"Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.
City of Angels
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 13. REGRESSO



  A noite passou rapidamente, cheia de risos e conversas. Arthur se despediu de mim com um beijo comportado e rápido, tocando o pingente do colar ao se afastar de mim.
  Por todo o caminho papai elogiou os Mason, deixando Nathália com um pouco de ciúmes. Ao chegarmos em casa, tomei um bom banho e desabei na cama depois de ter guardado meu presente em sua caixa. Para minha surpresa, não acordei com o barulho do despertador nem do da chuva na janela e muito menos com Nathália gritando pela casa.
  Despertei para a manhã de segunda feira com duas pessoas discutindo no andar de baixo. A primeira voz era conhecida. Meu pai estava exaltado e isso não era algo comum de se ver. A outra voz pensei que fosse de Nathália, mas era um tom adulto demais pra ela. Com um suspiro cansado, saí do quarto para ver quem derrubava a vizinhança a essa hora da manhã.
- Como você teve coragem de fazer isso comigo, com as meninas? Como você tem a ousadia de dar as caras? – escutei meu pai gritando enquanto eu descia as escadas. Não dava para ver com quem ele discutia, mas vi Nathália sentada no sofá como uma bola, passando as mãos pelo rosto freneticamente.
- Nathália? O que aconteceu? – perguntei olhando pra ela.
- Sammy! – alguém falou enquanto desprevenida fui abraçada – Filha! - fiquei totalmente sem ação. Demorou alguns segundos até que entendi a palavra-chave.
- Solte minha filha, Lucy! – papai disse grosseiramente com aquela mulher que me abraçava.
- Nossa filha, Rudolf! – ela disse olhando para mim – Sammy, como você é linda.
- Não toque em mim – falei entre dentes quando ela fez menção de tocar meu rosto – Isso não pode estar acontecendo – minha voz estava estrangulada – Você morreu!
- Sammy. Não morri querida – ela fez uma pausa – eu forjei minha morte.
- Por quê? – minha visão era embaçada pelas lágrimas de raiva que rolavam por meu rosto.
- É complicado. Fiz por que...
- Ela não queria sua irmã – papai respondeu. Sem que eu tivesse notado, ele tinha ido para o lado de Nathália e estava abraçando ela.
- Você não a queria? – perguntei com raiva.
- Não. Mas não tive coragem de dá-la a alguém e dizer que ela tinha morrido. Preferi eu mesma sair da vida de vocês.
- Você é doente! – cuspi as palavras – Por que diabos não a queria? – perguntei me controlando.
- Já tinha tudo o que queria. Minha vida era perfeita.
- Você precisa de um psiquiatra, deve ser doente – eu estava fria, sentindo total repulsa por aquela mulher que se dizia minha mãe.
- Você não entende. Tudo, absolutamente tudo em minha vida foi planejado e de repente ela veio e destruiu todos os planos que eu tinha. Mesmo assim preferi ir embora e reconstruir minha vida em outro lugar.
- Achou sua atitude muito nobre, não foi?
- Preferia que eu tivesse forjado a morte de sua irmã? – ela perguntou incrédula.
- Você é um monstro! – gritei.
- Não fale assim Sammy, não...
- Você é sim! – minha voz falhou de tão alta que estava – Você é perversa! Como pôde ser tão egoísta? Você não pensou em ninguém! E não em diga que me ama, por que não acredito nisso! Por que agora decidiu voltar?
- Samantha, eu errei. Deveria ter ficado, mas era muito nova e...
- Você deveria ter morrido de verdade! – gritei.
- Parem! – Nathália gritou. Olhei para ela e a vi na mesma posição de bola, mas tapava os ouvidos com as mãos enquanto seus soluços se tornavam mais pronunciados – Não aguento mais, por favor! Não consigo mais escutar que fui um erro, parem! – ela soluçou – Sammy, me tira daqui – ela disse aos prantos.
- Me desculpem. Nathália, filha...
- Não me chame de filha! Minha mãe morreu, a única mãe que conheci é minha irmã também! – ela encarou Lucy.
- Sammy – Lucy olhou para mim.
- Saia da minha frente – passei por ela esbarrando e seu ombro.
- Volte para o lugar de onde veio – papai rosnou.
- Está me colocando para fora?
