"Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.
City of Angels
Respeite a Lei:
LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. 
(Clique no Link e Conheça a Lei dos Direitos Autorais)
♥ ♥ ♥
8. QUANDO SE ROMPEM AS BARREIRAS

  
  Como dirigi quase no limite da velocidade, em pouco tempo cheguei em casa. Coloquei a mochila em cima do sofá, as chaves na mesa e fui beber um pouco d’água.
- E aí, como foi seu dia de aula? – perguntei a Nathália enquanto derramava água no copo.
- Horrível – ela respondeu mal humorada.
- Eu gostaria de saber quando você acha a aula boa.
- Quando o professor de biologia não escreve. Nunca vi. Parece que tem um motor na mão. E ainda fica: Já terminaram? Vocês são muito lentos!
-Puff–eu disse – Aí é que eu demorava mesmo!
- Isso é a cara da Sophia, não sua – disse ela se levantando para colocar o prato na pia – E o seu, como foi? – ela perguntou depois de alguns segundos.
- Bom.
- Que bom pra você. – ela andou até a escada.
- É. Olha, vou sair– ela já havia subido uns dois degraus, ao me ouvir desceu para olhar pra mim.
- Aonde você vai? – perguntou, se segurando na parede.
- Pra que quer saber? – perguntei na defensiva.
- Porque se por acaso papai perguntar, saberei onde você está e falarei pra ele. – ela respondeu despreocupadamente, mas eu sabia que essas não eram suas intenções.
- Não vou chegar depois dele, pelo menos é isso que pretendo.
- E se chegar?
- Peça para ele me ligar.
- Por que não quer me contar?
- Não quero correr o risco de ser chantageada.
  Por essa ela não esperava. Nathália me encarou por alguns segundos e depois foi para seu quarto. Com certeza ela pensava que ia me fazer de idiota. Mas eu era mais esperta que ela e não correria o risco de dar informações que pudessem me deixar numa saia justa depois com meu pai.
Eu estava indo tomar banho, quando o celular tocou. Tirei-o do bolso e atendi.
- Oi Arthur.
- Sammy, tem algum problema se formos jantar fora?
- Por mim tudo bem. Você já falou com sua família?
- Não seríamos todos nós, só você e eu.
- Ah. Tudo bem. De que horas nos encontramos?
- Vou buscar você às sete.
- Ok. – respondi.
- Até mais. – ele disse e desligou.
  Depois que terminei o banho, fui para meu quarto e arrastei para a cama o livro de filosofia, concentrando-me no capítulo sobre pragmatismo.
  Era quase seis horas quando acabei de estudar todas as matérias do dia. Peguei no guarda-roupa uma calça Levi’s, uma blusa preta, um casaco e fui para o banheiro.
  Estava descendo as escadas quando papai chegou do trabalho.
- Vai sair?
- Vou. Tudo bem? – perguntei insegura.
- Tudo. Volte cedo, amanhã tem aula.
- Sem problema – papai sorriu de leve e passou por mim, indo para o andar de cima. No mesmo minuto ouvi uma leve batida na porta.
- Boa noite – eu disse.
  Arthur estava encostado na soleira da porta, de cabeça baixa e pés cruzados. Ao me ouvir, um leve sorriso apareceu em seus lábios e seus olhos encontraram os meus.
- Ótima – ele sorriu de lado e se aproximou, dando-me um beijo não muito rápido – Vamos – Arthur pegou minha mão e me conduziu até o carro.

♥ ♥ ♥ 

- Por que não fomos para a sua casa? Aconteceu algo? – perguntei enquanto o Jaguar passava pelas ruas.
- Eles não estão em casa hoje. Ashley foi fazer compras com Melissa, Bryan e Suzan foram almoçar fora e John está de plantão.
- Ah. Só você que não tem nada – sorri levemente.
- Na verdade, o meu compromisso é o melhor de todos eles. Estou com você – ele me olhou e lançou um sorriso torto.

  Entramos em um restaurante de aparência luxuosa, onde o maître – um senhor de estatura média, cabelos lisos e brancos - nos recebeu de maneira cortês e nos guiou até uma das melhores mesas. Quando sentamos, ele nos apresentou o melhor prato da noite e assim que Arthur aceitou sua sugestão, ele nos deixou a sós.
- Por que não me disse que viríamos aqui? – murmurei.
- Por que diria? – ele parecia confuso.
- Eu poderia estar mais bem vestida – olhei para as mulheres que estavam no restaurante. Todas elas usavam vestido e salto alto.
- Você está ótima. Ninguém vai reparar na sua roupa. Só querem saber qual será o valor da conta e o quanto sou generoso em dar gorjetas.
  Nosso pedido não demorou a chegar e enquanto comíamos, perguntas começaram a surgir em minha mente.
- Arthur, como são as missões que vocês têm? – perguntei depois de beber um gole de coca.
- Bem – ele suspirou – Nós ajudamos e orientamos quem precisa ou precisará de uma ajuda maior. É basicamente isso. Então quando a cumprimos, ganhamos outra. Por isso não nos fixamos em nenhum lugar.
- Quem envia as missões? – perguntei curiosa.
- Arcanjos. Eles nos mandam mensageiros que nos comunicam para onde devemos ir e qual é a missão. Mas na realidade, tudo vem de Deus – ele deu de ombros.
- Deus? Então vocês falam com ele? – levantei as sobrancelhas.
