"Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.
City of Angels
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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. 
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♥ ♥ ♥


 UM BEIJO E UM SEGREDO



Mesmo tendo dormido relativamente bem, acordei com uma sensação estranha, como se alguma coisa ruim fosse acontecer. Após tomar um banho demorado e me arrumar minuciosamente, peguei minha mochila e desci as escadas, tentando adivinhar o motivo da sensação, mas como não tive nenhum resultado, tentei esquecer, mesmo sabendo que isso não aconteceria. Quando fui abrir a geladeira para pegar a garrafa de leite, vi um bilhete colado na porta.

“Sammy;

Tive que sair mais cedo e deixei a Nathália na casa da Brenda. Até mais tarde. Tenha um bom dia.”

                                                                                                                  Rudolf
    
Tomei o café da manhã tranquilamente, aliviada por ficar um tempo sozinha em casa. Depois de ter lavado a louça e escovado os dentes, rumei para a escola cantando as músicas do CD que tocava. O estacionamento ainda estava com poucos veículos, o que me deu opções. Dirigi procurando pelo carro de algum dos Mason, mas como não vi nada em minha rápida avaliação, estacionei ao lado do Miguel.

- Sammy...

- Myllena? – quando a vi estava aos prantos – O que houve? – perguntei preocupada.

- O Richard! – disse ela me abraçando.

- Myllena, calma. – consolei, afagando seus cabelos – O que aconteceu?

- Ontem o Richard me chamou pra sair com ele. Nós fomos jantar fora e depois passeamos um pouco no parque, só que... – ela fez uma pausa, se afastou de mim e falou olhando para o chão. – ele me beijou.

- Mas por que você está chorando? Pensei que gostasse dele. – a confusão estava nítida em meu rosto.
- Eu gosto, e muito – sua voz era só um sussurro.

- Então...? – eu estava confusa demais para terminar a pergunta.

- Então Sammy, que ele falou teu nome. – arfei e ela olhou para mim. Seu rosto estava dilacerado. Precisei de alguns segundos para poder falar algo.

- Como disse? Ele falou meu nome quando te beijou? Myllena, eu... Me per... – eu não sabia o que falar e já estava começando a ficar nervosa.

- Sammy, e agora o que faço quando ele chegar? – sua voz estava dolorida, mas o que eu poderia fazer? Mordi o lábio enquanto pensava. Alguns minutos se passaram quando tomei uma decisão.

- Vou falar com o Richard. – disse numa confiança um tanto exagerada. Myllena me olhou enquanto eu ajeitava a mochila no ombro e unia as sobrancelhas.

- Tem certeza? – perguntou ela me olhando de lado.

- Tenho. Agora seque essas lágrimas desse rosto lindo e vá para a aula. – disse enquanto espalhava suas lágrimas com o polegar. Ela deu um leve sorriso e acenou com a cabeça.

- Ok. Vou pra aula, então. Obrigada Sammy.

- Disponha. – ela sorriu de leve e saiu, indo em direção a escola. Suspirei e me virei para trancar a porta do carro.

- Bom dia pessoal. Por favor, sentem-se – a aula passou rápido, Sra. Murf nos deu uns exercícios, mas eram simples e em cerca de quinze minutos Ashley e eu havíamos acabado. Ficamos conversando enquanto o sinal para a próxima aula não tocava.

- Sammy, posso te fazer uma pergunta?

- Claro. O que é?

- Aconteceu algo?

- Não, por quê? – não olhei para seu rosto ao falar, porque se não, não conseguiria mentir.

- Por nada, só achei você meio preocupada. – respondeu ela dando de ombros.

- Impressão sua. – menti olhando para meu caderno em cima da mesa.

- Será? – perguntou ela num sussurro, mais para si mesma do que para mim. Ficamos em silêncio e alguns minutos depois o sinal tocou. Dei um suspiro de alívio e comecei a arrumar meu material. Senti Ashley me observando, enquanto desastradamente eu deixava meus livros caírem no chão.

- Droga! Será possível?! – rosnei e me abaixei para pegá-los. Quando levantei percebi Ashley na minha frente – ainda sentada - me encarando com uma cara surpresa. Suspirei e saí marchando até minha próxima aula. Chegando à outra sala, larguei a mochila no chão e sentei na cadeira, apoiando o rosto nas mãos.