- Você se pôs para fora de nossas vidas há quinze anos.
- Você não foi nada inteligente, sabia? – disse ao lado de Nathália – Uma mudança feito a que você fez saiu muito mais de seu adorado planejamento do que uma filha a mais. Pra mim você já queria ir embora – minha voz era pura raiva.
- Não! Eu amava seu pai, minha vida – voltei a olhar pra Nathália – Você Sammy!
- Se não ama minha irmã, tanto faz o que sente por mim – a encarei.
- Mas se me derem uma chance...
- Não – respondi.
- Não há perdão – papai disse.
- Vamos subir, precisa se arrumar para ir ao colégio – segurei na mão de Nathália.
- Não precisam ir, não vão aprender nada – papai falou a meia voz. Ele também estava sem chão, talvez mais que nós.
- É melhor a gente ir – disse sem ânimo.
  Depois que tomei banho, entrei no quarto e me vesti rapidamente, lutando contra as lágrimas que insistiam em cair.
  Ao passar pelo espelho, tive um vislumbre de como eu estava: O cabelo desgrenhado de tanto colocar de um lado para outro, olhos vermelhos e cheios de lágrimas, assim como meu nariz e maçãs do rosto. Mas não podia desabar. Minha irmã precisava de mim.
  Coloquei o cabelo para trás da orelha, respirei fundo e peguei minha mochila. Bati na porta do quarto de Nathália antes de descer.
- Tô descendo.
  Desci as escadas um pouco rápido. Abri a porta e sentei na escada da varanda. Olhei para o céu que me faria feliz até ontem. Não havia absolutamente nenhuma nuvem e estava de uma cor perfeita, uma mescla de azul e anil. O vento era suave e me tocava como pétalas deslizando por minha pele exposta, mas em meu coração espinhos o despedaçavam. Abaixei a cabeça encostando-a nos joelhos, enquanto lágrimas caiam em meus jeans.
- Está chorando? – uma voz infantil falou comigo. Levantei a cabeça e uma menininha loura e de olhos azuis de quatro ou cinco anos me encarava com olhos curiosos. Ao ver o acúmulo exagerado de água em meu rosto, piscou e sua expressão se tornou preocupada. Um mínimo vinco se formou entre suas sobrancelhas.
- Às vezes não suportamos – dei de ombros.
- Você é linda, não deveria chorar – ela se aproximou e tocou meu rosto com sua mão pequena.
- Obrigada. Você também é linda. Qual seu nome?
- Lindsay e o seu? – ela colocou uma mecha de meu cabelo atrás da orelha.
- Sammy – funguei.
- Sammy não é apelido? – ela ergueu as sobrancelhas louras e inclinou um pouco de lado a cabeça, seus cabelos ondulados do mesmo tom de suas sobrancelhas acompanhando o movimento.
- Sim. Meu nome é Samantha – ela sorriu para mim. Parecia um anjo.
- Por que está chorando? – sua testinha vincou-se novamente.
- Coisas ruins – solucei baixo e voltei a chorar.
- Não, não – ela se apressou em enxugar minhas lágrimas, mas outras vinham – Não – ela fez beicinho. Pensou por um instante e arregalou um pouco seus olhos – Posso te dar um abraço?
- Claro que pode pequena – ela abriu seus braços miúdos e me abraçou, alisando meus cabelos desarrumados.
- Sammy, se você chora por ter perdido o sol, suas lágrimas te impedirão de ver as estrelas. – ela se afastou e segurou meu rosto com as duas mãos, encarando-me com seus olhos lindos – Não chore.
- Obrigada – sorri. Ela passou os dedos por minhas lágrimas, dessa vez não caíram mais. Ela sorriu.
- A tristeza não devia machucar tanto as pessoas. Você fica linda quando sorri.
- Mas ela de vez em quando bate na nossa porta – ela pareceu desanimada com minha resposta – Você não devia estar em casa, na escola ou brincando?
- Não. Vou na casa do meu vô. Na casa com fachada amarela – ela apontou.
- Onde estão seus pais?
- Arrumando algumas coisas em casa. Chegamos ontem aqui – ela sorriu.
- Seja bem vinda Lindsay.
- Vamos Sammy? – olhei para trás e Nathália estava parada, fitando o nada, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.
