"Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.
City of Angels
- Sempre te acharei - ele pôs a mão em meu rosto, causando arrepios em minha pele. Seus olhos arderam nos meus, as faíscas passando entre nós. 
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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. 
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4 - Noite Ruim

 Acordei mais cedo do que o normal, devido ao barulho que a chuva fazia ao bater na minha janela. Eu não tinha dormido bem, na verdade eu pouco dormi, parecia que o sono nunca chegava e fiquei me revirando na cama, além deter tido a sensação de que algo me observava. O resultado dessa noite foi uma cara de velório e um cansaço horrível pela manhã. Levantei-me da cama, peguei minhas coisas no guarda-roupa e fui para o banheiro, pelo menos eu teria mais algum tempo debaixo do chuveiro antes da Nathália começar a berrar pela casa.

- Sammy, o que você faz acordada há essa hora? – perguntou meu pai saindo do quarto dele. Ele acordava mais cedo do que nós, então esse era o horário dele no banheiro. Eu havia me esquecido desse detalhe.
- Ai pai desculpa. Eu tinha me esquecido que você acorda mais cedo que a gente.

- Não, tudo bem. Vá tomar banho, eu vou fazer o café. Coloque o chuveiro elétrico de modo que saia água gelada, vai ajudar você a acordar – disse ele indo em direção a escada.

- Obrigada pai – entrei no banheiro e fiz o que ele mandou. Ajudou muito, a água gelada fazia meus nervos entrarem no modo “ligado”. O sono havia ido embora, mas quando saí de baixo do chuveiro, o frio percorreu meu corpo e saí do banheiro congelando e tremendo. Grande ideia pai, num dia congelante como esse você me manda tomar banho de gelo, pensei enquanto corria enrolada numa toalha para meu quarto para me vestir com algo que pudesse me aquecer. Vesti uma blusa roxa, não era muito quente então coloquei um casaco preto por cima – ia me ajudar a não perder calor - coloquei minha calça jeans e peguei minha bota sem salto depois que calcei a meia. Depois de concluir que estava frio demais para prender meu cabelo num rabo de cavalo, o enxuguei e penteei-o até que ficasse bem liso. Coloquei um prendedor na bolsa só por garantia. Quando acabei tudo, peguei minha mochila e fui tomar café.

- Que cheiro bom, o que você fez pai? – perguntei descendo os últimos degraus.

- Panquecas com geléia de amora, mas também fiz com pasta de amendoim – ele respondeu enquanto colocava o café em sua xícara.

- O cheiro está ótimo. E a Nathália?

- Já está no banheiro.

- Pai, você pode me levar para o colégio?

- Por quê? Algum problema com o carro?

- Não, é que ontem a noite nevou e meu carro não tem correntes de neve, então como você vai levar a Nathália, pensei que podia pegar uma carona.

- Não se preocupe, ontem à noite depois que você foi dormir, coloquei correntes os pneus. Foi difícil encontrar, todas já tinham acabado, mas um amigo meu do trabalho me indicou um lugar.

- Ah, então está bem. Obrigada. – agradeci enquanto ele se levantava para lavar a louça.

- Por nada. – ele sorriu pra mim, depois virou o rosto para a escada. - Nathália vamos logo, se não você vai ter que ir com a sua irmã de novo e ainda vai se atrasar – Chamou ele mais alto.

- Pai, não dá ideia pra ela, por favor – Gemi enquanto terminava de mastigar o último pedaço.

- Já estou aqui, vamos – Nathália gritou descendo as escadas

- Você já tomou café? – perguntei passando por ela para ir escovar os dentes

- Já.

- Ok! Tchau pai, até mais tarde pestinha – falei do primeiro andar

- Até... Ei, eu não sou uma pestinha!

- Nathália vamos, você pega no colégio cedo que sua irmã. Até logo filha! – fui escovar os dentes, depois que acabei dei uma última olhada no espelho e desci para ir embora. Olhei minha mochila para ver se não estava faltando nada e – com cuidado para não escorregar no gelo – fui até o carro. Olhei os pneus e as correntes eram novinhas, todas cromadas. Entrei no carro satisfeita, teria de me lembrar de agradecer novamente. Liguei o aquecedor, troquei o CD e me dirigi ao colégio sem medo de derrapar na estrada.