-Sammy, você está bem? – olhei para o lado e vi Sophia me encarando, seus olhos escuros arregalados. Respirei fundo para me controlar.

- Estou. – falei entre dentes.

- Não parece. – ela ainda estava assustada.

 - Eu sei. – suspirei e me virei para o quadro.

- Ok. Fala o que houve. – sua voz agora era preocupada e compreensiva. Sophia me conhecia bem o bastante para saber quando meu limite havia sido ultrapassado. Às vezes me conhecia melhor do que eu mesma. – É com o marginal que está entrando no seu quarto?

- Não. Depois te conto. Primeiro me deixa resolver. – respondi ainda encarando o quadro.

- Iron?

- Não. Ele... saiu da cidade e não vai voltar... nem tão cedo. – fiz uma pausa – Eu acho – sussurrei.

- Por isso que Arthur tomou seu lugar?

- As coisas entre mim e Iron não estavam indo muito bem.

- Está bem. Qualquer coisa pode falar comigo.

- Sabe que vou falar com você. Sempre faço isso. – sorri levemente ao me virar para olhá-la.

- É, eu sei. Só não venha me pedir para resolver um problema que era pequeno, mas que você fez o favor de triplicá-lo. – disse ela me olhando de lado.

- Tudo bem. – revirei os olhos.

- Agora vamos prestar atenção à aula. – decretou ela.

- Hoje o tema é Revolução francesa. Alguém sabe algo sobre? – começou o Sr. Phillips. Enquanto toda a turma respondia a sua pergunta, minha cabeça estava totalmente fora dali. Eu queria falar com o Richard, esclarecer algumas coisas, todas, na verdade. Mas teria que esperar até a hora da saída, quando seria mais seguro, pra que ninguém nos ouvisse.

- Srta. Brandow? Srta. Brandow?

- Sammy! – chamou a Sophia, balançando meu braço direito.

- Hãã... Desculpe-me Sr. Phillips. Poderia repetir o que disse?

- O que marcou o início da Revolução e o fim?

- O começo, a queda da Bastilha e o fim, o golpe de Napoleão Bonaparte, conhecido como 18 de Brumário.

- Correto. Srta. Mandson, poderia me dizer quando ocorreu esse golpe?

- 9 de novembro de 1799.

- Exatamente. Então, vejamos turma... – continuou ele.

- Sammy, o que aconteceu? Você nunca foi de viajar na aula! – perguntou a Sophia quando o professor se afastou de nós.

- Só estava pensando em algumas coisas, nada demais. – tentei convencê-la, sem muito sucesso, como percebi pela sua expressão.

- Sei. – ironizou ela.

- Sophia Mandson... – comecei.

- Shhh... Depois, o Sr. Phillips está olhando pra nós. – ela disse.  Revirei os olhos e me virei para o professor a fim de prestar atenção à última parte da aula. Sem sucesso. O assunto de Richard veio novamente a minha cabeça e lutei para tirá-lo da mente. Quando consegui voltar minhas atenções para o que o Sr. Phillips falava, só faltavam dez minutos para acabar. Irritada comigo mesma, me encostei na cadeira e cruzei os braços. Quando a aula finalmente acabou, peguei minha mochila e saí da sala, com a Sophia do meu lado em absoluto silêncio. Durante o horário do almoço, percebi a Myllena me observando. Como não conseguia mais disfarçar que estava mal, decidi ir para a aula mais cedo. No corredor, encontrei Arthur indo para o refeitório.

- Sammy, que cara é essa? – perguntou ele vindo em minha direção.

- Nenhuma. – respondi com raiva.

- O que houve? Iron...?

- Nada Arthur – Me desviei dele, mas ele me segurou pelo braço. – Me solta – puxei o braço sem olhá-lo e fui para a próxima aula. A sala ainda estava vazia, coloquei minhas coisas em cima da mesa e baixei a cabeça para poder pensar um pouco. Na verdade, toda aquela agonia e irritação eram porque eu não sabia o que fazer. Eu poderia lidar com anjos assassinos, mas talvez com um problema milhões de vezes menor, não. Pensei em falar com a Sophia, mas não queria envolver mais ninguém, então teria que resolver sozinha. Um arrepio subiu por minha coluna. Deixe de ser medrosa Samantha, não vai acontecer nada de mais, pensei.

