"Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.
City of Angels
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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. 
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♥  ♥ ♥



6. REVELAÇÃO

- Bom dia – Iron falou atrás de mim enquanto eu trancava a porta do carro. 

- Bom dia – disse. Ele beijou a lateral de meu pescoço e virei para ele.

- O que você acha de sairmos hoje para... – ele pegou minha mão e me girou, puxando-me para seu peito depois – Dançar – ele sorriu.

- Não sei. Tenho que colocar umas tarefas em dia e estudar para os exames – fiz cara de repulsa.

- Ainda bem que já passei dessa fase

- Quantos anos tem? – perguntei curiosa.

- Vinte e três, vamos dizer assim – ele piscou – Acho que a garota quente que está em meus braços e não quer sair, deve ir pra aula – ele me soltou.

- Eu não queria sair?

- Não, não queria – Iron foi em direção ao colégio 

- Se eu for, o que vamos dançar?

- Passaremos a noite nos balançando com Justin Bieber – ele falou como se estivesse contando um segredo – Exercitarei meu cérebro.

- Mas...

- Baby, baby, baby – ele disse e andou em direção ao colégio.

- Louco – disse ajeitando a mochila nas costas.

- Gosto dele – Sophia disse se aproximando.

- Eu sei.

- Ele é sarcástico e...

- Ok. Parando por aí.

- Você precisa comprar o ingresso.

- Pra quê? – perguntei enquanto entrávamos no colégio.

- Vai ter show de 30STM daqui a duas semanas.

- Droga.

- Por quê?

- Estou sem grana, torrei minha mesada com sapatos e calças.

- Deixe-me adivinhar. Você está pegando a compulsão da Myllena de comprar sapatos que parecem arranha céus e nunca usar porque só de olhar seu equilíbrio vai pro espaço?

- Ao contrário da Myllena, eu uso minhas torres de Babel.

- Usa. Quando vai ficar sentada o tempo todo - Sophia disse entrando na sala.

  Não vi Arthur o dia todo, mas senti algumas vezes calafrios. Talvez eu já estivesse ficando paranóica.

  Cheguei em casa mais cedo que o normal e quando fui fazer o jantar, tinha um recado a porta da geladeira.

         “Trarei uma pizza. Ficaremos sem seu tempero por uma noite.”
                                                                           Beijos, Rudolf

  Voltei para meu quarto e peguei os cadernos. Era uma hora vaga. Coloquei todas as tarefas em dia, minha cabeça esquentando com as questões de física, que por fim consegui fazer. Assim que terminei todas as tarefas, resolvi pegar o livro de história e estudar o assunto da semana.

Eu estava lendo sobre Joana d'Arc quando a janela da parede atrás de minha cama abriu, um vento congelante passando por ela.

  Assustada, corri até ela e olhei para a rua. Não havia nada.

  Tentei prender minha atenção novamente ao livro, mas minha concentração tinha ido para o espaço.

 Andei de um lado para outro do quarto quando enfim concluí que não dava para ficar trancada em casa.

- Vai sair? – papai perguntou com duas caixas de pizza na mão.

- Vou. Tenho limite? – perguntei de cara feia.

- Não – ele respondeu surpreso.

  Aproveitei e corri para a porta.

- Espere, depende! Se for... – eu já estava no carro.

  Dirigi pelas ruas européias de Boston até a casa de Iron. Eu não sabia o porquê, mas eu sentia que era observada todos os dias e noites. A imagem de Arthur me veio à cabeça e um calafrio atravessou meu corpo.

- Sammy? – Iron disse ao abrir a porta. Parecia surpreso e feliz.

- Oi.

- Entra. Você não deveria estar estudando?

- Não consigo ficar em casa.

- Se quiser, posso ensinar algumas matérias. Sempre fui bom em Biologia e Química – ele sorriu torto.

- Talvez depois – disse sem compartilhar de sua piada.

- O que aconteceu?

- Tenho uma sensação ruim – suspirei.

- Conte-me – sua voz era baixa.

- Sinto como se alguém observasse todos os meus passos. Me sinto sufocada as vezes.

- Relaxe – ele levantou o canto da boca e pegou minha mão.

  Aproximei-me dele e seus braços me envolveram, a segurança invadindo meu corpo.

- Me sinto protegida com você – disse em seu ouvido.

- Eu sei – Iron beijou meu pescoço repetidas vezes. Afastei-me dele por um segundo e seus olhos fitaram meus lábios.

- O que foi?

- O desenho de sua boca. É irresistível. O modo como ela se movimenta quando você pronuncia as palavras e isso – ele a tocou – O jeito como sua língua toca seu lábio inferior e seus dentes da frente o puxam é... – suas palavras sumiram e sua boca abraçou a minha.