- Oi Sammy! – Sophia cumprimentou assim que desci do carro.

- Olá Sophia!

- O que você fez ontem à noite? – perguntou ela me analisando

- Hã? Por que você está perguntando isso? – Respondi confusa

- Amiga você tá com uma cara de quem...

- Passou a noite inteira sem dormir. - completei sua frase - É, eu sei disso.

- Eu realmente não pensei e não ia dizer isso, mas tudo bem. Vamos para a aula

- Vamos.

 As aulas se passaram arrastadas e foi difícil conseguir me concentrar. Quando começou a última aula antes do almoço eu já estava totalmente esgotada. Eu ia ter que largar mais cedo, eu realmente precisava descansar. Quando o sinal tocou, peguei minhas coisas e fui apara o refeitório tentando me manter acordada.

- Nossa Sammy, o que foi que aconteceu? –Ashley perguntou espantada a me ver.

- Não consegui dormir a noite toda, mas de manhã eu não estava assim tão ruim – respondi me sentando.

- Sinceramente não acho que você vá aguentar até o final do dia – disse o Bryan.

- Eu também acho, é melhor você ir para casa – aconselhou a Melissa com um surto de amizade na voz. Talvez ela só quisesse se ver livre de mim.

- É, eu sei disso. Quando o intervalo acabar, vou à secretaria pedir autorização.

- É melhor mesmo você ir para casa. Você está mal Sammy – Anita falou.

  Deitei a cabeça na mochila, os braços cruzados dando altura.

- Quem está mal? – ouvi Arthur sentando ao meu lado – Oi Sammy – cumprimentou ele em meu ouvido. Como eu estava de cabeça baixa e virada para o lado oposto ele não pôde ver meu rosto, se não, já saberia de quem estavam falando.

- Errr... oi – respondi meio grogue.

- Sammy?! O que houve? – ele estava alarmado.

Quem respondeu por mim foi a Bianca.

- Ela não conseguiu dormir, Arthur.

- Por quê?

- Não sei.

- Sammy, o almoço daqui a pouco acaba, por que você não vai pedir autorização? – sugeriu Richard

- Tá bom Rick – levantei com cuidado para não ter o risco de desmoronar ali mesmo de tanto sono. Acho que esse movimento letárgico chamou a atenção de Arthur.

- Sammy, eu te acompanho. Você vai pedir autorização para ir embora não é?

- Sim. – respondi colocando a mochila nas costas – Não precisa me acompanhar Arthur, eu posso ir sozinha, além do mais, você vai perder aula. – inventei a desculpa. Não queria que Arthur fosse comigo, eu sentia um frio na barriga e não era uma sensação boa.

- Negativo. Eu vou com você. – ele se levantou pegando a mochila – Vamos

- Tá – desisti.

- Ash, pega a chave do meu carro, se acabarem as aulas e eu não tiver voltado, você dirige. – ele jogou as chaves pra ela.

- Pode deixar. – ela se endireitou na cadeira e deu continência - Até mais! – ela sorriu. Arthur revirou os olhos e me seguiu.  Fomos para a secretaria e ao contrário do que eu imaginava não ligaram para o meu pai nem proibiram Arthur de ir comigo.

- Samantha? – chamou a Sra. Holmes quando eu já estava saindo da secretaria.

- Sim? – virei para ela

- Sua irmã passou aqui e deixou um recado, disse que só ia voltar de noite porque ela vai para casa de uma amiga estudar.Que ótimo, agora eu vou ter que ir com ele para casa. Algo subiu e desceu dentro de mim, deixando um rastro frio e quente.

- Ok. Obrigada. – saí da secretaria direto para o estacionamento.

- Sammy para onde que você pensa que vai? – perguntou Arthur meio aborrecido quando chegamos ao meu carro.

- Para casa – respondi confusa.

- Você vai dirigir? – ele levantou as sobrancelhas.

- Sim - respondi confusa.

- Você só pode estar louca. Você está caindo de sono, como vai dirigir?

- Eu vim para a escola dirigindo, Arthur.

