.
- Posso entrar? – perguntei da porta.
 Pode – ela respondeu.
- Oi – sorri levemente – Como está? – andei até a cama onde ela estava sentada com seu laptop no colo. Ela o fechou e colocou no criado mudo.
- Bem e você?
- Nathália eu queria conversar com você.
- Pode falar.
- Quando nossa mãe supostamente morreu, eu meio que assumi esse papel. Claro que não a substituí, mas cuidei de você. Agora Lucy voltou e contou tudo o que aconteceu, mas o pior veio ontem. Nathália, você continua sendo minha irmã e filha do papai. A gente te ama muito. Você sempre ai ser a filha dele, entendeu? – enxuguei as lágrimas que escorriam do rosto dela.
- Obrigada – ela murmurou e me abraçou.
- Eu te amo muito – disse afagando seus cabelos.
- Quero falar com Lucy – ela disse se afastando.- Quero saber quem é meu pai. Acha que o papai vai ficar contra?
- Não. Nós meio que já conversamos sobre isso.
- O que ele disse?
- Perguntou o que eu faria e eu conversaria com ela.
- Vem comigo.
- Acho melhor vocês conversarem sozinhas.
- Por favor Sammy – ela pediu.
- Ok, mas não vou falar nada.
- Tá. Vamos, ela já deve ter voltado.
  Lucy estava na cozinha e parecia estar começando a fazer o almoço.
- Lucy? – Nathália chamou.
- Sim? – sua voz era envergonhada, pude ver que Nathália respirou fundo.
- Posso falar com você um minuto? É importante – Lucy soltou a faca na pia e olhou surpresa para nós. Desviei os olhos de seu rosto.
- Claro que pode – ela limpou as mãos na toalha.
- Podemos ir para o seu quarto? – Nathália me perguntou.
- Claro.
  Nathália se sentou na cama junto comigo enquanto Lucy ficou parada no meio do quarto.
- Senta Lucy – eu disse.
- O que quer falar filha? – ela perguntou olhando pra Nathália.
- Não me chame de filha – Nathália disse gentilmente.
- Desculpe.
- Quero falar sobre o meu pai.
- Eu já previa. O que quer saber?
- Qual o nome dele?
- Nicolas Waytt.
- Como se conheceram?
- Um dia briguei feio com seu pai e fui pra casa de Debbie. Ela conversou comigo e me convenceu a voltar pra casa no dia seguinte. À noite, ela e seu tio Hardey saíram e sem nada pra fazer saí peã cidade. Encontrei uma festa e entrei. Ninguém me expulsou de lá e fiz amizade logo. Uma das mulheres que conheci, Meredith me apresentou a Nicolas. Conversamos e bebemos por um bom tempo e quando comecei a ficar embriagada ele disse que me levaria pra casa. Disse que não queria, ele pegou meu carro e me levou até sua casa. Ele fez um café para nós e continuamos a conversar, mas nos aproximamos demais. Seus olhos eram verdes e faziam contraste com o cabelo escuro. O encarei por mais tempo que o permitido e ele me beijou. Não tinha forças para pará-lo porque eu não queria que parasse. Acabei dormindo com ele. Pela manhã, acordei aninhada em seus braços. Tive noção do que havia feito e saí correndo de lá. Contei tudo a Debbie e voltei para casa. Nunca mais o vi.
- Você se arrependeu? – Nathália perguntou.
- Sim. Não queria ter traído seu pai. Quando cheguei em casa ele foi tão amoroso comigo e me pediu desculpas. Passei dias chorando escondido e o evitava, indo dormir no quarto de Sammy. Fiz isso durante duas semanas. Depois descobri que estava grávida. Sabia que não era de Rudolf, pensei em abortar, mas tive medo. Medo de conseguir e de não conseguir e você nascer com problemas. Contei a Rudolf e ele ficou muito feliz. O resto você já sabe.
- Meu pai sabe que eu existo?
- Não. Debbie pegou o telefone dele, mas não quis.
- Não me queria por que eu era filha de outro?
- Também. Você tem o mesmo sorriso de seu pai e seus olhos no sol são esverdeados. Pra quem não quer lembranças, isso é um golpe na memória.
- E o que mais?
- Só queria ter um filho e já tinha – ela me olhou – Talvez se você fosse filha de Rudolf eu tivesse repensado, não teria sido tão imatura egoísta.
- Lucy, papai viu você sendo enterrada. Como... como conseguiu fugir? – Nathália perguntou curiosa.
- Debbie sabia de tudo e mesmo não concordando, me ajudou. Se perguntar ao Rudolf, ele dirá que meu caixão não tinha partes de vidro e que em nenhum momento ele foi aberto. Só havia pedras e areia dentro – Lucy explicou.
- Era só isso – Nathália levantou – Obrigada – ela saiu do quarto.