Ouvi o barulho de uma cadeira sendo arrastada e olhei em volta. A sala estava quase cheia e a Sra. Summers entrava na sala. Epa! Não, não! Não pode ser! Por que essas coisas só acontecem comigo?! Pensei apavorada quando me toquei que o Richard tinha aula comigo.

- Sammy? – falou alguém, me tirando de meus devaneios. Virei-me para olhar quem era e vi Richard se sentando ao meu lado. Engoli em seco e lutei contra a vontade de sair correndo.

- O que foi? – perguntei me encolhendo.

- O que aconteceu? – ele estava receoso, na defensiva. Com certeza desconfiava do que era.

- Eu já sei de tudo. Quero falar com você depois da aula. – olhei para o quadro a minha frente.

- Sammy eu...

- Depois da aula Richard – respondi com frieza sem olhá-lo.

- Está bem – desistiu ele. A aula passou tensa e vagarosamente. Algumas vezes me permitia olhar para o lado e quando meus olhos encontravam os dele, eu desviava rapidamente. Assim que o sinal tocou, todos os alunos pareceram sair da sala ao mesmo tempo. Bryan passou por mim e acenou, sorrindo. Retribui o sorriso levemente e com um suspiro fiquei de pé. Era melhor acabar logo com isso.

- Richard, o que você fez com a Myllena foi horrível – ele não tinha se levantado ainda e assim que terminei de falar ele ficou de pé e contornou a mesa, ficando de frente para mim.

- Desculpe-me Sammy, mas não me arrependo – ele olhava intensamente para meus olhos e eu não acreditava no que acabara de ouvir.

- Como assim não se arrepende? – perguntei surpresa – Pensei que você gostasse da Myllena.

- Me arrependo de tê-la magoado, não queria que ela sofresse. Mas não me arrependo de amar você. Adianta gostar dela, se é você quem amo?

- Como é? – arfei.

- Sammy, gosto da Myllena, mas percebi que era só amizade. Eu me sinto bem perto dela, mas isso não quer dizer que a amo – explicou ele.

- Mas como pôde perceber isso enquanto a beijava? – eu começava a ficar nervosa. Fiz uma pausa para respirar fundo.

- Não queria que tivesse sido desse jeito, nunca imaginei que eu amava você, mas na hora em que beijei a Myllena seu rosto me veio à mente e não consegui evitar. Sammy eu...

- Como pôde fazer isso? Usá-la desse jeito? – as lágrimas caíam de meus olhos e minha voz tinha atingido um tom mais alto que o normal.

- Perdoe-me – sussurrou ele.

- Eu?! – perguntei incrédula – Você pede perdão a mim? Peça suas desculpas a Myllena, foi a ela que você fez mal, não a mim.

- Não tenho coragem, eu a magoei muito – respondeu ele de cabeça baixa.

- Como assim não tem coragem?! – eu não acreditava no que estava ouvindo – Para destruir o coração dela você teve total ousadia, no entanto pra pedir desculpas você se acovarda? – eu tinha perdido o controle e gritava com ele – Nunca pensei que você fosse assim. Você é um monstro Richard! – gritei. Ele não respondeu nada, continuou de cabeça baixa, o que inexplicavelmente me irritou mais ainda – Reaja, faça alguma coisa! Será que nem pra se defender você serve? – eu gritava e batia nele, batia em seu peito, seus braços, mas ele nada fazia – Olhe pra mim! – o empurrei com as duas mãos.

  O que aconteceu e seguida me deixou totalmente atordoada.

  Richard levantou a cabeça e ao ver seus olhos percebi que estavam em brasa. Dei um passo para trás ficando temerosa de repente. Por um momento o choro cessou. À medida que ia me afastando dele, ele avançava para mim, até que algo me impediu de dar mais um passo. Olhei rapidamente e percebi que era uma banca. Tentei desviar, mas era tarde demais.

  Richard estava a apenas alguns centímetros de distância. Eu podia empurrá-lo novamente e fugir, mas meu corpo não movia os membros que iriam me permitir a fuga. Ele chegou mais perto, colocando seu braço direito a mesa atrás de mim. Tentei por instinto ir para o outro lado, mas seu outro braço me impediu. Tomei coragem e olhei diretamente para seu rosto, o pior erro que eu poderia cometer nessa situação.