- Não exatamente. Como lhe disse, existem os mensageiros.
- Ah. Sempre tive uma dúvida. Como é Deus?
- Deus é uma mescla de todos os seres humanos, em alma quero dizer. Deus não é um ser, ele é o conjunto de todos os seres. Ele é o mundo.
- Ok. Onde vocês vivem? – a esta altura minha voz não passava de um sussurro.
- Estamos em todos os lugares.O que ocorre é que alguns como nós, que tem missões, os humanos podem ver.
- Quando você contou a história de como Iron se tornou anjo da morte, você disse 1810. Vocês não envelhecem?
- Envelhecemos. Mas não da mesma maneira que vocês. Um século humano significa um ano de anjo.  Ou seja, eu tenho dezoito anos e séculos – Arthur me analisou por um segundo e enquanto eu absorvia suas respostas, ele deu mais uma garfada.
- Os anjos que não vemos, o que fazem? – perguntei quando ele havia terminado de mastigar.
- Protegem o mundo. Escutam as preces daqueles que os chamam, velam o sono das crianças ou de qualquer um que em nós acredite e também orientam você a tomar alguma decisão, coisas desse tipo... – ele deu de ombros.
- Todos vivem em família como vocês?
- Não. Só aqueles que conseguem formar laços com outros.
- Então John e Suzan são seus pais? – perguntei confusa.
- Não. Tecnicamente não podemos procriar. Como vampiros. Ashley, Bryan e eu fomos adotados – ele fez aspas com as mãos – e desde então estamos com eles.
- E se vocês se apaixonarem? – perguntei.
- Como eu? – ele levantou as sobrancelhas – Temos que ter certeza de que é amor. Se não, acontece o mesmo que houve com Iron. Somos punidos. O problema é justamente termos certeza de que estamos amando. Foi por isso que afastei você de mim na primeira vez em que nos beijamos. Eu queria te desejar, no segundo em que seus lábios tocaram os meus, eu desejei. Mas não podia.
- E quando você descobriu que era amor?
- Não descobri. Você me mostrou. Na verdade, você jogou isso na minha cara, forçando-me a ver que eu jamais conseguiria te evitar. Que eu te desejaria e amaria para sempre.
- Mas então...
- Amor e desejo estão sempre unidos. O que não se pode é deixar o desejo minimizar o amor.
- Iron pode voltar a ser um guardião?
- Não. Ele fez sua escolha e não há um pingo de arrependimento nele. Roubar almas e comer um hambúrguer é a mesma coisa pra ele – Arthur pareceu ter raiva ao responder.

♥ ♥ ♥

  Quando terminamos de jantar, Arthur me levou ao jardim público. Enquanto andávamos, ele me contava sobre suas missões, às vezes enfatizando alguns fatos. Estávamos perto da estátua de Thomas Cass quando decidi lhe dar um presente.
- Espere – o interrompi e tirei do pescoço um colar que minha mãe havia ganhado de seu pai.
- O que é isso? – Arthur perguntou.
- Meu avô deu a minha mãe. Esses pingentes são asas. Ele disse para ela dar um a quem ela quisesse que sempre estivesse com ela. Como uma maneira de estar sempre ligado. Ela nunca achou esse alguém, mas eu sim. – tirei um pingente e peguei a mão direita de Arthur.
- Sammy não...
- Shhh... Quero que fique com você – o olhei nos olhos – E onde você estiver, saiba que uma parte de mim também estará.
- Você tem certezade que quer me dar?
- Tenho. Assim como um pássaro não pode voar sem uma das asas, não posso ir a lugar algum sem meu coração. E é essa a parte que sempre estará com você – me aproximei dele e tirei seu colar para pôr o pingente. Ao me afastar dei um beijo em sua bochecha.
- Então agora você é o meu anjo? – ele repousou a mão em meu rosto.
- Não. Isso significa que agora, você é o meu anjo da guarda. Pra sempre.
  Arthur sorriu e me puxou para seus braços, seus lábios movendo-se nos meus.
  Como o prometido, voltei cedo para casa. Ao me deixar na porta, Arthur deu um beijo em minha testa e tocou o pingente de meu colar.
- Agora sempre estarei com você – eu disse.
- Você sempre esteve – ele sorriu e me deu um beijo de despedida.
  As aulas do dia seguinte foram excepcionalmente chatas e demoradas. No final do dia percebi que eu precisava de um bom livro de gramática. Decidi ir à biblioteca pública – mesmo sabendo que a biblioteca da escola é bem abastecida – não queria ir à do colégio, me traria lembranças.
  Demorei mais do que o necessário olhando as estantes. Eu já estava com o livro certo nas mãos, mas queria matar o tempo e ali tinham uns títulos promissores, estava marcando mentalmente para uma visita posterior. Quando me entediei, decidi que já estava na hora de ir para casa.
  Era início de noite quando saí da biblioteca pública. Estava a caminho de meu carro quando escutei gritos. Parei bruscamente e olhei para os lados. Não havia nada. Respirei fundo e voltei a andar, agora mais rápido. Um instinto suicida me impeliu a dar meia volta e entrar numa rua escura perto dali – a mesma em que eu estive tempos atrás.
 Andei devagar por ela – com medo de que meus passos fossem barulhentos – e tentei localizar a origem dos gritos que haviam se transformado em gemidos de dor.