- Sammy...
- Lucy, não – levantei a mão para pará-la – Nathália fez um esforço enorme pra falar com você educadamente, mas não espere o mesmo de mim – levantei e fui para a porta.
- Acha que um dia pode me perdoar? – sua voz era embargada e olhei para ela.
- Não sei. Eu cumpri seu papel e não reclamo disso. Mas Nathália teve em mim uma mãe. Eu só tive uma filha. Já precisei de uma mãe inúmeras vezes, e todas elas eu tinha que ser o porto seguro da Nathália. Quando éramos pequenas e ela tinha pesadelo, corria pra mim. Quando era comigo, não tinha pra quem correr.
- E Rudolf?
- Ele fazia o que podia. No começo tia Debbie quem cuidou de nós, mas ela também tinha sua própria vida. Tive que amadurecer muito rápido. Com cinco anos já cuidava de mim, do papai e Nathália. Eu o vi chorar escondido por você Lucy e prometi que nunca iria dar motivo pra ele se preocupar comigo. E foi o que fiz. Sofria calada. Algum dia você pode ter o perdão de Nathália e do papai, mas não espere pelo meu porque não seis e virá.
  O resto do dia foi monótono. Lucy ficou calada o tempo todo, Nathália desceu para almoçar e estava com o rosto vermelho e depois que comeu se trancou no quarto de novo. Lucy agora fazia as tarefas da casa e eu não questionava, quanto menos eu falasse com ela, melhor seria.
- Oi pessoal – disse quando abri a porta para meus amigos.
- Tudo bem? – Arthur perguntou.
- Sim – sorri.
- Viemos fazer uma visitinha, espero que não incomode – Myllena disse ao lado de Richard.
- Claro que não. Entrem – enquanto eles entravam percebi que Bryan e Bernard permaneciam com as mãos para trás. Quando os outros já estavam na sala tive que perguntar – Vão ficar parados na porta?
- Trouxemos uma coisa para você.
- O que é? – no mesmo instante os dois mostraram os presentes. Bryan segurava um buquê de rosas brancas e Bernard um caixa de caramelo com um laço azul.
- O que achou? – Bryan sorriu, mostrando as covinhas de seu rosto. Bernard esperava ansioso por uma resposta.
- Obrigada – sorri e abracei Bryan.
- Vai amassar as flores – ele brincou.
- Obrigada Bernard – dei um beijo em seu rosto e o abracei também.
- Ela voltou – Richard brincou quando entrei a sala. Tive vontade de voltar a ser uma criança de cinco anos e mostrar a língua pra ele.
- Como está Sammy? – Miguel perguntou enquanto eu punha o buquê no vaso.
- Bem, não foi nada demais – respondi voltando a sala e colocando o vaso no centro.
- Suas anotações – Sophia me entregou.
- Valeu Sophia. Posso te entregar amanhã?
- Pode sim. Como vai Nathália?
- Mal. Ela conversou hoje com Lucy sobre o pai – sentei ao lado de Richard.
- Onde sua mãe está? – Melissa perguntou.
- Não sei. Me admira que não tenha aparecido.
- Nós ficamos sabendo. Sinto muito Sammy – Bianca falou.
- E como foi a conversa? – Richard perguntou ao eu lado.
- Difícil. Mas boa. Ela se controlou.
- Espero que tudo se acerte – Beatriz disse.
- Vamos mudar de assunto? – Bryan perguntou quando me viu de cabeça baixa.
  Passamos a tarde toda conversando. Quando o sol estava prestes a se por, meus amigos tiveram que ir embora. Lucy não apareceu a tarde toda. Assim que eles foram embora, fui até o quarto de hóspedes.
- Lucy? – chamei da porta.
- Pode entrar – ela estava sentada na cama com um livro nas mãos – Aconteceu alguma coisa?
- Não, por quê?
- Você nunca vem aqui – ela me olhou e fechou o livro.
- Só queria saber por que você não apareceu hoje de tarde.
- Você não e quer na sua vida, então não tem pra que eu falar com seus amigos se isso te fará ficar com raiva.
- Se tivesse aparecido eu te apresentaria a eles.
- Mesmo?
- Sim. Olhe, sei que não ama Nathália, mas pelo bem dela tente conquistá-la.
- Por que está pedindo isso? – ela perguntou confusa.
- Porque ela não merece ter sido rejeitada e o pai não saber nem que ela existe.
- Sammy...
- É uma chance de você acertar as coisas.
- Ok, ou fazer isso.
- Obrigada – virei às costas e abri a porta.
- Sammy? – ela chamou.
- Sim? – olhei pra ela.
- Aquele rapaz, Arthur.
- O que tem ele?
- Ele te ama muito. Ficou louco quando te viu desmaiada e não saiu nenhum segundo de perto de você.




Romance de:

 
Continua...

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