- Mas eu tenho certeza que você estava em melhores condições, seu pai não iria te deixar dirigir nesse estado. Agora para com essa teimosia e me dá a chave do carro.

- Sem chance – disse com frieza.

- Samantha... se você dirigir do jeito que está, poderá causar um acidente. Agora me dá essa chave. – ele controlava a respiração para falar suavemente comigo.

-Arthur... – ia contestar mas ele me interrompeu.

- Sammy, por favor. Já não basta a floresta? – disse ele unindo as sobrancelhas.

- Está bem, toma – estendi a mão para ele pegar a chave e fui para o lado do carona. Estava chuviscando e eu não tinha percebido, então quando vi o acúmulo de gotas em minha roupa tentei enxugá-las com a mão.
- Gostei do carro, que modelo é esse? – ele perguntou enquanto saíamos do colégio

- Chevrolet Life – respondi surpresa ao ver o dono de um Jaguar que era umas cinco vezes mais caro e mais sofisticado que o meu, havia gostado dele. O muro entre nós havia diminuído, o que me deu certo alívio. A chuva havia cessado, restringindo-se a poucas gotas caindo no pára brisas.  Abri a janela e fiquei olhando o céu nublado, a estrada que passava por nós e sentindo o vento batendo em meu rosto. Era uma sensação boa.

- Chegamos – ele desligou o motor.

- Obrigada. Posso fazer uma pergunta? – ele olhou para mim, esperando – Como você vai voltar para casa? – perguntei curiosa.

- Não se preocupe. Vamos entrar? Está meio frio aqui – Ele me encarou por um segundo - seus olhos penetrantes e insondáveis - e saiu do carro. Eu não consegui responder, e em um segundo ele estava abrindo a porta do carro para mim.

- Obrigada – agradeci saindo do carro.

- De nada. – andei em direção a varanda com ele atrás de mim, abri aporta e entrei. Mas quando fui tirar o casaco, ele me interrompeu. Arthur segurou minha mão direita e a puxou delicadamente – uma corrente elétrica percorrendo meu corpo - fazendo com que eu me virasse para ele. Quando olhei seu rosto, seus olhos ardiam nos meus e sua expressão era indecifrável.

  Ele deu um passo em minha direção - nossos rostos há poucos centímetros - e pude sentir sua respiração calma e apressada. Sua mão tocou meu rosto – que ficou quente com seu toque – e vi que seus olhos iam dos meus à minha boca em um intervalo de tempo irregular.

  Não tive muito tempo para pensar. Meu coração bateu mais forte e todas as sensações que me dominaram durante todo esse tempo viraram cinzas ao tocar sua pele em chamas.

  Senti que meu corpo me guiou até ele, a distância sendo diminuída a uma fina camada de atmosfera.

 Sua boca modelou-se em um leve sorriso, como se eu tivesse dado alguma resposta e em um segundo seus lábios estavam nos meus, macios e quentes.

  A mão que segurava a minha desapareceu e surgiu em minha cintura, puxando-me para que o ar entre nós não mais existisse. Minhas mãos passaram por seus braços, contornando seus músculos definidos e pararam em seus cabelos, onde meus dedos se prenderam. Seus lábios moviam-se delicadamente nos meus e senti todo o meu corpo colado ao seu.


♥ ♥ ♥

  Arthur me afastou subitamente, sua respiração acelerada. Seu rosto estava confuso, uma expressão de revolta em seus olhos.

  Extremamente confusa, o encarei.

- Arthur? – disse após um instante.

  Ele soltou minhas mãos de seus cabelos – meu corpo reagindo a seu toque – e se afastou.

- O que foi? – insisti e dei um passo em sua direção.

- Não se aproxime – ele colocou a mão entre nós. Sua voz era rouca.

- O quê? – perguntei, balançando de leve a cabeça.

- Isso foi um erro. Um grande erro – ele decretou.

- Na...

  Antes que eu terminasse, Arthur abriu a porta e foi para seu carro, deixando-me estagnada e atordoada. Um segundo depois, o Jaguar passou na frente de minha casa e desapareceu na rua.

  Sem saber o que tinha acontecido e sem raciocínio o bastante para sentir raiva, andei até meu quarto, deitei-me na cama olhando para o teto e tudo ficou escuro.