- Tchau Lindsay. Obrigada.
- Tchau Sammy – ela sorriu – Qual seu nome? – ela perguntou olhando pra Nathália enquanto eu levantava.
- Nathália – ela respondeu friamente.
- Tudo bem?
- Não – Nathália respondeu.
 Lindsay subiu os degraus e ficou na ponta dos pés para pegar a mão de Nathália que estava no bolso.
- Vai ficar tudo bem – ela ergueu os braços e Nathália me olhou confusa. Assenti e ela se abaixou, deixando que Lindsay a abraçasse. Ela deu um beijo em sua bochecha antes de se afastar de Nathália e sorriu para ela. Depois correu para a casa do avô.
  Por todo o caminho Nathália encarava a estrada a nossa frente, parecia muito longe dali. Às vezes a via passar a mão no rosto, mas sabia que ela não queria falar com ninguém. Não havia ninguém no estacionamento, então eu sabia que tínhamos chegado atrasadas. Assim que desliguei o motor, Nathália desceu do carro.
  Assim que ela saiu, abri a porta e me virei, colocando os pés para fora. Baixei a cabeça nas mãos, todo meu começo de dia inundando minha mente e chorei. Ali eu podia ser fraca, demonstrar o quanto eu estava impotente, o quanto meu corpo estava atado. Não queria pensar sobre o assunto, mas fui obrigada. O que aconteceria agora? O quanto a volta de Lucy mexeu com Nathália? Ter escutado que não era desejada, que a mãe preferiu morrer a tê-la. Uma mistura de dor e raiva me encheu e um grunhido agudo irrompeu por minha garganta, meus soluços se tornando mais pronunciados, me deixando com fala de ar.
  Estava desesperada, sem chão, sem vida. Minha cabeça foi invadida por uma tela escura enquanto ao fundo alguém gritou meu nome.
- Sammy! – sim, era a voz de um anjo. Segundos depois fui tomada nos braços – Sammy, Sammy – chamava Arthur. Eu não estava desmaiada, mas não queria falar, dizer que estava acordada. Arthur continuou chamando por meu nome, talvez ele achasse que eu estava inconsciente. Ele tentou me colocar no nos braços.
- Arthur, não. Estou bem – disse com o rosto enterrado em seu peito.
- Sammy – ele suspirou aliviado.
- Não – me apertei mais a ele quando seus braços se afastaram um pouco de mim.
- O que houve? – não tinha curiosidade em sua voz, apenas preocupação e algo mais que não captei.
- Minha mãe voltou. Disse que forjou sua morte por que não queria Nathália – minhas palavras saíram atropeladas na minha tentativa desesperada de resumir o que havia acontecido.
- Eu sabia – ele sussurrou, me abraçando mais forte.
- O quê? – perguntei confusa e me afastei – Como assim você sabia? – o encarei.
- Soube disso sábado – ele fitava o nada atrás de mim.
- Quando Ashley ligou, não foi?
- Sim.
- E não me disse nada – eu sentia o sangue mais rápido em minha cabeça, a pulsação aumentando, o rosto esquentando.
- Não sabia que seria hoje – seu rosto estava retorcido de culpa quando seus olhos encontraram os meus.
- Não importa! Se tivesse me contado eu poderia ter preparado o papai e Nathália. Mas não. Estou praticamente uma inútil, porque também estou sem rumo! Eu simplesmente não sei o que fazer... Não sei, eu não sei! – eu estava desesperada.
- Sammy, desculpe. Por favor – ele tocou meu rosto e desviei – Sammy, eu não podia – ele baixou a cabeça.
- Você nunca pode.
- Não posso interferir na vida de ninguém – ele me encarou.
- Você só iria ajudar – disse indignada.
- Eu não podia.
- Tudo bem. Não posso fazer com suas regras.
- Vem cá – ele tentou me abraçar.
- Não – disse – Estou bem agora. Passou – minha voz falhou em toda a frase. Eu definitivamente não conseguia enganá-lo.
- Você esta com problemas e isso não é sintoma de fraqueza – ele me encarou de cenho franzido e não consegui resistir. Comecei a chorar e abracei sua cintura. Ele me aninhou em seu peito e ficamos abraçados enquanto eu me acalmava.