  Assim que olhei em seu rosto, Richard colocou sua mão – que antes tinha me impedido de fugir – em minha nuca e me puxou para mais perto.

- Um monstro? Um monstro por te amar? – Meus braços estavam moles ao lado do corpo e minha mente estava à deriva. Ele – sem nenhum aviso – se aproximou ainda mais de mim e encostou seus lábios nos meus. Não tive nenhuma reação, não porque eu não queria, mas porque eu não conseguia.

- Sammy... – sussurrou ele antes de beijar meus lábios.

  Eu não esperava pelo que aconteceria comigo em reação a ele. Meu coração acelerou e minha respiração se transformou em um ofegar sem controle. Não era igual ao que acontecia comigo quando Arthur ou até Iron me beijava. Era diferente. Algo que eu não sabia dizer, mas que me fazia permanecer ali, em seus braços, reagindo instintivamente ao seu beijo.

- Oh meu Deus!  - gritei quando ele me libertou – Você, você... Você ficou louco?- o empurrei sem sucesso - Como pôde fazer... Oh meu Deus! E agora como... E a Myllena? Nós, nós cometemos um erro horrível com ela!  - gaguejei quando consegui ter forças suficientes para fazer com que ele me soltasse.

- Eu amo você Sammy. Não há erro nisso. – um sorriso triunfante crescia por seu rosto.

- Você ficou... Louco? Nós não devíamos ter feito isso! – desviei dele, peguei minha mochila e andei alguns passos em direção a porta. Richard me deteve, segurou meu braço e olhei para ele.

- Está com raiva? – ele uniu as sobrancelhas.

Demorou um segundo até que eu respondesse.

- Não – Anh? Minha mente gritou.

- Não quer me bater ou... ou me atirar pela janela?

- Não.

- Então você gostou? – um sorriso brincava em seu rosto.

- Richard eu... – eu não tinha uma resposta. Como assim eu na tinha uma resposta?!

- Sim? – ele incentivou quando não respondi. Baixei a cabeça.

- Deixe-me ir – As lágrimas haviam voltado a meus olhos e minha voz era só um sussurro. Richard deixou sua mão cair. Olhei para seu rosto e o vi desmoronar quando me viu chorando. Afastei-me dele e saí da sala correndo.

  O estacionamento estava vazio, exceto pelo Jeep preto do Richard que estava do outro lado. Eu chorava desenfreadamente e me esforcei para colocar algum ar para dentro de meus pulmões. Assim que entrei em meu carro desabei. Deitei a cabeça no volante e me abracei, tentando conter o choro e o nojo de mim mesma que me dominava.

  Mas era inútil.

  As lembranças de minutos atrás invadiam minha mente e quanto mais eu tentava espantá-las, mais nítidas se tornavam. O que eu havia feito com minha amiga? Eu a havia prometido que falaria com o Richard, e o que faço? Beijo o garoto. Ótimo! Argh... Como pude ser tão cruel, tão nojenta? O que eu falaria pra ela agora? Eu não tinha respostas para nenhuma das minhas perguntas, então desisti. Levantei a cabeça, liguei o carro e fui lutando contra as lágrimas que teimavam em cair de meus olhos, por todo o caminho de casa.

  Assim que estacionei o carro na entrada de veículos, sequei algumas lágrimas que estavam em meu rosto e respirei fundo algumas vezes. Eu não podia entrar desse jeito em casa, não se eu quisesse esconder o ocorrido.

  Mas todos os meus esforços para parecer bem foram inúteis. Entrando em casa, percebi que a Nathália ainda não havia chegado. Subi aos saltos para meu quarto, larguei a mochila no chão e me joguei na cama, colocando tudo pra fora. Umas duas horas depois, Nathália chegou e me encontrou limpando o chão da sala.

- Oi Sammy!

- Oi Nathália – minha voz estava muito mal disfarçada e tive que pigarrear para ela não perceber nada.

- Almocei na casa da Brenda, então vou subir para fazer o dever de casa. Como foi seu dia? – Por que ela tinha que conversar comigo por mais de dois minutos logo no dia em que o mundo tinha desabado em minha cabeça e eu queria esconder os destroços?