♥ ♥ ♥

- UAU! O que você fez? –Nathália gritou vindo para a cozinha

Como o silêncio estava bom, pensei – Eu fiz lasanha- respondi em voz alta.

- O cheiro e a cara estão ótimos, Sammy - elogiou meu pai se sentando

- Como foi o dia pai? - perguntei enquanto me servia.

- Foi normal. Nada de novo e o seu?

- Eu voltei para casa mais cedo. Como eu não tinha dormido bem, quase não me aguentava de tão exausta, então pedi autorização e vim dormir um pouco.

- Ah. Foi melhor você ter vindo do que ter dormido na hora da aula.

- É verdade – concordei – Por que está tão calada Nathália?

- Por nada. Eu só estou comendo.

  Após o jantar a Nathália foi lavar a louça e eu subi para tomar um banho e escovar os dentes. Enquanto a água percorria meu corpo, minha mente relembrava cada momento da tarde, cada detalhe. O rosto de Arthur antes e depois de me beijar, além de sua saída incompreensível. Mas minha lembrança foi interrompida pela chata da minha irmãzinha-querida-problema.

- Deixa um pouco de água pra mim tá? E outra, sai logo daí porque eu quero tomar banho ainda hoje! – berrou ela do lado de fora

- Não se preocupe pestinha da minha vida, o dia só acaba à meia noite, tem muito tempo ainda, relaxe! – eu já estava terminando de escovar os dentes. Quando guardei tudo e sai do banheiro ela estava com a cara fechada me esperando na porta.

- Obrigada pela consideração – disse ela entrando no banheiro.

- De nada, disponha – eu já estava no quarto, então não pude vê-la. Coloquei minha roupa de dormir e desci para colocar a toalha no cesto. Depois que voltei para o quarto, deitei na cama torcendo para adormecer logo. Que garoto maluco!


♥ ♥ ♥

- Droga, cadê meu livro? – procurei na mochila e não achei nada.

- Você dever ter se esquecido de pegar – Sophia disse enquanto íamos para a próxima aula.

- Não, eu peguei. Estava com ele na aula agora – falei remexendo pelos bolsos.

- Então está na sala – ela disse. Relaxei os ombros, desistindo.

- Vou na sala.

  Andava pelo corredor vazio fechando a mochila, quando ouvi vozes alteradas.

-Você não vai tocar nela, entendeu? – a voz soava no corredor.

- Se você não tivesse sido insistente, a essa hora eu já a tinha levado comigo – uma voz rude – que me deu arrepios inconscientes de medo – ecoou.

- Você nunca vai conseguir – alguém falou com raiva e ouvi um barulho, como se alguém tivesse esbarrado em uma cadeira.

- Você não é o segurança dela. Em alguma hora você vai falhar. Agora me solte!

- Mantenha-se longe – sua voz saiu quase como um urro de fúria.

- Eu tentei levá-la naquela hora. Foi muito fácil fazê-la agir a meu favor. Eu a estava conduzindo em todos os momentos de desespero. Tinha tudo em perfeita ordem, mas então você chegou. Tentei tirar seu último suspiro, mas o escudo que a envolvia era impenetrável, sem falhas. Mas não chegou ao final.

- Não ouse...

  Entrei na sala e vi Arthur de costas. Suas mãos estavam no ar, segurando algo invisível. Seus ombros caíram e uma de suas mãos esmurrou o tampo da mesa.

- Arthur? – perguntei.

  Ele se virou e ao encarar meus olhos vi uma raiva avassaladora. Seus olhos de um azul quase negro. Dei um passo para trás.

- Você está bem? – respirei e avancei lentamente alguns passos.

- Há quanto tempo está aí? – ele ignorou minha pergunta.

- Acabei de chegar. Tinha alguém com você. Ouvi duas vozes – olhei para os lados. A sala estava vazia.
- Você anda ouvindo coisas – ele cuspiu as palavras e passou por mim marchando.

  Meus olhos focalizaram em uma névoa escura além da janela de vidro à minha frente. Estreitei os olhos e avancei um passo, a densa camada de ar escuro dissolvendo-se na atmosfera. Corri atéa mesa e peguei o livro.