- Se sente melhor? – ele perguntou após algum tempo.
- Quem mais sabia?
- Todos – ele murmurou. Fiquei calada, enquanto me perdia em meus pensamentos. Os minutos se passaram e começou a chover, mas logo parou.
- Você sabe de tudo? – perguntei.
- Sim. Exatamente tudo.
  Respirei fundo. Não estava acostumada a fazer aquela pergunta. Geralmente eu a respondia.
- O que faço agora?
- Se disser, não vai fazer.
- O que você diria?
- Que devem perdoá-la – fiquei paralisada.
- Isso está fora de cogitação.
- Todos merecem uma segunda chance.
- Isso porque não foi com você. Arthur você não tem não de tudo o que agente passou. Não vou fingir que ela só foi à casa de uma amiga sem avisar e voltou no outro dia. Não sou assim.
- Você perguntou o que deveria fazer, eu disse.
- Será que pode dar uma resposta humana? Realmente estou precisando de um conselho – me afastei para olhar seu rosto.
- Fique ao lado de sua irmã. Ela vai precisar de você do que imagina.
- E meu pai?
- Ele é mais forte que ela. Nathália está com sua força reduzida a zero. Quanto a sua mãe...
- Não quero saber ela – encarei o peito dele.
- Ela vai pagar por tudo o que fez, era isso que ia dizer.
- Desculpe – meu celular tocou. Arthur o pegou em minha mochila e me deu.
- Alô?
- Sammy?
- Quem é? – não reconheci a voz.
- Pode me dizer qual o número de Rudolf? É Lucy.
- Você não tem o mínimo de vergonha na cara? Quem mandou você mexer na agenda telefônica? O que ainda está fazendo aí? – ralhei.
- Eu queria falar com Rudolf, mas só achei se número.
- Você é totalmente dissimulada e cínica! Saia da minha casa, seu monstro! – desliguei a ligação. Repousei a cabeça nas mãos e respirei para me controlar.
- Você foi muito dura com ela.
- Não me diga o que fazer – disse entre dentes – Por favor, não me diga como tenho que falar com ela – peguei minha mochila e tentei sair.
- Sammy – ele me barrou quando desci do carro.
- Saia do meu caminho – o empurrei com a bolsa.
  Tinha começado a chover de verdade, mas não estava com cabeça para liga para isso. Ouvi a porta do carro se fechar atrás de mim e passos vindos na minha direção.
- Espera. Desculpe – Arthur segurou minha mão e olhei para ele – Desculpe, você tem razão. Não posso te pedir pra perdoar algo assim. Foi imprudência minha.
- Ok.
- Vai ser tão fria assim?
- Me solta – puxei a mão de leve. Virei e andei pela chuva que estava cada vez mais forte. Andei pelos corredores abarrotados de adolescentes andando apressados de um lado para outro, mas não prestava atenção. O que havia acontecido pela manhã estava nítido demais em minha mente, quase palpável. Só percebi que já havia chegado ao refeitório quando senti cheiro d e comida e alguém gritando “Pega o Ketchup!” Braços envolveram meu pescoço e me deparei com Ashley me abraçando.
- Sinto muito. Desculpe por não ter dito nada. Eu não podia, juro – ela disse ao se afastar.
- Tudo bem, eu entendo – murmurei.
- Você está péssima.
- Vou melhorar, Nathália precisa de mim – disse com a voz embargada.
- Sammy... – ela me abraçou ao ver água demais me meus olhos.
- Tudo bem Ashley, está tudo bem – respondi, mas a abracei.
- Quer conversar? – ela perguntou com seus olhos grandes e preocupados me encarando.
- Não. Desculpe.
- Se precisar estou aqui – ela piscou – Vou falar com Arthur.
- Oi Sammy – Sophia disse quando cheguei à nossa mesa.
- Oi – disse sentando
- Tudo bem? – ela perguntou me analisando.
- Claro – menti quando todos da mesa me olharam.
- Sei. Vem cá um minutinho – ela levantou e me puxou pelo refeitório. Entramos na primeira sala vazia que ela viu e me soltou – O que houve?
- Nada.
- Sammy, não tente me enganar. Te conheço mais do que à minha coleção de sapatos. Posso ver nos seus olhos que não está nada bem. Eles estão vermelhos, você chorou.