  Iron era um imã. Meu corpo colava ao dele a cada vez que seu toque me fazia queimar. E eu sempre queria mais, sempre o queria mais perto. Eu não tinha hora para voltar para casa e ainda era cedo, meu pai devia estar jantando agora.

  Iron apertou a base de minhas costas e um arrepio atravessou meu corpo. Não era ruim.

  Prendi meus dedos em seus cabelos enquanto ele me beijava, seus lábios urgentes e quentes nos meus.

  Só notei que havíamos andado quando minhas costas tocaram no corrimão da escada.

  Iron soltou meus lábios, olhou para o andar de cima e depois para mim. Puxei a gola de sua camiseta preta e o beijei. Senti meus pés fora do chão e eu estava em seus braços, ele subindo as escadas sem nenhum esforço. Seu chute abriu uma porta e logo depois eu estava deitada, seu corpo em cima do meu.

  Nada era como aquilo. Eu nunca pensaria nisso com outro, mas Iron me aprisionava a ele. Ele conseguia me seduzir de uma forma inescapável. E o pior. Eu queria estar ali.

  Senti seus dedos em minhas costas e um nó de minha blusa sendo desfeito. Quase em chamas, levantei sua camisa – tirando-a – seus músculos ficando visíveis. Minhas mãos percorreram seu peito, sentindo o contorno de seus músculos e um gemido baixo soou em sua garganta.

- Você me deixa maluco – ele sussurrou em meu ouvido e senti suas mãos percorrerem minha cintura, chegando aos botões de meu jeans.

Não Sammy - algo dentro de mim falou.
  
Segurei sua mão. Iron olhou para meu rosto, um sorriso leve nos lábios.

- Quer fazer isso? – sua voz baixa me puxava.

- Dane-se – grunhi. Em um movimento eu estava por cima dele, meus cabelos caindo ao lado de meu rosto.
   
Iron sorriu maliciosamente e me inclinei, beijando seu pescoço, seu rosto, até chegar a seus lábios. Minhas mãos desataram o cinto da calça dele.

Sammy sabe que é errado – a voz voltou.
Concentre-se. É só desejo, nada mais que luxúria.
 
  E a voz sumiu.

  Congelei. Toda a capa de fogo virando cinzas. Encarei os olhos em brasa de Iron e saí de cima dele.

- Sammy, o quê...? – ele também levantou.

- Eu não posso.

- Não pode – ele se aproximou um passo – ou não quer? – outro passo.

- Não sei.

- Posso resolver isso – o canto de sua boca se ergueu e seus lábios tocaram meu pescoço, suas mãos me puxando para si.

- Droga... – senti que eu desistia. Meu corpo voltara às chamas. Iron me ergueu, enrolando minhas pernas em sua cintura, uma de minhas mãos em seus cabelos negros, enquanto a outra apertava suas costas. Fui colocada no chão e com um passo para frente eu estava deitava, nós dois atravessados na cama de casal. Sua mão estava em minha perna, eu a sentia atravessando o tecido e queimando minha pele.

Concentre-se.

- Não – disse beijando-o – Não! – saiu quase como um grito sufocado. Levantei dele e saí quase correndo pelas escadas.

- Sammy! – ele chamou descendo os últimos degraus. Virei para olhá-lo e meu corpo quis ir ao encontro dele. 

  Iron estava com a calça abaixo da cintura, os músculos à mostra. Pude sentir sua pele escaldante na minha, seus olhos ardendo nos meus, sua boca movimentando-se por meu pescoço, causando-me arrepios...

- Desculpe – mordi o lábio e saí porta afora. Entrei no carro e disparei pelas ruas. Quando um semáforo fechou, refiz o nó da blusa que ele havia desmanchado.

- O que deu em mim? – perguntei – Minha consciência tem vida própria. Não é possível! – grunhi.

- Francamente, Sammy. O que você tem na cabeça? – Sophia disse quando cheguei em casa e liguei pra ela.

- O que você queria que eu fizesse? – perguntei andando de um lado pra outro do quarto.

- Eu mereço – ela bufou.

- O que você faria? – desafiei.

- Tudo, menos estar ligando pra melhor amiga.

- Você estaria com ele – deduzi.

- Não, imagina! Ai, droga. – ela reclamou - Acabei de arrancar um pedaço do meu dedo. Sammy, ele é lindo, sarcástico, sexy, quente, não é mais um adolescente que depende dos pais e está caidinho por você. O cara tem vinte e três anos, você acha mesmo que ele só vai querer ficar de mãos dadas com você? Ai, ai, ai.