  Já estava quase no final quando vi duas silhuetas. Uma era alta, forte e mantinha a outra – que parecia quase desmaiada – em pé. Apertei os olhos para tentar ver melhor e notei uma camada de ar branca na altura do rosto das duas. Dei mais um passo e meu pé bateu em um pedregulho, que ricocheteou pelo calçamento. Arfei e regredi alguns poucos centímetros.
  O homem alto virou o rosto – a camada de ar desaparecendo – e seus olhos me fitaram. Todo o globo ocular era negro. Apavorada, dei passos para trás. Um carro passou ao longe e um feixe de luz iluminou vagamente a rua escura. Os olhos que me encaravam se iluminaram, ficando azuis e seu rosto tomou forma.
  Era Iron. Ele se fixou em mim por mais alguns segundos, talvez tendo também me reconhecido e soltou o corpo, que caiu no chão como se todos os seus ossos estivessem quebrados.
  O pavor e medo me dominaram e tive vontade de correr, evaporar, mas não havia como. Em um impulso nervoso Iron me alcançaria.
  O corpo caído agonizou e pela primeira vez o olhei diretamente, tentando realmente ver seu rosto. Ele estava mal iluminado, mas pude ver suas feições.
  Miguel estava ali.
  Um estalo ocorreu em minha mente e de repente ela foi clareada. Iron havia se alimentado de sua alma.
- Você não... – disse sufocando.
- É parte de quem sou – Iron disse. Sua voz me causou calafrios de medo.
- Miguel... Você o matou –sussurrei aterrorizada.
- Não.
- Era isso que você ia fazer comigo? – pensei em mim no lugar de Miguel. Meu coração parou e voltou a pulsar dolorosamente, meus batimentos audíveis.
- Não exatamente – ele deu alguns passos em minha direção. Seu andar pareceu alto demais – Eu não deixaria você viva – ele estava decepcionado – O que seria umapena, porque eu gostaria de ter seu corpo mais de uma vez – ele deu um sorriso de lado perverso. Iron andou um passo e de repente ele estava na minha frente, a distância de alguns metros tendo sido aniquilada. O ar em meus pulmões se esvaiu e fiquei atordoada.
- Olhe, não é nada pessoal, mas tenho que matar você – Iron falava com naturalidade. Ele ergueu as mãos em direção ao meu pescoço.
- Você não pode – murmurei. Pareceu uma afirmação sem fundamentos.
- Infelizmente – seu rosto sarcástico se encheu de raiva e ele abaixou as mãos – Eu desejo você. Mais que ar, comida, água. Eu quero ter você mais do que quero sua alma. Isso nunca aconteceu – ele parecia frustrado.
- Mas nunca terá – no mesmo instante Miguel grunhiu e corri para ele, ajoelhando-me ao seu lado. Coloquei sua cabeça em minhas pernas e voltei a olhar para Iron. Ele não havia se virado para mim, mas me olhava por cima do ombro.
- Ele não morrerá. Sua alma se regenerará e ele não se lembrará de nada do que aconteceu desde que entrou nessa rua. Eu nunca o mataria. – pude ver que suas sobrancelhas se uniram.
- Por que não? – sussurrei. Sabia que ele poderia ouvir.
  Encarei Iron por um instante até que Miguel gemeu e inclinei-me para ele. Senti sua respiração fraca em meu pescoço e mais outro calafrio. Levantei o rosto e estava sozinha.
  Sentei-me no chão e puxei Miguel para mim, fazendo-o deitar a cabeça em meu colo. Um gemido baixo saiu de sua garganta e afaguei seus cabelos.
- Shhh...  Está tudo bem. Estou com você – murmurei.
  O abracei aliviada. Sua alma ainda estava ali.
  Ainda estava viva.
  Liguei para Arthur e em questão de minutos ele me encontrou. Contei com detalhes o que havia acontecido e pude ver a confusão em seus olhos quando eu contei o que Iron havia dito sobre a morte de Miguel.
- Me surpreende que ele não o tenha matado. Isso o deixa fraco. Ele tem que se alimentar da alma inteira.
- Talvez ele tenha se assustado com minha presença.
- Não é aceitável – Arthur balançou negativamente a cabeça.
- Seja como for, o que importa é que ele está vivo. O que faremos com ele? – olhei para o banco detrás de meu carro e vi Miguel dormindo.
- Não podemos levá-lo para casa. Seus batimentos e atividade cerebral estão quase nulos. Sua alma ainda está se regenerando.
- Se estão quase nulos...
- Não – ele me interrompeu – Quando o toquei, transmiti a cura. Ele se recuperará mais rápido.
- Você pode curar? – perguntei.
- Não necessariamente. Não era a hora dele. Ele estava no lugar errado e na hora errada. Você o salvou. Não me custava nada apressar as coisas. Não interferi em nada. Você fez isso.
- Ah. Quanto tempo vai demorar?
- Pela manhã ele estará curado.
- Ótimo.
- Ele vai ficar na minha casa. Direi que o vi desmaiado na rua e o ajudei. – Arthur deu de ombros.
- Ele vai perguntar por que você não o levou para casa. – declarei o óbvio.
- Ele estará tão atordoado que nem prestará atenção nesse mísero detalhe.
  Arthur me deixou em casa e logo depois Ashley trouxe meu carro. Fomos tão cuidadosos que meu pai nem percebeu que eu havia ido de Chevrolet e voltado em um Jaguar.