- Foi normal – respondi com a voz mais composta.

- Ok, então. Qualquer coisa estarei no quarto.

  Quando terminei de limpar toda a casa, subi para tomar um banho. Enquanto a água percorria meu corpo, me veio à mente: Eu teria que fingir que nada aconteceu, pelo menos se eu quisesse que ninguém tomasse conhecimento do que houve. Amanhã eu falaria com o Richard para que ele nunca, jamais contasse a ninguém o que havia acontecido naquela sala. Esse seria nosso segredo, um segredo que eu gostaria que não existisse.

  O resto da tarde passou lentamente para mim, às vezes me pegava pensando no Richard e esse pensamento me levava a Myllena, então eu balançava a cabeça e voltava minhas atenções para o que estava fazendo.

  Enquanto eu terminava de fazer o jantar e a Nathália via “Tristão e Isolda” para um trabalho de história, o papai chegou.

- Boa noite meninas! O que temos para o jantar? – perguntou ele entrando na cozinha.

- Boa noite, pai. Fiz sopa de legumes. Como foi o trabalho?

- Muito bom! Hã... Bem, hoje não teve nenhum soldado fazendo besteira, o que me fez ganhar o dia. – ele respondeu.

- Que bom – disse colocando a sopa em uma tigela grande e arredondada de vidro.

- E o seu como foi? – ele sentou numa cadeira para tirar os sapatos.

- Bom. – menti enquanto colocava a sopa em cima da mesa.

- E você Nathália?

- Ah, Oi pai. Boa noite. – disse ela tirando a atenção do filme.

- Como foi na casa da Brenda?

- Tudo bem – responde ela simplesmente.

- Sammy, vou tomar um banho. Daqui a pouco venho jantar, ok? – ele pegou o sapato e as meias ao se levantar.

- Está bem – ele subiu e fui pegar os pratos no armário. Depois a Nathália me chamou para terminar de assistir o filme com ela e me dirigi para o sofá. Eu adorava o filme, tinha até o livro, então logo prendi minha atenção. Quando acabou, o papai já descia as escadas e fomos jantar. Não estava com fome, fiquei só enganando, até que desistir e joguei quase todo o meu prato no lixo.

- Não gostou? – perguntou a Nathália se servindo pela segunda vez.

- Não é isso. Estou sem fome. Mais tarde pego alguma coisa pra comer.

- Filha?

- Sim, pai?

- Comprei uma revista para você, está em cima de sua cama.

- Obrigada – agradeci indo para a escada.

  Depois que escovei os dentes fui para meu quarto e me deitei na cama, puxando a revista comigo. Era uma revista de letras de músicas e vinha com um CD. O coloquei no micro system e abri a revista na página que correspondia a faixa número um do CD. A letra era legal, mas ao decorrer da música uma frase me fez lembrar o Richard. Irritada, desliguei o som e coloquei a revista em cima do criado-mudo, tentando pensar em outra coisa que não fosse relacionada a ele. Levantei da cama e tranquei a porta, quando voltei a me deitar fechei os olhos e me concentrei em minha respiração, até que em algum momento adormeci.


♥ ♥ ♥

  Acordei com algo quente tocando em minha testa. Minha respiração parou. Iron. Uma rajada de vento invadiu meu quarto. Alguns segundos depois, tendo me certificado de que não havia mais nada ali, abri os olhos. A janela da lateral estava aberta, mas não havia ninguém. Sentei-me na cama e pude ver um buquê de rosas azuis e brancas com um envelope embaixo cuidadosamente colocado ao lado de meu corpo.
  
Suspendi o buquê enquanto pegava o cartão de dentro do envelope.


  Sammy;

  Desculpe-me por ter sido indelicado com você, mas entenda que era preocupação. Eu estava tentando te proteger. Sei que não será esse cartão e buquê que irá me redimir, mas peço-te que considere ao menos minhas palavras. A cada sorriso seu percebo que meu coração te pertence, minha vida já está sendo construída em função da sua. Espero que agora você note meu coração bater mais forte por ti.. Até o horário da escola.. Não existo sem você.
                                                                                                                                                                                                                                                       Bom dia;

                                                                                  Arthur Mason

Sorri ao terminar de ler o que ele havia escrito e peguei o buquê, sentindo o aroma.