- O que foi?

- Acabei de colocar cicatrizante. Isso arde. Voltando. Acha que ele vai querer bancar a Barbie e o Ken?

- Não. – sentei na cama.

- Então...? – quase pude vê-la fazendo um sinal de entendeu? com as mãos.

  Silêncio.

- Você tem medo! É isso, não é?

- Não. Na verdade não. Mas, quando estava com ele ouvi vozes em minha cabeça que me mandavam parar. Era como se eu estivesse aprisionada em minha mente e tentasse controlar meu corpo.

- Nossa. Ele sabe mesmo dominar.

- Sim. Sophia, não sei. Era como se meu corpo tivesse sido roubado de mim e ele estava no comando.

- Olha, retire o que eu disse. Você não tem medo, mas também não está pronta. Eu gosto dele, mas ele não é seu estilo. Sabe quem seria um bom pretendente? – pude vê-la olhando para cima, pensando...

- Quem? – perguntei, querendo saber de seus devaneios.

- Arthur Mason – ela falou como um detetive relatando sua mais nova descoberta.

- Não – Não mesmo. Nunca!

- O irmão dele?

- Será que você pode parar? – disse sem paciência.

- Por quê?

- Não gosto de Arthur Mason – falar seu nome me deu uma onda de calafrios.

- Ok, Ok. Olha, vou terminar de pintar minha unha. Estou falando com você enquanto meus pedaços estão sendo devorados por esse alicate. 

- Ok. Tchau.

- Ei, escolha. Vermelho, vinho ou vermelho sangue?

- Vermelho sangue. Vai camuflar o sangue dos pedaços que você arrancou.

- Engraçadinha.
 

♥ ♥ ♥


  No dia seguinte escutei durante duas aulas as reclamações da Sophia e depois os seus conselhos. Já com a paciência sendo esgotada por sua tagarelice, virei o rosto e vi Arthur me encarando, os olhos uma fenda.

  O resto do dia foi normal. Tirando o incidente do laboratório de química – onde a professora me mandou esquentar a substância que acabou tocando fogo, me fazendo jogar o tubo de ensaio na mesa – tudo correu bem.

- Vou à Biblioteca Pública – disse saindo do laboratório tirando a bata – quer ir?

- Pra quê? – Sophia perguntou – Você tem uma vasta biblioteca aqui e um bibliotecário...

- E é justamente por causa dele que não quero ir lá – disse como se fosse óbvio demais.

- Ah. Olha, vai você. Não posso, tenho que ir ao médico com minha mãe.

- Está tudo bem?

- Sim. É o psicólogo dela. Minha mãe acha que tem algum problema de déficit de atenção – ela deu de ombros.

- Ah.

- Ela só inventou isso porque ele é bonito. Na verdade ele não é, mas tem charme.

- Já sei a quem você puxou.

- Ei, não fale assim. Sabemos usar bem nossos olhos. 

- Tchau.

  Andei pelo estacionamento vazio sentindo que alguém me observava.

  Olhei para os lados e não vi ninguém.

- Samantha, Samantha. Olha a paranóia chegando. – disse pra mim mesma.

- Sammy – um sussurro fantasmagórico chamou por mim.

  Num rompante virei-me e não havia nada, nenhuma pessoa no estacionamento. Senti que alguém me encarava e olhei para o colégio.

  Em uma das janelas – no alto – a mesma sombra que eu havia visto quando fui buscar meu livro na sala, me vigiava.

  Corri até meu carro e tentando normalizar a respiração disparei até a biblioteca.

 Era quase sete da noite quando saí. Ainda impressionada com o que havia acontecido à tarde, cuidadosamente andei até meu carro.

- Olá – Arthur estava encostado no capô. De onde eu estava só podia ver o contorno de seu corpo.

- O que diabos você está fazendo aqui? – perguntei com raiva e medo.

- Existe um velho truque que se chama seguir pessoas. Sempre funciona.

- O que quer?

- Essa pergunta é bem comprometedora. – ele se aproximou e pude ver seu rosto. – Venha – ele segurou meu braço e começou a andar.

- Onde está me levando? – perguntei enquanto ele me rebocava pelas ruas vazias e escuras.

- Pode me dizer o que veio fazer aqui sozinha? – ele falou entre dentes sem me olhar.

- Eu estava na biblioteca – disse – Me solte! – tentei fugir de seu aperto de aço.

- Você me dá nos nervos! – ele me puxou e minhas costas bateram na parede atrás de mim – Você sabe o que significa tenha cuidado? – seu rosto estava distorcido de raiva.