  Antes de ir dormir liguei para Arthur e me certifiquei de que Miguel estava melhorando. Ele me atualizou, dizendo que já havia falado com os pais dele e insistido para deixá-lo ficar na mansão, afinal ele teria um médico durante a noite.
  Deitei na cama e fitei o teto. Alguns minutos depois o cansaço me dominou e rumei para um sono pesado, cheios de pares de olhos azuis e negros, misturados a anjos que agiam como demônios.

♥ ♥ ♥

Acordei no escuro. Quando olhei o relógio, ainda eram quatro e meia da manhã. Com um gemido cobri a cabeça com o lençol e me virei na cama até ficar de bruços, mas não teve jeito. Minha mente havia descansado o bastante e não tolerava mais nenhum minuto dormindo. Sentei na cama e pensei no que ia fazer, mas nada me ocorreu. Fiquei ali, quieta, fitando o sol que agora começava a sair das nuvens e que fraco e lentamente iluminava meu quarto. Com um suspiro levantei da cama, fui até a janela e a abri, apoiei meus cotovelos no parapeito e fiquei observando o nada, enquanto os raios solares ficavam mais fortes, deixando minha pele exposta quente e o dia totalmente iluminado. Meu despertador tocou e sobressaltada fui desligá-lo. Mesmo sabendo que marquei para ele tocar as sete, verifiquei – surpresa em como o tempo havia passado rápido – mas ele estava certo. Máquinas não cometem erros.
  Fui até o guarda-roupa e peguei o que precisaria para tomar um banho, coloquei a roupa que usaria hoje em cima da cama e fui para o banheiro. Tendo acabado, desci para tomar café. Papai e Nathália já haviam saído, peguei uma barra de cereais e acabei com ela em três mordidas, bebi um pouco de leite e fui escovar os dentes. Desci as escadas amarrando meu casaco na alça da mochila, não estava chovendo nem era frio o bastante para usá-lo, mas era bom me prevenir.
  Ao chegar à escola vi o Jaguar de Arthur estacionado, ele encostado na mala junto com Bryan. Coloquei o carro perto do de Beatriz, mas não saí de imediato. Alguns segundos depois,peguei a mochila e desci.
- Oi Sammy – cumprimentou Richard. Olhei para o lado, mas Arthur ainda estava conversando com Bryan, o que me deu certo alívio.
- Oi Richard, tudo bem? – respondi.
- Tudo. Samantha, tenho que falar com você. – disse ele. O rosto sério, os olhos fixos em meu rosto. Ele nunca me chamava de Samantha, isso me deixou tensa.
- O que quer falar? – perguntei lentamente.
- Não precisa ficar assim, é uma boa notícia – respondeu ele franzindo o cenho.
- Se é, por que você está tão sério?
- Por nada.
- Então, fale – disse impaciente.
 Ele suspirou e desviou os olhos de meu rosto antes de responder.
- Estou namorando a Myllena – declarou ele, ainda sem me olhar. Soltei o ar e quando voltei a respirar, inspirava com dificuldade.
 O olhei incrédula e me encostei-me à porta do carro, tentando absorver o que ele disse.
- O quê? – sussurrei.
 Richard me olhou – as sobrancelhas unidas – mas não respondeu de imediato.
- Estou namorando a Myllena – ele repetiu. Abri a boca para falar, mas não saiu nenhum som, mordi o lábio e lutei contra as lágrimas que surgiram em meus olhos. Por que eu estava agindo desse jeito? Não tinha sentido nenhum!
 Mas algo dentro de mim gritava que não aceitava aquilo.
- Você não pode – contestei baixinho.
- Por que não? – ele perguntou confuso.
- Você disse que me amava – minha voz falhou na última palavra e senti meus olhos embaçados. Pisquei duas vezes e lágrimas saíram rolando por meu rosto.
- Mas você não me ama – disse ele.
- Mas... Mas...não...não, você...Você não pode – procurei palavras para formar uma frase, mas não tive muito sucesso.
- Sim, eu posso. Você não me quis, por que está se importando agora? – ele questionou.
- Não sei – foi a única resposta que dei. Derrotada, baixei o rosto e encarei o chão.
- Sammy... – ele começou.
- Você não pode fazer isso... Não pode fazer isso comigo – protestei, a voz embargada.
- Você ama o Arthur. Eu entendi isso, agora entenda minha parte.
- Mas você não ama a Myllena – levantei o rosto, sobressaltada e fitei seus olhos, que agora me encaravam.
- Aprenderei a amá-la – disse ele sem nenhuma inflexão na voz.
- Isso não vai dar certo – desesperada, respondi com desdém.
- Como pode saber? – seu tom de voz mudara. Era ríspido. Encolhi-me um pouco ao ouvi-lo falar.
- Eu sinto.
 Ele ficou em silêncio.
- Por favor. Richard, não...
- Por que está fazendo isso, Samantha? Pensei que fosse ficar feliz por não me ter mais como uma ameaça ao seu namoro com Arthur, mas você está agindo totalmente ao contrário do que esperei. Por quê? – ele pressionou.
- Você vai fazê-la sofrer – interrompi o silêncio.
  Ele riu sem nenhum humor na voz.
- Você não está se importando com isso, tenho certeza absoluta.
- Você não tem como saber – declarei.
- Está estampado na sua cara – disse ele entre dentes.
  Soltei o ar, não tinha como negar isso.
- Ainda assim vai ser inútil, sabe disso – falei após alguns instantes.
- Como é? – perguntou ele confuso.