- Tudo bem – suspirei e sentei em uma das bancas – Minha mãe não morreu.
- O quê? – ela ficou perplexa e sentou em câmera lenta.
- Ela voltou hoje de manhã e disse que tudo foi uma farsa por que... – engoli em seco para conter as lágrimas – porque não queria Nathália. Pronto, falei – disse abaixando a cabeça.
- Não fica assim, Sammy – ela se ajoelhou no chão e me abraçou – Tudo vai se encaixar.
- Isso não pode estar acontecendo! O mundo de alguém não pode ser destruído duas vezes pela mesma pessoa – disse entre soluços.
- Não é sempre que coisas certas acontecem.
- Sophia, eu não sei o que fazer. – me afastei – Nathália está arrasada, meu pai está quase em estado de choque. E o pior, eu... O que aconteceu me destruiu. Como vou cuidar deles, se não consigo nem me controlar?
- Samantha Brandow – ela me encarou – Sei que o que vou pedir é extremamente difícil e quase impossível para você, mas por um momento pense em você. Sammy, você sempre foi forte, erga a cabeça e construa se mundo de novo. Por que só assim é que você vai poder fazer alguma coisa por eles. Entendeu?
- Sim.
- Muito bem. Você foi derrubada, agora levante e mostre que você é mais resistente que isso tudo. Não há problema sem solução e sim pessoas incapazes de achar a solução correta para cada problema – ela segurou meu rosto com as duas mãos – Você consegue.
- O que eu faria sem você – a abracei.
- Seja forte – o sinal tocou no mesmo instante – Vamos – nos levantamos.
- Sammy? – Arthur disse encostado na porta com minha mochila na mão e um sorriso envergonhado no rosto.
- Vou pegar minha bolsa – Sophia disse.
- Bryan já pegou – Arthur respondeu.
- Então vamos pra aula – peguei minha mochila da mão de Arthur – Desculpe – disse em seu ouvido.
- Espera – ele pegou minha mão.
- Vou indo pra aula – Sophia saiu.
- Desculpe, não deveria ter falado aquilo. Fui um tolo – Arthur disse.
- Também não deveria ter falado daquele jeito com você – toquei seu rosto – Me desculpe – sorri levemente e me aproximei mais dele. Quando nossos lábios se tocaram ele segurou minha nuca e me puxou para mais perto. Segundos depois o sinal tocou novamente e assustada me afastei sem fôlego.
- Vamos – ele sorriu e pegou minha mão.
  A aula de literatura do Sr. Smith não podia ser melhor. Ele passou a versão dos anos 90 de Hamlet, isso me fez prestar atenção e não pensei em Lucy. O filme durou as duas aulas e o final seria passado na próxima. Assim que a aula acabou fui com Arthur, Melissa e Bernard para o estacionamento.
  Nathália já estava me esperando e seu rosto estava do mesmo jeito. Pelo que vi, ela não devia ter arado de chorar um minuto.
- Oi Nathália – Arthur a abraçou quando chegamos ao carro.
- Oi – ela respondeu coma voz embargada.
- Tchau Arthur – eu disse quando ele se afastou dela.
- Até mais – ele respondeu.
- Vem Nathália – abri a porta do carro pra ela e contornei, indo para o lado do motorista.
- Como foi sua aula? – ela perguntou após algum tempo.
- Foi difícil. E a sua?
- Não podia ter sido pior.
- Vai melhorar.
  Ao chegarmos em casa, papai já havia voltado. Quando chegamos na porta, ouvimos gritos. Olhei para Nathália e ela baixou a cabeça. Respirei fundo e abri a porta.
- Falei que quando eu voltasse não queria ver você aqui, não disse? – papai estava na cozinha, atrás da mesa.
-- Essa casa também é minha, assim como as filhas!
- Você nos deixou! Isso é abandono de lar e de incapaz! Você não merece nem o ar que respira!
- Tenho direitos.
- Direitos? – papai quase sorriu.
- Quero a guarda delas. Se eu não conseguir das duas, quero a da Sammy – ela desafiou.
- Não! – Nathália gritou – Você estragou aminha vida, disse que fui rejeitada e agora quer a Sammy? Deixe de ser idiota. O juiz nos perguntará com quem queremos ficar e nunca diremos seu nome.