- O que...? – preparei-me para lhe dar uma resposta, mas passos começaram a soar na entrada da rua. Nós dois olhamos para o lado e depois eu estava sendo arrastada novamente por ele.

  Arthur me rebocou até a entrada de um hospital abandonado.

- Eu não vou entrar aí – disse puxando meu braço.

- Você vai sim! – ele me olhou e tive a certeza de que era melhor obedecê-lo.

- O que quer? – perguntei quando consegui achar um lugar onde meus pés tocassem só o chão.

  Um som parecido com estalar de dedos ecoou e depois as luzes estavam acesas. Estávamos na antiga recepção do hospital.

- Quantas vezes preciso lhe dizer que querem te matar?

- E quantas vezes terei que perguntar quem quer me matar? – questionei perto demais dele. Arthur estreitou os olhos e andou comigo até que eu me encostasse a uma parede.

- Se eu lhe soltar, vai me escutar? – seus olhos encaravam os meus.

- Vou – menti.

  E então ele me soltou. Tomei impulso e disparei pela antiga recepção, mas antes que eu chegasse à entrada, ele já estava lá. Tropecei em algo ao tentar frear e caí em seus braços.

- Como fez isso? – perguntei tomando fôlego.

- Você mentiu.

- Você está me assustando.

- Sammy, você tem medo da pessoa errada – ele parecia frustrado – Estou tentando te proteger do...

- Do?

- Iron Reidy.

- O quê? – quase soltei uma risada.

- Vi você sair da casa dele ontem. Você ficou louca? Sammy, ele é perigoso.

- Me prove – desafiei, meu queixo um pouco erguido.

- Posso te soltar?

- Sim. Quero ouvir suas lendas.

- Não são lendas – ele me soltou e passou por mim.

- Conheço Iron há... algum tempo. E ele não é humano.

- Acha que vou acreditar nisso? – cruzei os braços.

- Tem que acreditar – seus olhos eram sinceros – Iron é um... anjo.

- Então não tenho por que temer.

- Da morte – ele falou baixo. Meu corpo congelou.

- Como? – sussurrei. Aquilo não podia ser real. Não era.

- Cada pessoa tem sete anjos guardiões. Iron foi um guardião, mas um dia ele desejou sua guarda e várias outras humanas. Mas... alguém contou aos seus superiores, os arcanjos e sua pena foi se tornar um anjo da morte. Mas caso ele deseje quem ele tem que arrancar a alma, a única maneira de matá-la é unindo-se a ela... corporeamente.

- Isso é a mentira mais...

- Ele deseja você e ontem ele quase conseguiu. Já é a segunda tentativa, não é?

- Iron... ele não...

- Por que você é tão cega?! – ele gritou e sem saber como, eu estava novamente contra a parede.

- Ele não vai me matar! Isso é uma grande mentira! – tentei sem sucesso sair de seus braços.

- Não vai até você ir pra cama com ele! – havia um toque de nojo e ciúme em sua voz – É dele que você tem que ter medo.

- Prove que está falando a verdade – provoquei.

- Ele tentou te seduzir ontem.

- Isso não prova nada. Você faria a mesma coisa.

- Você está completamente enganada – seus olhos encaravam os meus – Eu nunca tentaria fazer você me entregar seu corpo para que eu te matasse. Sammy tem que acreditar em mim – ele franziu o cenho.

- Isso não tem sentido.

- Alguma parte sua já se perguntou se há algo de estranho nele.

- Não. – respondi – Mas todas elas tem certeza de que há algo de errado com você – ele me soltou e dessa vez não tentei correr – Por que eu acreditaria nas suas palavras? – olhei fixamente para ele. Arthur levantou a cabeça e a palma de suas mãos chocou-se ao lado do meu rosto.

- Por que sou completamente apaixonado por você.

  Minhas palavras esvaíram-se. Todas foram sugadas e em minha mente. Não havia restado mais nada, só o eco das palavras que eu acabara de ouvir.

- Você é um blefe – o empurrei – Iron não me machucaria, tenho certeza.

- Sammy...

- Não, Arthur – sinalizei com a mão para que ele parasse -  Não há como ser real. História de anjos caídos que matam suas vítimas... – balancei a cabeça – Não.

- Ele não é um anjo caído. Suas asas não foram arrancadas. Ele é um anjo e suas asas são negras, assim como uma marca que ele tem no interior do braço esquerdo no formato de pena. Procure, vai ver que não menti.

- Arthur, pare com isso – disse entre dentes.

- Você não o ama, diga que não – ele parecia implorar.