  Tomei banho e me arrumei no mínimo de tempo que consegui e sem tomar café disparei até o colégio.

  Mesmo tendo sido rápida, tive dez minutos de atraso e corri pelos corredores na esperança de que o professor me deixasse entrar. Quando cheguei ao meu bloco, vi Arthur entrando na sala. Corri até ele e puxei seu braço.

- Bom... – ele tentou dizer.

  Antes que ele pudesse falar algo, o beijei. Uma corrente elétrica passou por meu corpo e senti seu braço me puxando pela cintura, cada centímetro de meu corpo colado ao dele. Um fogo muito mais forte e devastador dominou meu corpo e me prendi a ele, meus dedos enroscando-se em seus cabelos dourados. Senti minhas costas no armário e Arthur liberou meus lábios.

- Você é por quem eu acordo todos os dias – ele sussurrou, seus olhos azuis me hipnotizando.

  Arthur deslizou sua mão pelo meu rosto até pairar em meu queixo – que suspendeu – voltando a me beijar.

  Quando meu coração já estava em um ritmo extremamente anormal, Arthur segurou meu rosto, me afastando e encostou sua testa na minha.

- O destino do meu coração. Sempre. – havia um sorriso em sua voz.

  Afastei-me dele e o encarei por alguns segundos, memorizando cada detalhe de seu rosto perfeito.

- Meu anjo da guarda – murmurei. Ele sorriu e beijou minha testa, seus braços envolvendo minha cintura.

- Gostaria de saber se a aula vai ser no corredor – olhamos para o lado e Sr. Williams estava nos encarando.

- Desculpe professor – Arthur disse me soltando, mas segurou minha mão.

- Srta. Brandow? – ele levantou as sobrancelhas.

- Desculpe – disse prendendo o riso.

- Aula de biologia é na sala. – ele entrou. Olhamo-nos e seguimos para nossos lugares. – Como estava dizendo, a reprodução...

- Você...? – Sophia começou.

- Shhh... – disse com a mão na boca para esconder o riso – A aula – apontei para o quadro.

  Olhei para trás e vi Arthur prendendo o riso.

- E depois eu é que estou com os hormônios...

- Shhh... – Arthur disse atrás de mim.

- É melhor calar a boca – murmurei.

- Shhh... – Sophia disse.

- Posso saber quem está vazando? – Sr. Williams perguntou.

  Fingi que nada havia acontecido e prendendo uma risada, voltei minhas atenções para a aula de reprodução.


♥ ♥ ♥

- Tenho um convite a fazer – Arthur se encostou na minha mesa quando as aulas do primeiro tempo acabaram. Coloquei os braços por cima e sorri levemente.

- E no que consistiria esse convite?

- Em ir à minha casa hoje à tarde.

- À sua casa? – perguntei com um nó na garganta.

- O que foi? Está com medo dos meus... pais? – ele deu um sorriso zombeteiro.

- E se eles não gostarem de mim? – perguntei receosa.

  Arthur se aproximou, parando quase atrás de mim e me abraçou.

- Quem seria capaz de não gostar de você?  - ele encostou os lábios em minha orelha – Você é irresistível.

 ♥ ♥ ♥

- É... Sammy? – chamou Myllena quando cheguei ao refeitório e um frio percorreu meu estômago, me deixando um pouco enjoada.

- Sim? – minha voz era fraca.

- Posso falar com você? – perguntou ela hesitante.

- Claro – sem que ela percebesse, olhei para o Richard – que me encarava há poucos metros de distância – desviei o olhar e prestei atenção à Myllena.

- Sammy, você falou com ele?

  Coloquei as mãos nos bolsos do casaco e olhei para o chão.

- Não – sussurrei, assim minha mentira não ficaria tão evidente.

- Que bom – respondeu ela com um sorriso na voz e um suspiro de alívio. Olhei para ela desnorteada.

- O quê?

- Pensei muito e decidi que não importa – ela deu de ombros.

- Não importa? – perguntei atordoada.

- É. Se ele falou teu nome quando me beijou é porque ele gosta de você, mas não adianta ninguém tomar satisfações com ele, porque não vai mudar. O que tenho que fazer é conseguir que ele me olhe, que me aprenda a gostar de mim, sabe?

- Sei – falei entre dentes.