- Por que demorou tanto? – Sophia disse quando entrei na sala apressada e me sentei ao seu lado.

- Você acha Arthur Mason sinistro? – perguntei.

- O quê? – ela estava confusa.

- Não sei. Alguma coisa nele me diz que tem algo de errado ali. Não percebeu?

- Não – ela respondeu com certeza me achando uma maluca – Você está branca.

- Vi uma sombra do lado de fora da janela quando fui pegar o livro – disse encarando o quadro.

- Sammy, você anda vendo muito filme de terror e suspense sobrenatural. Isso é o que dá ficar vendo Dean e Sam Winchester e demônios até tarde.

  Olhei para ela por alguns segundos e concluí que talvez fosse mesmo verdade.

- Preciso falar com você – Arthur me abordou quando eu estava guardando meus livros no armário.

- O que você quer? – perguntei na defensiva.

- Aqui não – ele parecia nervoso.

- Não vou a lugar algum com você. A propósito – fechei a porta do armário com um pouco mais de força que o necessário – o que foi aquilo ontem?

- O quê? O beijo? – ele pareceu ter sido tirado de uma linha de raciocínio.

  Levantei as sobrancelhas.

- Não tenho tempo para falar disso agora. Precisa vir comigo – ele segurou meu braço.

- Não – a pele onde ele tocou esquentou e senti um calafrio percorrer meu corpo.

- Sammy? – alguém chamou. A mão em meu braço deslizou e olhei para trás a tempo de ver Richard se aproximando.

- Oi – disse com a voz meio trêmula.

- Você fez o trabalho sobre genética?

- Fiz, por quê?

- Posso ser seu par hoje? – ele parecia se desculpar.

- Claro, Rick. Tenho que pegar uns livros com você... – deixei Arthur encostado no armário e saí com Richard, agradecendo por ele ter aparecido.

  Olhei para trás e vi Arthur me encarando, os olhos uma fenda.


♥ ♥ ♥

  Quando todas as aulas acabaram, andei até a biblioteca no segundo andar do prédio. Os funcionários já estavam preparando-se para ir pra casa, isso me deu a certeza de que talvez a biblioteca já estivesse fechada.

  Andei rapidamente pelos corredores e cheguei a tempo de ver o que parecia ser o último aluno sair com um livro na mão.

- A biblioteca já vai fechar – ele me disse.

- Vou ver se consigo pegar um livro – empurrei a porta antes que ela se fechasse por completo.

- Sammy, querida. Já iremos fechar – a Sra. Cooperman disse gentilmente.

- Eu sei, me desculpe. Mas preciso muito pegar um livro. É para um trabalho – mordi o lábio.

- Está bem. Quem poderá lhe ajudar é o rapaz que está trabalhando aqui. Não posso mais ficar o dia todo subindo e descendo escadas, a idade um dia chega para todo mundo – ela sorriu levemente.

- Obrigada – passei por algumas das mesas de estudo e subi o lance de escadas que me levaria aos livros.
  
Um rapaz estava sentado em uma poltrona, os pés apoiados na mesa de madeira escura cheia de livros e papéis à sua frente. Ele lia um livro cujo título era ilegível.

  Aproximei-me da mesa.

- Com licença?

  Suas mãos abaixaram lentamente, seu rosto tornando-se visível.

  Seus cabelos eram lisos e negros numa desarrumada harmonia, olhos azuis cujos formatos eram perfeitamente simétricos e charmosos e sobrancelhas grossas dando-o um ar misterioso.

- Em que posso ajudar? – sua voz era baixa e sedutora.

- Preciso de um bom livro de poesias medievais.

- Da época dos grandes cavaleiros? – ele jogou o livro na mesa.

- Sim.

- Desculpe-me, sou Iron Reidy – ele se levantou - deixando à mostra sua altura e seu físico definido - veio até mim e beijou minha mão, encarando meus olhos surpresos – Tenho um livro pra você.

  Após recuperar o eixo, o acompanhei pelas estantes - repletas de todas as ciências - que preenchiam o espaço. Paramos quando já estávamos quase chegando ao final.