- Você não vai me esquecer tentando me encontrar na Myllena – o encarei. Seus olhos ficaram vulneráveis por um instante, depois na defensiva.
- Você só pode estar louca! Louca ou muito metida! Você acha que nunca vou gostar de ninguém além de você, é isso? Pois fique sabendo que está completamente enganada – contra atacou ele, mas algo em sua expressão me fez pensar que tudo aquilo não passava de um blefe.
- Veremos – sequei algumas lágrimas que ainda restavam em meus olhos, me virei e comecei a andar, mas ele pegou meu braço e me fez olhar para ele.
- Me solta, se não...
- Se não o quê? Vai gritar? Grita! É bom que Arthur vem aqui e fica sabendo de tudo. Ou você já se esqueceu do beijo? – ele ameaçou.
- Me solta, Richard – pedi, mas minha voz aparentava que eu estava implorando.
- Você também não vai conseguir me esquecer tentando me encontrar no Arthur – ele disse.
- Eu já o namorava quando você me beijou, eu não tentei fugir de nada – puxei meu braço e olhei para seus olhos.
- Fugir? – Richard perguntou confuso.
- É, fugir do que você sente.
- E você? Se não sentisse nada por mim, como diz, não teria ficado desesperada quando contei sobre meu namoro.
- Eu não fiquei...
- Pense bem, Sammy – sua voz era intensa ao falar e seus olhos acompanhavam sua voz.
- Pensar bem sobre o quê? – perguntei tonta por sua mudança repentina de humor.
- Se é isso que quer mesmo. Pense bem antes que seja tarde demais para voltar atrás.
- O que está dizendo? Você ficou louco? – perguntei na defensiva.
- Eu vou te amar pra sempre, Sammy. Mas isso não quer dizer que eu vou esperar por você nesse tempo – ele disse sem se abalar pela pergunta que fiz.
  Fiquei sem fala enquanto o que ele havia dito criava raízes em mim. Richard me puxou num abraço e encostou o rosto em meus cabelos.
- Pense bem, eu desisto de tudo por você. Eu te amo, Sammy – ele suplicou em meu ouvido. Fechei os olhos e com lágrimas caindo deles, o abracei também.
  Richard me abraçou mais forte, depois me afastou e colocou a palma da mão em meu rosto, limpando as lágrimas com o polegar, enquanto eu enxugava as outras com as costas das mãos.
- Eu te amo – ele sussurrou novamente.
  Respirei fundo e peguei sua mão, tirando-a de meu rosto.
- Não há o que pensar Rick. Amo Arthur – ao escutar isso, seu rosto se transformou num misto de dor e agonia insuportáveis – Não, não fique assim – coloquei a mão em sua bochecha, ele a pegou e fechou os olhos, encostando o rosto nela.
  Fiquei olhando-o por um minuto. Por que ele tinha que me amar? E por que eu tinha que sentir algo por ele, que nem mesmo eu sabia o que era?
  Richard abriu os olhos e me encarou.
- Vou estar aqui, saiba disso. Se um dia seu mundo desabar, me chame. Se você me quiser como te quero, vou ficar ao seu lado para sempre. Mas se só me quiser como amigo, irei reconstruir cada pequeno pedaço de seu mundo, quando precisar.  – ele pegou meu rosto com as duas mãos – Mas nunca, nunca se esqueça que me tem por inteiro.
- Richard... – baixei suas mãos e sacudi a cabeça de leve.
- Sammy, não estou cobrando ou mandando você decidir nada. Só estou dizendo que pode contar comigo para tudo, num resumo grosseiro do que falei.
- Está bem.
- Vamos pra aula? Já vai começar – ele disse se recompondo.
- Vamos – olhei para Arthur, mas ele ainda conversava com Bryan.
  Segui com Richard, eu duvidava que pudesse encará-lo agora. Talvez quando estivesse inteira novamente, pensei.
  Richard foi para sua aula do primeiro tempo e eu também, desejando desaparecer ou se possível, minha cama para deitar de lado, me abraçar e chorar até meu coração ficar menos destroçado, quase totalmente cicatrizado.
  Entrei na sala quase correndo e me sentei ao lado de Bernard. Não pude evitar, minha cara me entregava.
- Tudo bem com você? – ele perguntou preocupado.
- Sim – menti.
- Bom dia alunos! – disse o diretor entrando na sala, acompanhado de uma moça alta, de cabelos curtos e ondulados.
- Bom dia – todos responderam em coro.
- Essa será a nova professora de Espanhol, infelizmente o Sr. Steve teve de deixar essa instituição. A todos um bom dia e boas aulas.
- Olá classe – cumprimentou a professora com um sotaque – Sou a Srta. Montéz e antes que perguntem, sou espanhola. Bem, não vou perguntar o nome de cada um, porque sou péssima com nomes, espero poder decorá-los com o tempo. Vamos começar a aula?
  Fiquei perdida em pensamentos durante as duas aulas de espanhol e mais a de geografia. Por sorte, ninguém me fez muitas perguntas. Meu único pavor era a hora do almoço, onde teria que encarar Arthur, Myllena e principalmente, Richard. Eu precisaria juntar todas as minhas forças para não desabar quando o visse.
  Assim que o sinal tocou, não arrumei minhas coisas rapidamente como costumava fazer, mas mesmo depois de demorar a colocar tudo na mochila, não consegui adiar mais e segui sem vontade até o refeitório. Chegando lá, nem quis pegar nada para comer, a fome não existia só um frio na barriga.