- Algum problema? – ela perguntou me observando.

- Não, nenhum. Que bom que você chegou a essa conclusão – Mas bem que você podia ter chegado a ela antes que eu tivesse falado com ele! Gritei mentalmente. Desviei o olhar de seu rosto para que eu não despejasse tudo em cima dela, quando vi o Arthur. Ele me viu e sorriu, me fazendo amolecer, mas também me fazendo tremer de medo por dentro. Ele não podia descobrir. Nunca.

- Bom, Sammy, era só isso – ela disse – Sammy? – Myllena perguntou quando não voltei a olhá-la.

- Ah. Tá. Tudo bem, não se preocupe. Vamos voltar? – andamos em direção aos outros. Assim que cheguei Richard sorriu timidamente pra mim e sinalizei que depois queria falar com ele. Ele assentiu e voltou a falar com Bernard.

- Oi pessoal – cumprimentou Arthur logo atrás de mim. Ele me deu um beijo na bochecha, sentando-se ao meu lado.

 - Oi – respondi virando um pouco a cabeça.

- Mentira não é? – exclamou Bianca.

- O quê? – disse confusa.

- Vocês dois estão... – perguntou Beatriz.

  Quem respondeu foi Arthur, enquanto eu ficava vermelha e baixava a cabeça.

- Sim, estamos namorando. Pensei que todos já soubessem – respondeu ele.

- Não, nós não sabíamos. Sammy não nos conta nada – disse Anita.

- Eu sabia – Sophia disse sorrindo de lado – Esse povo desinformado... – ela balançou a cabeça negativamente.

- Você contou a ela e esqueceu a gente? – Bianca contestou.

- Ela não esqueceu – Sophia respondeu – Excluiu seria a palavra mais correta.

- Sophia – reclamei.

- É isso o que dá quando eu falo a verdade. Sophia não presta, é chata e outras coisinhas mais.

- Como má educada, eu sei – disse – Mas quem disse isso foi Miley Spencer, não nós.

- Nem me fale – ela tomou um gole da coca.

- Valeu Arthur por nos contar – resmungou Bernard.

- Vocês pretendiam contar quando? No dia do casamento? – ironizou Miguel.

- Ah, que é isso? Se vocês não sabiam estão sabendo agora – Arthur falou – Quanto drama.

- Melhor saber tarde do que nunca – completou Bryan.

- É verdade – concordou Ashley.

- Vocês dois estão namorando? – Richard perguntou. Olhei para ele e sua expressão era de pura incredulidade.

- Sim, estamos Rick – respondeu Arthur. Com certeza ele havia percebido o tom de voz esquisito do Richard.

- Vamos pessoal, se não vamos chegar atrasados. O sinal acabou de tocar – anunciei tentando quebrar a conversa dos dois.

- É verdade, vamos – foi a primeira vez que tinha escutado a voz da Melissa e me surpreendi um pouco ao ouvi-la.

- Oi Melissa – a cumprimentei meio sem jeito por não ter notado sua presença antes. Levantei e peguei minha mochila.

- Olá Sammy – respondeu ela friamente. Arthur já tinha se levantado e suspirou dando um beijo em meu cabelo.

- Vamos – disse ele em meu ouvido e pegou minha mão.

  O resto da manhã foi tranquila. Fiquei com medo no começo e até fui um pouco indiferente com o Arthur porque ainda me sentia horrível pelo que tinha feito com ele, mas aos poucos Arthur conseguiu – sem perceber – me fazer voltar ao normal. Quando a última aula do dia acabou, tomei coragem e fui falar com Richard.

- Richard? Posso falar com você? – perguntei quando o encontrei sozinho no estacionamento.

- Pode. O que foi? – respondeu ele rispidamente, me fazendo recuar um passo.

- Eu queria te pedir uma coisa – minha voz não saiu tão firme quanto eu pretendia.

- Pedir o quê? – ele cruzou os braços.

- Que não conte a ninguém o que aconteceu.

- E por que eu faria isso? – seus olhos se estreitaram.

- Por mim – sussurrei – por favor? – olhei para baixo. Ele ficou em silêncio e voltei a olhá-lo. Sua expressão agora era diferente. Seu rosto havia voltado ao normal e seus olhos eram gentis ao me encarar. Uma faísca de esperança surgiu dentro de mim.