- Claro que... – Não. Eu não o amava. Iron era alguém com quem eu me sentia protegida e por quem meu corpo ansiava. Mas amor? Não, nem um pouco. 

  Arthur se aproveitou de minha falta de resposta e se aproximou, repousando a mão em meu rosto.

- Acredite em mim – ele sussurrou fitando meus olhos – Iron quer te matar.

- Ele não – afastei sua mão de meu rosto e saí do hospital, correndo até chegar a meu carro.

♥ ♥ ♥

  Eu estava na floresta. Era o mesmo sonho de tempos atrás. Mas quando o anjo saiu dos arbustos, pude ver seu rosto. Realmente aqueles olhos eram familiares.

  Iron me encarava com fúria e depois uma luz prateada o tirava de meu sonho.

   Era quarta feira e desde a sexta – quando eu tinha tido uma conversa desagradável num lugar pior ainda com Arthur – que eu não via Iron. Decidi acabar com minha paranóia. Arthur estava mentindo, era tudo uma invenção.

  Assim que cheguei ao colégio, decidi ir até a biblioteca. Eu ia esquecer que aquela discussão num hospital abandonado havia acontecido e tocar minha vida.

  A Sra. Cooperman não estava na biblioteca, assim como ninguém. Torci para que Iron já estivesse. Subi as escadas silenciosamente, querendo lhe fazer uma surpresa e vi alguém debruçado sobre a mesa dele. Era Arthur. Escondi-me em uma das estantes e fiquei observando.

- Aqui está seu colar – Arthur jogou a corrente que eu havia lhe entregado na mesa de Iron. – O que você foi fazer no quarto dela?

  Iron se levantou com um sorriso perverso nos lábios.

- Precisava que ela odiasse você e consegui. Fiz sua mente trabalhar ao meu favor. Ela não tem medo de mim. Eu transferi seu pavor para a pessoa certa.

- Iron, você não vai conseguir.

- E o que você vai fazer? Ela tem plena confiança em mim e falta pouco para o que eu quero. Ela é quente, sabia? – ele sorriu – Pena que nunca vai saber como é – ele deu de ombros.

- Você... – Arthur avançou um passo – Se você tocar nela... – ele pegou Iron pela camisa.

- Ei, ei, ei. Evite o contato – Iron recuou um passo e ao ajeitar a camisa pude ver a marca da qual Arthur havia falado – É Armani. Não amasse. Só Sammy pode fazer isso. Na verdade ela tira antes de amassar.

- Não vou cair no seu jogo. Mas quero saber. Como conseguiu ficar assim sem ele – Arthur apontou para algo na mesa. Devia ser o colar.

- Tenho outro. O verdadeiro. – ele o tirou de dentro da camisa – Sou inteligente Mason. Sabia que ela nunca o viu? Eu tirava o pingente e fazia de anel. A propósito, sua amada é linda dormindo. Eu velei seu sono. A morte. – ele sorriu – Engraçado, não? Enquanto você a tentava manter afastada de mim, ela simplesmente morria de medo de você e corria para os meus braços. Só falta dormir neles. Imagino se ela é tão boa quanto aparenta.

  Foi um movimento rápido e em segundos vi Iron encostado na parede, Arthur apertando com o braço seu pescoço.

- Não adianta Mason, sabe que não poso morrer, já estou morto. Deveria tentar cuidar da Sammy, por que daqui a pouco tempo seu corpo e sua alma serão meus. 

  Um gemido de pavor escapou por minha boca e com medo de ter sido ouvida dei alguns passos para trás, batendo num livro mal colocado que com um baque caiu. Os dois olharam para trás e minha respiração congelou.

- Tem alguém aqui – Arthur disse.

 Um palavrão escapou da boca de Iron e o vi vindo para as estantes. Não havia saída.

 Quando ele já estava quase chegando onde eu estava um garoto apareceu na escada.

- Com licença, pode me dizer onde... – Iron voltou suas atenções para ele, conduzindo-o para o outro lado da biblioteca. Aproveitei e saltei pelas escadas descendo de dois em dois degraus.

  Eu havia sido enganada. E todo esse tempo, manipulada. Meus instintos tinham sido desviados e meu medo conduzido ao Arthur, que só queria me proteger.

 A névoa na sala e na frente do colégio, o estranho em meu quarto, o anjo na floresta, as sensações de estar sendo seguida. Era tudo o Iron.

 O único momento em que talvez minha mente estivesse lúcida foi na hora exata em que ela me mandou parar, em que me impediu de me entregar a ele. Mas por quê? Por que ele queria minha alma?