  Hesitante, parei atrás da cadeira de Ashley.
 - Oi pessoal – disse amuada. Ashley se virou.
- Oi – todos responderam. Arthur estava chegando à mesa, mas Ashley roubou minha atenção antes que eu entrasse em desespero.
- Oi Sammy, tudo bem? – ela perguntou com um sorriso enorme no rosto. Não teve como não retribuí-lo, mesmo que o meu fosse hesitante.
- Tudo bem. E com você? – perguntei.
- Tudo ótimo! Tenho que contar! – disse ela entusiasmada.
- Depois Ash, tenho prioridade – Arthur interrompeu. Devo ter ficado branca como um papel, porque de repente a careta que Ashley fazia sem olhar para ele se dissolveu numa expressão preocupada.
- Sammy, você está bem? Parece tão... Pálida – ela perguntou franzindo o cenho.
- Estou – menti.
- Está mesmo?
- Sim Ash.
- Que foi? – Arthur perguntou ansioso ao nos ver cochichando.
-Nada – respondi.
- Sammy, guardei seu lugar. Vem pra cá – ele chamou.
  Sentei ao seu lado me sentindo insignificante.
- E ai pessoal? – cumprimentou Bryan chegando à mesa com Melissa – Sammy! Tudo bem, cunhadinha? – ele perguntou animado. Melissa revirou os olhos e puxou uma cadeira ao lado de Miguel para se sentar.
- Tudo bem Bryan – respondi fingindo.
- Miguel já está recuperado e assim como o esperado não se lembra de nada – Arthur sussurrou em meu ouvido.
- Ótimo. Onde ele está? – o procurei pelo refeitório.
- Em casa. A mãe dele disse que ele precisava de repouso. Acha que foi algum tipo de virose – sua voz era incrédula. Quase pude ouvir seus olhos revirarem.
- É melhor assim. A verdade é assustadora e irreal demais – franzi o cenho.
- Essa é a minha realidade. Concordo que não queira colocar seus amigos expostos a ela. Nem você deveria estar.
- Não foi isso que quis dizer. Desculpe. – olhei para ele – Eu estou nisso e não trocaria por nada. Se esse é o preço que tenho que pagar pra ficar com você, tudo bem – dei de ombros – Contanto que eu não conceda nada de mal pode me acontecer.
- Queria que não precisasse ser assim – ele olhou para baixo.
- Arthur, o que é a vida sem emoção e aventuras? – tentei animá-lo – Adrenalina correndo no sangue, isso é bom – sorri.
- Você me assusta às vezes sabia? – ele sorriu – Parece suicida.

♥ ♥ ♥

  As aulas seguintes foram piores que as primeiras. Minha mente relembrava de todos os momentos da manhã e me torturava por estar agindo com Arthur de uma maneira tão cruel. Ele não merece, deixe o Richard viver sua vida. Se ele quer namorar a Myllena, dane-se! Não maltrate quem te ama, não maltrate quem você ama! Eu ordenava a mim mesma.
  Quando as aulas enfim acabaram, eu tinha decidido que não sofreria mais pelo Richard e que iria compensar Arthur pelas vezes em que estava com ele e minha mente vagava para Richard. Voltaremos a ser amigos, amigos, como sempre deveria ter sido.
  Foi difícil encontrar uma solução e decidir por qual caminho seguir, mas o mais difícil passara. A decisão estava tomada e por mais que eu sofresse com ela, iria segui-la.
  Ao chegar ao estacionamento, vi Arthur, mas não falei com ele, um plano se formando. Fui até meu carro, joguei a mochila no banco do carona e fechei a porta.
  Olhei para o lado e ele ainda estava sozinho.
- Arthur! – eu chamei. Ao ouvir, ele me olhou e sorri, chamando-o com o indicador. Ele também sorriu e veio em minha direção.
- Será que você pode me dizer como consegue fazer isso comigo? – ele perguntou maliciosamente.
- Fazer o quê?
- Me deixar louco. Sabe quanto esforço estou fazendo para não te beijar aqui mesmo? – ele perguntou colando seu corpo ao meu.
- Você nunca se conteve, por que isso agora?
- Por que tenho uma pergunta a fazer – ele ficou sério de repente.
- Não pode perguntar depois? – segurei seu casaco e o puxei, encostando-me no carro.
- Sammy, não é você que diz que não podemos fazer isso aqui? – ele levantou as sobrancelhas.
- O estacionamento está quase vazio.
- Mas estou esperando Bryan e as meninas.
- Tá bom. – disse desistindo – Qual é a pergunta?
- Você está com algum problema? – ele perguntou. Meu corpo gelou, ele havia desconfiado que algo acontecia.
- Estou bem – e eu estava, pelo menos naquele momento.
- Não foi isso que perguntei.
- Arthur, não tenho problema nenhum, ok?
- Você me contaria se tivesse? – ele perguntou duvidando de minha resposta.
- Sim – ele me olhou por um instante e percebi que me analisava – Se eu tiver algum problema, se for preciso, vou te contar. Agora, vem aqui antes que seus irmãos cheguem – o puxei pelo casaco até que fiquei a minúsculos centímetros de seu rosto perfeito – Não há com o que se preocupar. Estou bem, eu estou com você – disse dando de ombros.
- Não é a mesma coisa – ele parecia frustrado.