- Nunca iremos com você – disse friamente – Por que não vai embora? Ninguém te quer aqui – subi, com Nathália logo atrás.
- Mas... – Lucy falou às minhas costas.
- Ela tem razão e você sabe disso – papai falou.
- Sammy? – Nathália me chamou quando abri a porta de meu quarto.
- Sim? – olhei para ela.
- Posso ficar no quarto com você?
- Claro – teria que segurar o choro por mais algum tempo. Escancarei a porta e me encostei no portal – Entra.
- Obrigada – ela entrou e sentou em minha cama. Fechei a porta atrás de mim.
- Quer conversar? – sentei a seu lado.
- Queria pedir desculpas – ela disse olhando para seus dedos entrelaçados.
- Pelo quê? – perguntei confusa.
- Estou sendo insuportável.
- Você está sofrendo. Isso não é motivo para se desculpar.
- Você não vai com ela, não é? – ela me olhou nos olhos e pude ver o pavor nos dela.
- Claro que não! Nunca vou deixar você – a abracei.
- Eu me sinto tão fraca! – ela grunhiu.
- Você não é a única – lágrimas escorreram por meus olhos.
  Os dias foram passando e se tornaram semanas. Nathália havia se transformado. Vivia sempre de cabeça baixa, acordava de olhos vermelhos – se é que havia dormido –, quase não comia e ficava trancada no quarto. Era um estranha. Eu não estava tão diferente, mas Arthur revezava as visitas com seus irmãos e meus amigos. Mas eu pouco falava. Na escola dizia uma ou duas palavras, o que deixavam todos sem saber o que fazer.
   Quase que diariamente ouviam-se brigas do papai com Lucy. Meu pai estava esgotado e qualquer coisa era um bom motivo para desentendimentos. Quando as brigas eram à noite, eu colocava o travesseiro no rosto, enquanto sentia Nathália – que agora estava dormindo em meu quarto – subir para minha cama e me abraçar. Lucy não ajudava e sempre falava a mesma coisa: Se não me deixar ficar aqui, as sequestro e você nunca mais as verá!Esse era o único motivo pelo qual papai a deixava morar conosco. Mas a cada dia ficava pior.
- Será possível que não se pode ter um minuto de paz nessa casa? – Nathália gritou na quarta feira, enquanto mais uma vez havia briga no café da manhã.
- Vou para o colégio – levantei e coloquei a louça na pia.
- Não vai lavar? – Lucy perguntou arqueando as sobrancelhas.
- Tchau pai – fui em direção a porta com Nathália me seguindo.
- Samantha Brandow, estou falando com você – Lucy disse entre dentes. Virei para ela colérica.
- A única coisa que você faz é infernizar nossa vida. Agora se quer ficar aqui, ao menos lave um prato. Não sou sua empregada.
- Você se esqueceu de escovar os dentes – Nathália murmurou.
- Preciso de carona para o supermercado – Lucy disse quando eu, papai e Nathália estávamos saindo.
- Tem uma lista? – perguntei ainda com raiva.
- Lista de quê?
- Telefônica. Os números são os preços. Me dê a lista.
- Aqui – ela me entregou uma folha de papel.
- Quando voltar do colégio, eu compro.
- Vou precisar disso agora. Acho que terá que me levar.
- Se vire – papai respondeu e saímos de casa.
- Mas...
- Cala a boca – Nathália rosnou.
  Chegamos ao colégio e como já era hábito, quase chegamos atrasadas. Corri pelos corredores – uns quase vazios, outros totalmente – e cheguei a tempo de não perder a primeira aula. Assim que entrei na sala, o sinal tocou.
- Samantha Brandow? – Sra. Jane chamou.
- Aqui – respondi.
- Parabéns, querida – ela sorriu.
- Obrigada – peguei a prova. Dobrei e coloquei dentro do caderno.
- Não vai olhar? – Richard perguntou a meu lado. Geralmente eu ficava ansiosa para ver minhas notas.
- Não. Ela disse parabéns, então foi boa – dei de ombros.
- Sammy, não custa nada você melhorar um pouco.
- Não vou fingir que está tudo bem Richard.
- Tente melhorar – ele insistiu. Olhei para ele.
- Não sou assim, ok? Não sei fingir.