  Ainda estava cedo e não havia muitas pessoas no colégio. Corri até o laboratório de química que não era usado as quartas e me encolhi no fundo da sala, no encontro das paredes. Fiquei como uma bola enquanto lágrimas de medo, pavor e raiva desabavam de meu rosto.

  Iron queria me matar.

O anjo não era o amor
O anjo era a morte.
 
  Relembrei das últimas frases do poema. Ele havia me dito quem era no primeiro dia que nos conhecemos. Mas como eu podia imaginar? Agora parecia tudo muito explícito, mas na hora...

 De onde eu estava não podia ver quem entrava ou saia do laboratório. Escutei passos entrando na sala.

- Sammy? – alguém perguntou.

  Iron.

  Encolhi-me mais ainda, enterrando minha cabeça nas pernas para abafar o choro. Ele não podia me encontrar. Nunca mais. 

  Os passos se intensificaram. Quem quer que fosse estava mais perto. Cada vez mais.

  Senti a presença de alguém perto de mim, muito perto.

- Sammy! – e então reconheci a voz. Era Arthur. Levantei a cabeça e ele se ajoelhou para ficar na minha altura.

- Ele quer me matar – meu choro se tornou compulsivo, meu corpo todo tremendo.

- Eu vou ficar com você. Ele não vai te tocar – Arthur disse fervorosamente. Era uma promessa.

- Desculpe – o abracei aos prantos.

- Não foi sua culpa, você estava sendo manipulada – ele me abraçou.

- A marca, eu vi a marca. Era ele, o tempo todo era ele –balbuciei.

- Sim – ele parecia querer ter outra resposta.

- Ele vai me matar – disse em desespero – Eu vou morrer, Iron vai me matar!

  Arthur me afastou e me encarou.

- Não, ele não vai.  – ele segurou meu rosto – Você precisa conceder. Você tem que entregar seu corpo pra que ele possa arrancar sua alma, se não, não funciona.

- Ele é um anjo – disse pasma.

- Sim.

- Como você sabia. Como...?

- Por que eu também sou – ele sussurrou fitando meus olhos.

- O quê? – perguntei. O pavor voltando. Tentei levantar, mas não tinha forças, então comecei a empurrá-lo.

- Não, não – Arthur segurou meus braços e prendeu minhas pernas com as dele. – Eu sou bom. Sou um guardião.

- Por favor... – grunhi.

- Olhe – ele tirou rapidamente a jaqueta e me mostrou uma marca no interior do braço esquerdo em forma de pena. Mas ao contrário de Iron, sua marca era de um tom mais claro que sua pele – E também isso – ele tirou o mesmo colar que Iron tinha de dentro da camisa. Uma aliança. Desta vez dourada.

- Você... – murmurei.

- Sim.

- Não quer me matar, não é? – perguntei.

- Nunca. 

  Arthur tomou-me nos braços e agora podia sentir. Eu me sentia segura com ele.

  Eu estava segura com ele.

♥ ♥ ♥

- Venha, você precisa ir para casa – ele disse após alguns minutos.

- As aulas ainda não acabaram – na verdade ainda estava no primeiro tempo.

- Você vai conseguir prestar atenção em alguma coisa? – ele perguntou afagando meus cabelos.

- Não – murmurei.

- Venha – Arthur me levantou.

  Fomos em silêncio até o estacionamento e assim se seguiu até minha casa.

- Está entregue – ele disse quando abri a porta.

- Você não pode ficar?  - perguntei insegura.

- Se é o que quer.

- Sim.

  Subimos até meu quarto e sentei-me na cama, cruzando as pernas. Arthur também se sentou e fitou meu rosto por alguns segundos.

- Está melhor?

- Sim. – tentei criar um modo de começar uma conversa. Mas duvidava que existisse um livro de auto-ajuda de como se iniciar um diálogo sobre anjos, morte e sexo.

  Respirei fundo e entrelacei minhas mãos.

- Por que Iron quer minha alma?

- Ele é um ser morto. Almas é o alimento dele. 

- E por que eu?

- É uma longa história.

- Comece.

- Era 1810, estávamos na Inglaterra. Minha família e eu tínhamos uma missão. Era uma moça, Bethany Foster. Ela era linda, sensual, gentil e provocante. Nessa época, Iron era parte de nossa família e um guardião. Bethany o seduziu e ele se entregou. Depois ela não o quis mais e ele enlouqueceu. Passou a tentar achar nas mulheres qualquer semelhança com Bethany, mas era impossível. Iron estava incontrolável. E então eu...

- E então você contou aos arcanjos – murmurei.