- Pra você – sorri levemente. Toquei seus lábios e ele retribuiu meu beijo, até que escutei um pigarro e me afastei dele.
- Sabia que Arthur estaria aqui – disse Ashley.
- Oi, Ash – baixei a cabeça, meu rosto ficando vermelho.
- Por que você chegou na hora mais errada? – Arthur perguntou fingindo raiva.
- Por que quero ir para casa. Sorte sua que foi eu que vim. Se fosse a Mel você ia ver.
- Ela não faria nada.
- Então você não conhece sua irmã.
- Ok, você venceu! Garota irritante, essa! Até amanhã, Sammy – disse ele. Arthur me beijou rapidamente e seguiu com Ashley até seu reluzente Jaguar onde Bryan e Melissa esperavam. Suspirei e entrei no meu carro, dando umaúltima olhada para vê-los saindo do estacionamento.
  Chegando em casa, fiz os deveres, o jantar e tomei um bom banho. Em todo esse tempo Nathália não tinha aparecido, então fui até seu quarto.
- Nathália? – perguntei do lado de fora.
- O que é, Sammy? – ela respondeu. Sua voz estava diferente, me surpreendeu.
- Posso entrar?
- Pode.
- Com licença. – falei enquanto entrava – Oi – disse cautelosa.
- Oi – ela estava de bruços na cama, a cabeça apoiada nos braços. Não pude ver seu rosto, andei até ela e me sentei ao seu lado, cruzando as pernas ao sentar no chão.
- Posso falar com você um pouco?
- Sim.
- Está tudo bem? – toquei seu braço.
- Não – ela balançou a cabeça e lágrimas escorreram pela parte de seu rosto que pude ver.
- O que aconteceu? – perguntei afagando seu cabelo.
- Pra que quer saber? Pra contar amanhã aos seus amigos e vocês ficarem rindo de mim na hora o intervalo?
- Eu nunca faria isso, sabe muito bem. Conta, talvez eu possa e ajudar.
- Ninguém pode.
- Já experimentou dizer a alguém? – levantei as sobrancelhas.
- Não.
- É tão ruim assim?
- Sim – ela respondeu e voltou a chorar.
- Vem aqui Nathália – ela se arrastou até mim, colocando seu rosto em meu peito e a abracei, embalando-a, esperando que seu choro cessasse, que tivesse colocado tudo pra fora.
- Está melhor? – perguntei depois que os minutos se passaram e ela tinha parado de chorar.
- Sim.
- Se não quer me contar, não vou insistir. Mas saiba que estarei aqui se quiser alguém com quem conversar ou só um abraço, ok?
- Tá.
- Quer que eu vá embora pra você ficar um pouco sozinha?
- Não, fica aqui – seus olhos quase arregalados encararam os meus.
- Ok – Pelo amor de Deus, o que aconteceu com a minha irmã?
  Os minutos se passaram e quando olhei pela janela o sol já estava se pondo e a lua começava a surgir.
- Sammy?
- Sim?
- Obrigada.
- De nada – ela me soltou e se sentou na minha frente, olhando-me nos olhos por um momento. Talvez estivesse decidindo o que iria falar.
- Como foi seu dia? – ela perguntou,me deixando confusa.
- Não muito bom – lembrei de Richard e estremeci.
- Sammy, posso fazer uma pergunta?
- Claro – dei de ombros.
- Você está com Iron?
  Fiquei desconfortável ao ouvir seu nome, mas não poderia deixar de responder. Em outro momento eu daria um fora nela, mandando-a cuidar de sua vida, mas nessas circunstâncias?
- Nós terminamos – disse simplesmente.
- Por quê?
- Ele saiu da cidade – não era uma mentira. Eu achava que ele realmente tinha ido embora. Até vê-lo em uma ruela escura sugando a alma do meu amigo.
- Sinto muito.
- Eu não gostava dele.
- E por que estava com ele? – ela parecia surpresa.
- Atração física – imagens do corpo sem camisa de Iron invadiram minha mente e tentei espantá-las.
- Ah...Tem mais alguma coisa?
- Tem – suspirei derrotada – Estou namorando Arthur.
- Quanto tempo faz?
- Não muito.
- Como vai contar para o papai?
- Esperarei ele chegar. Como não sou muito boa nisso, apelei para o estômago e fiz Strogonoff de camarão.
- Tinha que ser você – ela quase sorriu.
- Você está rindo, mas quero só ver quando for sua vez! – no mesmo instante seu sorriso cessou e ela baixou a cabeça, imediatamente me arrependi do que tinha falado. – Desculpa Nathália, desculpa. É isso, não é? Você está gostando de um garoto.
- É – ela respondeu ainda de cabeça baixa.
- O que houve? Ele não gosta de você, você não tem coragem de falar com ele, ou...
- Ele é namorado de uma amiga minha – ela admitiu.
- Ah... eu, eu sinto muito – e eu realmente sentia. Seu primeiro amor, sua primeira ilusão.
- Mas o pior não é isso. Ele também gosta de mim, mas não consegue com Alex pra ficar comigo – ela fez uma pausa.
- Isso é mesmo complicado. Mas se ele não terminou com Alex pra ficar contigo, acho que ele não gosta tanto assim de você como ele diz.
- Você acha? Ele parecia tão sincero quando disse que gostava de mim e quando me beijou também.
- Ele te beijou?
- Qual o problema? Vai me dizer que você não beijava Iron e não beija Arthur?