- Não se preocupe, não contarei a ninguém. Arthur nunca ficará sabendo, se é por ele que está pedindo.

- Obrigada.

- Não precisa agradecer, você sabe que eu nunca te prejudicaria, não é? – perguntou ele erguendo a mão para me tocar. Eu deveria me afastar, mas ao invés disso deixei que ele repousasse sua mão em meu rosto.

  Ficamos nos olhando por alguns segundos, ele baixou a mão e balançou de leve a cabeça, como que para espantar algum pensamento.

- Ok, então. Tchau – disse indo para o carro sem ter esperado por uma resposta.

- Não se esqueça de que hoje você vai para minha casa – Arthur disse em meu ouvido enquanto eu abria a porta. Fechei os olhos por um instante e me virei.

- Como eu poderia esquecer? – coloquei a mão em seu rosto e sorri levemente.

- Às quatro esteja pronta. – ele pegou minha mão e a beijou, sem tirar os olhos dos meus.

- Às quatro – sorri.

- Esperei você sair pra poder te dar um beijo – disse ele.

- Um beijo? – perguntei com desdém.

- Algum problema? – ele ficou confuso com meu tom de voz.

- Só um? – fiz beicinho e ele abriu seu sorriso mais lindo.

- Quantos você quiser – ele se aproximava de mim enquanto falava.

- Não podem ser quantos eu quiser – afirmei mordendo o lábio.

- Por que não? – ele sorriu de lado.

- Por que você vai ter que ficar aqui para sempre – respondi encostando as costas no carro. Baixei a cabeça esperando por sua resposta.

- Não me importo nem um pouco – ele levantou meu rosto e se inclinou para mim. Aproximei-me mais dele e coloquei meus braços em volta de seu pescoço, enquanto delicadamente ele encostava seus lábios nos meus. Meu coração acelerou compulsivamente, minha respiração era rápida e enquanto ele me puxava para mais junto dele, ela se transformou em um ofegar louco. Sua mão direita estava em minhas costas – me prendendo a ele – enquanto a outra repousava delicadamente em meu rosto. Minhas mãos moveram-se cobiçosas por seus cabelos louros e lisos, o prendendo ali, cada centímetro de seu corpo no meu.

  Quando eu já estava a ponto de desmaiar, ele libertou meus lábios, só para traçar contornos em meu pescoço com os dele.

- Arthur, por favor... – protestei baixinho após recuperar um pouco o fôlego.

- O quê? – sussurrou ele em minha pele.

- Nós... Estamos... No colégio. – eu falava com dificuldade

- Não estamos fazendo nada de mais – ele beijou o canto de minha boca.

- Eu sei... Mas... Não é apropriado.

- Quer que eu pare? – perguntou ele, seus lábios levemente nos meus.

- Não... Mas é preciso... Eu tenho que ir... Pra casa me arrumar... – eu não estava nem conseguindo concluir uma frase! Santo Deus, como ele conseguia fazer isso comigo?

- Você é linda, não precisa de tanto tempo – sussurrou ele, novamente beijando meu pescoço. Tive que reunir todas as minhas forças para conseguir afastá-lo.

- Realmente preciso ir – coloquei minhas mãos em seu rosto e beijei seus lábios rapidamente. Sua mão ainda estava em minha cintura e ele me puxou para si. Coloquei dois dedos em seus lábios perfeitos – Tenho que ir, quer que eu chegue atrasada? – perguntei com um sorriso malicioso.

- Se for chegar atrasada porque estava comigo, não me importo – respondeu ele olhando intensamente em meus olhos. Tive que respirar fundo pra poder obrigar meu corpo a sair do contorno de seus braços.

- É um convite muito tentador, mas não posso aceitar.

- Vai estar pronta às quatro? – perguntou ele enquanto eu entrava no carro. Abri a janela para ver seu rosto.

- Só se me deixar ir embora.

- Está bem, pode ir – desistiu ele com um suspiro – Até mais tarde.

- Até – sorri. Liguei o carro e dei ré. Arthur ficou no mesmo lugar, enquanto me observava dirigir pelo estacionamento agora vazio.

  Por todo o caminho para casa ele permaneceu em minha mente, o que me deixou satisfeita



Romance de:


Continua...

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