- Exatamente. Iron sumiu por três dias e quando voltou todos já sabiam o que tinha acontecido. Iron havia se tornado um anjo da morte. Ele havia provado da luxúria, ira, inveja; não tinha mais como voltar atrás e ele não se arrependia. Ele me odiou pelo que fiz e fez uma promessa. Disse que na primeira década de cada século ele retornaria e mataria nossa... alguém próximo a nós. No começo não sabíamos como ele realizaria sua vingança, mas após três décadas e três mortes descobrimos. Se ele desejar seu alvo a única forma é levando-a para cama, caso contrário, ele simplesmente entra em seu quarto à noite e arranca sua alma enquanto sua mente está vulnerável.

- Então...

- Ele veio em seu quarto, mas ele não podia matá-la daquela forma. Iron veio até aqui para deixar o colar.

- Seus irmãos são... anjos – não era uma pergunta.

- Sim.

- E agora que eu descobri, o que Iron vai fazer?

- Não sei. Seu poder de manipulação não funciona mais, então...

- Você também pode manipular?

- Não. Quando Iron foi transformado, ele adquiriu alguns poderes. Ele pode manipular seus pensamentos, sentimentos, sua mente. E pode tirar vidas, como você já sabe.

- Nada mais?

- Não acho que seja pouco.

- Não é. Resumindo. Se um anjo sentir desejos é transformado em anjo da morte, certo?

- Não necessariamente. Pode se tornar um anjo caído, morrer ou o que ele se tornou.

  Um estalo ocorreu em minha mente, um beijo de tempo atrás se tornando nítido em minha memória.

- Arthur, você me beijou – disse quase apavorada – Então você, você vai...

  Arthur se aproximou rapidamente de mim, as mãos segurando meu rosto.

- Não – seus olhos eram intensos nos meus – Iron desejou. Eu amo – ele sussurrou.

- Você... – as palavras fugiram.

- Eu estou apaixonado por você. Como não estaria? – ele sorriu e me soltou, segurando uma de minhas mãos – Seu sorriso é o mais bonito de todos e a cada vez é diferente.

- Diferente? – perguntei.

- Agora mesmo você sorriu quando não entende o que os outros falam. Mas o que eu mais gosto é quando você sorri porque está feliz. 

- Obrigada por não ter desistido.

- Nunca vou desistir. Não de você – Arthur sorriu e inclinou-se para tocar seus lábios nos meus, dessa vez sem uma fuga no final.

- Sinceramente, nunca vivi algo desse tipo, então... Será que posso fazer algumas perguntas? – perguntei alguns minutos depois. Arthur tinha se encostado no espelho de minha cama e eu em seu peito.

- Acho que devo algumas respostas – ele disse alisando meus cabelos.

- Auréolas?

- Não.

- Asas? Sei que tem, mas...

- Sim, mas só aparecem quando a missão está em perigo. Ao contrário de Iron. Se ele tirar o pingente do colar, suas asas ficam à mostra.

- Qual o significado dele pra vocês?

- É o elo com a nossa missão. Se o perdemos, temos um certo tempo para recuperá-lo. Depois disso o laço se perde.

- Falando nele. Você o tinha perdido, não foi?

- Na verdade não. Estava no bolso da minha calça.

- Ah. Hmmm... Harpas, músicas ao pôr do sol...?

- Não. Tecnicamente, a única coisa de anjos que temos é as asas.

- Ah.

- Existem muitos de vocês?

- Sim. Mas a minoria é que vive na terra. Anjos têm missões, quando elas acabam, nós voltamos para o nosso lugar. – aquilo me incomodou. Mais do que deveria. Eu não queria que ele fosse embora. Virei-me para olhar seu rosto.

- Você vai embora? – perguntei, minha voz com um toque de tristeza. Arthur provavelmente percebeu e sua palma repousou em meu rosto.

- Vai demorar – ele sorriu gentilmente.

- Isso é bom – sorri e me virei de volta. – Fiquei curiosa. Qual é a sua missão?

- Não posso contar. É uma informação sigilosa.

  Antes da hora do almoço Arthur saiu de minha casa. Perguntei se não queria meu carro, mas ele alegou que se viraria sozinho. Aproveitei o tempo livre para ler O Conde de Monte Cristo que eu havia parado na metade, meses atrás.

  Estava quase no final quando precisei ir fazer o jantar.

- Pai, estou exausta, vou dormir – disse quando CSI acabou.

- Ok. Até amanhã.

- Tchau Nathália.

  Não precisei esperar muito para adormecer. Minha mente estava cansada e precisava de uma boa noite de sono, sem suspense nem visitantes inesperados.