- Sim, eu beijo – e com Iron era mais que meros beijos – Mas nenhum deles é namorado de uma amiga.
- Evan não ama Alex.
- Mas para todos os efeitos está com ela. E outra, se ele não sentisse nada por Alex, como ele diz, já tinha já tinha mandado sua amiga para o Alaska há muito tempo.
- Ok, sabe-tudo, qual sua sugestão pra que ele acabe com ela?
- Não sei, preciso pensar.
- Já sei!  - ela quase pulou – Vou contar tudo pra Alex! Agora! – ela se esticou pra pegar o telefone no criado-mudo.
- Não, não! – tentei alcançá-la – Me dá esse telefone aqui, você tá... louca? – puxei o celular da mão dela e coloquei do meu lado, no chão.
- Por quê?
- Se você contar, Evan saberá e ficará com raiva e de quebra você perderá amizade de Alex.
- Que se dane a Alex, me dá meu celular – ela estendeu a mão.
- Não. Amigos são para sempre Nathália. Um garoto você pode encontrar em qualquer esquina. Deixe ele sentir sua falta.
- Como vou fazer isso?
- Seja indiferente, não o fique encarando. Finja que não está nem aí pra ele. Mas vou logo avisando. Ele vai tentar te fazer ciúmes, mas mesmo que você esteja querendo loucamente ficar com ele, se controle. E não tente devolver com a mesma moeda, nunca funciona. Só seja você mesma e o trate como a qualquer um. Depois de uns dias ou semanas, você vai ver o resultado. E não chore mais, há alguém no mundo que precisa de você feliz pra poder viver, ok?
- Está bem. Obrigada Sammy – ela me deu um abraço e voltou a se acolher em meus braços papai nos chamar para jantar.

  Comemos em silêncio. De vez em quando olhava para Nathália e ela para o papai e depois para mim. Coragem é disso que você precisa. Seu pai não vai te matar!
- Pai, preciso falar com você – disse soltando os talheres.
- Fale – ele me olhou.
- Estou namorando Arthur Mason – soltei de vez.
- Achei que estava saindo com aquele rapaz... Iron, eu acho.
- Eu estava, mas ocorreram algumas coisas e...
- Há quanto tempo?
- O quê? – perguntei confusa.
- Está com Arthur.
- Algumas semanas.
- Quantos anos?
- 18 – Há algum tempo, completei mentalmente.
- Hmmm... Quero conhecê-lo. Não me faça uma desfeita e termine com o rapaz antes que eu tenha a chance de ver sua cara.
- Ok.
- Gostei que tenha escolhido um Mason. Apesar de que eu estava receoso que fosse o outro. Ele parece um tanto grandalhão demais para você – ele franziu o cenho e sorriu levemente – Arthur. É um bom rapaz.
  Após o jantar, subi para meu quarto com Nathália logo atrás. Sentei-me na cama e disquei o número de Arthur.
- Oi Sammy, tudo bem? – Ashley atendeu.
- Oi Ash. Tudo ótimo. Arthur está por aí? – perguntei ansiosa.
- Tá sim. O que aconteceu?
- Por que a pergunta?
- Você parece histérica.
- Será que poso contar primeiro pra ele?
- Ah, não. Conta, por favor!
- Ash, não...
- Ashley, meu celular, por favor? Quem está falando? – Arthur quase gritava com ela.
- Ai, espera! – ela gritou de volta.
- Quem é? – ele perguntou mais perto.
- Sammy, ela quer falar com você.
- Comigo?
- É.
- E o que é que você ainda está fazendo com meu celular na mão?
- Estou conversando com ela.
- Ela ligou pra mim.
- Mas...
- Nem mais, nem meio mais. Se ela quisesse falar com você teria ligado para seu número.
- Espera, ela tem que dizer...
- Não – ele disse.
- Não nada! Você...
- Ash, por favor – pedi.
- Tá bom, tá bom! O que não faço por você Sammy? Toma, Arthur – quase pude vê-la jogando o celular no peito dele.
- Você me irrita. Oi Sammy!
- Oi, tenho novidades.
- Diga.
- Falei com meu pai sobre a gente e...
- E?
- E ele... – quase sorri.
- Ai, Sammy fala logo, você está me deixando maluco!
- Ele disse que está tudo bem, mas quer conhecer sua família.
- Isso não é um problema. Suzan vai adorar. Mas posso pedir uma coisa?
- O quê?
- Quero me apresentar ao seu pai antes dele conhecer minha família.
- Ele já te conhece.
- Mas não como seu namorado.
- Nossa, meu namorado.
  Ele riu do outro lado da linha.
- É, seu namorado!
- Já que você quer – dei de ombros.
- Quero – sua voz era intensa e eu me lembrava claramente de seu rosto quando ele falava desse jeito.
- Era só isso. Até amanhã.
- Até. Sonhe com os anjos – ele disse presunçoso.
- Ah, ok! Não se preocupe, sonharei com você – respondi sorrindo e desliguei.
- Temos que comprar roupas – Nathália falou animada.
- É. Acho que será um jantar – eu disse.
  Depois de nos despedirmos e de eu ter tomado um longo banho, deitei na cama completamente sonolenta e imaginei como seria Arthur de anjo, com asas enormes e macia com seda.
  Mas nenhuma das minhas melhores imaginações sequer margeava a realidade.

Romance de:

 
Continua...

Deixe um comentário