  Iron entrou em um dos corredores e o segui. Enquanto ele procurava pelo livro, fiquei de costas pra ele e olhei para os títulos à minha frente. Eram obras muito antigas, que de nome não conhecia.

  Senti seu corpo tocar o meu, de repente uma centelha de fogo percorrendo minhas veias.

- Aqui – Iron sussurrou perto de meu ouvido, seu braço passando por meu quadril para pegar o livro.  Virei para ele e me surpreendi ao vê-lo tão perto. Iron abriu o livro e leu uma das poesias escritas à pena, numa caligrafia digna da época.

- “O suave batimento de suas asas cessou
E o coração à sua frente frenético palpitava
Um sorriso avassalador seu rosto invadiu
E na noite sem lua, estrelas modelaram-se em mínimas penas
Seu olhar lançou-lhe faíscas sedutoras
A labareda enroscando-se a ela, fazendo-a queimar

- O que queres de mim? – a voz sussurrou tentando libertar-se

- Não temas – o anjo tomou-a nos braços, envolvendo-a com suas asas negras, um beijo febril a fez se entregar.

O véu obscuro da noite, em segredo lamentava
Enquanto o anjo com um toque a roubava a alma.
Um corpo repousava na relva negra
E asas voltaram a bater.
O anjo não era o amor;
O anjo era a morte. ”

Um calafrio percorreu meu corpo e Iron fechou o livro com as duas mãos, os olhos azuis claros fitando meu rosto. Um sorriso tão avassalador quanto o do anjo encheu seu rosto e ele me entregou o livro de poesias.

- Pena que o autor seja desconhecido – ele deu de ombros - Creio que vá ajudar – sua voz me causou arrepios.

  Mas não eram de medo.

Algo além do que eu podia identificar no momento.


♥ ♥ ♥

- Samantha? – alguém me chamou quando estava no estacionamento. Chovia e eu estava correndo, quando virei vi uma sombra aproximando-se.

- O que quer? – perguntei em voz alta.

- Preciso falar com você – ele se aproximou e senti meu coração apertar.

- Amanhã.

- Não. – ele havia chegado perto de mim e segurou meu braço quando virei.

- Está chovendo, amanhã você fala, Arthur! – tentei escapar. Um calafrio de medo percorreu meu corpo.

- Por que está fugindo de mim? – ele parecia frustrado. Seus olhos estavam estreitos por causa dos baldes de água que eram despejados do céu, seus cabelos pingando.

- Não estou – disse na defensiva, meus dentes começando a tremer.

- Está sim - seus olhos encararam os meus e sua voz soou como um decreto.

- Você me dá medo –disse. Sua mão se afrouxou em meu braço e logo não estava mais lá. Virei às costas e corri até meu carro.


♥ ♥ ♥

  Eu estava na floresta. A mesma em que me perdi há pouco tempo. Mas eu não era a garota que andava pela escuridão, eu só assistia, era um personagem de fora.

  De repente ouve um barulho e a garota começou a correr, o medo pulsando em seu sangue e depois um barulho de folhas se mexendo, um gemido de dor e silêncio.

 Vi-me querendo ir até lá, ver se ela estava bem, mas quando cheguei à ela, um rapaz a colocava nos braços, aninhando-a protetoramente em seus músculos. Um par de olhos azuis em fúria num arbusto perto dali, encarava a cena. O garoto passou por mim, seu rosto distorcido em uma preocupação dolorosa.

  E pude ver quem eram.

  A garota, ferida e inconsciente era eu, que estava nos braços de Arthur.

- Não tenha medo, estou com você. Eu vou te proteger – ele sussurrou antes de beijar meu rosto.

Olhei para os olhos azuis e o vi saindo dos arbustos. Sua calça jeans estava bem abaixo da linha da cintura, o corpo musculoso à mostra. Havia algo atrás dele que de início não soube identificar, era escuro demais.

  E então vi.

  Um par de asas negras estava encravado em suas costas e uma luz prateada o envolveu.

 Não consegui saber quem era, mas os olhos eram familiares demais.

  Num segundo a luz iluminou o lugar e depois só havia escuridão.

  O anjo negro se fora.

Romance de:

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