  Acordei com o barulho do despertador e ao esticar a mão até o criado-mudo para desligá-lo, meus dedos tocaram em algo estranho. Virei o rosto e abafei o grito com as mãos.

  Minha janela estava aberta, uma pena negra do tamanho de um palmo estava em meu criado-mudo, um bilhete embaixo.

  Iron havia estado aqui. Novamente. Com as mãos tremendo, peguei o bilhete, escrito com uma letra à pena em um papel de escrituras.

  Factus es et pulveris pulverem reverteris.” 
I.R

  Em estado de choque, ao terminar de tomar banho dobrei o papel e coloquei no bolso da calça. 

  Passei pela cozinha e não toquei em nada. Papai e Nathália já haviam ido. Disparei até o colégio e ao chegar, vi o Jaguar de Arthur, ele estava sozinho. 

  Saí do carro em desespero e andei quase correndo até ele.

- Iron foi ao meu quarto ontem – despejei.

- O quê? – Arthur perguntou sem acreditar.

- E deixou isso – tirei do bolso – junto com uma pena negra. Não entendi nada – entreguei o bilhete. Ele olhou pra mim antes de abri-lo.

- Factus es et pulveris pulverem reverteris – ele leu. 

- Você sabe o que é?

- Do pó fosses feito e ao pó retornarás. 

- E o que significa? – perguntei nervosa.

- É uma promessa de vingança. Iron vai voltar.

  Um arrepio de medo percorreu meu corpo, um impulso nervoso horripilante passando por ele.

- Que idioma era aquele? – perguntei enquanto andávamos pelo corredor.

- Latim.

- E por que ele escreveu em latim? – perguntei.

- Ele sempre foi teatral demais. E sempre amou latim. As missas eram celebradas nesse idioma, só os membros religiosos sabiam.

- Eu sei. – fiz uma pausa - Ele vai voltar. – sussurrei.

- Não precisa temer. Ele não pode te fazer nada – paramos em frente à sala. Arthur segurou meu rosto com as duas mãos – Absolutamente nada.

- Olha o que eu tenho – Sophia balançou duas tiras de papel.

- O que é isso? – perguntei sentando-me ao seu lado.

- Dois ingressos para o show mais esperado do ano – ela falou empolgada.

- Continuo na mesma.

- Sammy, acorda! – ela estalou os dedos ao nosso redor – Jared Leto, 30STM, isso te lembra alguma coisa?

- Ah. O show – peguei meu material na bolsa.

- Até que enfim – ela jogou as mãos.

- Olha, eu não vou – disse amuada.

- Por que não? Sabe o quanto ralei pra conseguir isso? Tive que passar o dia limpando a casa, lavando os pratos. Até os carros eu lavei. Até que não foi ruim, recebi algumas cantadas de uns garotos...

  Eu não escutava mais nada. Sophia continuava tagarelando e minha mente viajava pra longe dali. 

  Estava no Iron. Eu veria novamente aqueles olhos azuis claros que me passavam uma segurança falsa e dessa vez ele veria medo nos meus. Nada de desejo, nenhuma centelha de fogo se transformando em labareda atravessando meu corpo.

  Nunca mais.

- Você está bem? – Arthur perguntou quando nos encontramos no corredor.

- Estou – soltei um suspiro pesado.

- Você não está sozinha – ele sussurrou em meu ouvido e ao olhar seu rosto, um sorriso enchia seus lábios.

- Assim é bem mais fácil de acreditar.

  Fomos até o refeitório, onde encontrei meus amigos. Myllena estava abraçada ao Richard e pisquei para eles ao passar. Assim que sentei, Sophia veio para o meu lado.

- Você não disse que não gostava de Arthur Mason? – ela parecia irritada.

- Ele me convenceu do contrário. 

- Como? – um sorriso lento apareceu em seu rosto.

- Como você acha que foi?

- Um beijo? – seus olhos se arregalaram.

- Sim – levantei as sobrancelhas e sorri.

- E Iron? – o sinal tocou no mesmo instante.

- Depois.  

O resto das aulas seguiu monotonamente, assim como o dia. 

  À noite, me assegurei de que as janelas de meu quarto estivessem bem fechadas. Era tolice. Se Iron quisesse entrar, poderia ter uma cerca elétrica que não faria nenhuma diferença.

  Guardei o bilhete junto com a pena na gaveta do criado-mudo, esperando que ele fizesse o mesmo com a promessa de vingança. Guardasse num lugar inacessível ou de preferência queimasse. Aniquilasse. 

Assim como eu faria com os beijos proibidos que ainda estavam em minha pele.

Romance de:
 

Continua....


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