- Quer conversar?
- Eu converso com vocês quase todas as tardes. Já estou cansada de psicólogos.
- Ok. Mas se precisar...
- Não vou precisar.
- Você pode dar a volta por cima, sabe disso. A dor é inevitável, o sofrimento opcional – a professora o chamou e ele pegou seu exame.
  Assim que as aulas acabaram fui para o estacionamento, onde Nathália me esperava.
- Vou ter que deixar a chave com você. Não pode ficar me esperando aí – destranquei o carro.
- Não precisa. Brenda fica comigo até a mãe dela chegar.
- Tem certeza?
- Sim.
- Sammy! – Richard chamou do colégio e correu para onde eu estava.
- Oi Rick.
- Vai pra casa agora?
- Não. Vou levar ela em casa e ir comprar a umas coisas no supermercado. Por quê?
- Posso ir? Vou te seguindo no meu carro.
- Claro – respondi confusa.
  Como o combinado, deixei Nathália em casa e segui para o supermercado. Richard e eu fizemos as compras e o vi ficar admirado a cada vez que colocávamos doces no carrinho.
- Ufa! Acabou – disse quando terminamos.
- Está bem balanceada. 50% comida normal, 50% comida típica americana – ele disse.
- Vamos para o caixa – eu disse.
  Passamos as compras e Richard me ajudou a colocar na mala do carro.
- Obrigada por ter vindo comigo, foi uma ótima companhia – disse quando fechei a mala. Encostei-me no carro e olhei para ele.
- Nunca tinha feito compras, sabia?
- Sério? – perguntei incrédula.
- Sim. Pensei que fosse muito chato.
- Mostrei que não é.
- Nada é chato quando você está por perto – ele disse sério.
- Fico lisonjeada – sorri levemente.
- Sammy... – ele se aproximou.
- Richard, não. Está tudo tão bem entre nós, não desarrume tudo – fiz uma pausa – Agora vamos, está ficando tarde – quando me virei ele puxou meu braço e bati contra seu peito.
- Eu estarei aqui ao final do dia. Entendeu? – ele colocou a mão em meu rosto.
- Sim, entendi – peguei seu pulso e abaixei seu braço – Vamos? – me soltei de seu outro braço e sorri levemente.
- Ainda vou arrancar um sorriso decente de você – ele sorriu de sobrancelhas unidas.
- Continue tentando.
  O caminho de volta foi tranquilo. Senti-me menos pesada, acho que por finamente estar falando mais que nas últimas semanas. Talvez Richard tivesse razão. Eu só sofreria se optasse por isso.
- Vou ajudar você a colocar isso pra dentro – ele disse parando em minha casa.
- Nada disso, você já me ajudou muito – desci do carro e abria mala.
- Deixe de besteira – ele pegou alguns pacotes. Suspirei e peguei três sacolas, colocando-as em uma só mão, afinal eu tinha que abrir a porta. Andamos pela entrada de carros agora escura e quando cheguei a porta ouvi o som de vozes alteradas e soluços. Suspirei e abri a porta.
- Satisfeita agora? Não bastava eu não te querer, não é? Você queria que eu explicasse tudo. Não ia contar, você que pediu – Lucy estava sentada na cadeira da cozinha com a cabeça apoiada nas mãos. Nathália parecia uma bola sentada no chão, encostada no armário do balcão. As duas estavam aos prantos – Desculpe. Não queria te contar – Lucy chorava. Nathália soltou um gemido alto de dor que furou meu coração e me deixou tonta.
- Não se desculpe – ela disse.
- Não queria que fosse assim – Lucy disse em meio aos soluços.
- Ele não é meu pai! Como assim ele não é meu pai? – Nathália grunhiu e chorou compulsivamente. O que ela dissera ficou pairando no ar, enquanto mesmo eu sem conseguir me mover via tudo sair do lugar.
  O ar me faltou, senti o peso da minha mão esquerda se esvaindo e ouvi o baque das sacolas no chão. Minhas pernas ficaram moles e um tremor percorreu meu corpo. A escuridão estava me puxando. A última noção da realidade que tive foi o barulho de latas caindo no chão, Richard chamando meu nome e seus braços tentando salvar meu corpo do escuro.



Romance de:

 
Continua...

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