"Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.
City of Angels
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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. 
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 5. SOMBRA


- Vamos pai? Eu tenho horário – Nathália estava de pé com a mochila nas costas. Papai se levantou e foi colocar os pratos na pia. Continuei comendo meus cereais.

- Até mais, Sammy! – acenou o papai do corredor.

- Até! Boa aula Nathália!

- Tá – respondeu ela, fechando a porta. Depois que terminei de comer, fui lavar os pratos. Subi, escovei os dentes, peguei minha mochila e meu casaco. Não estava chovendo, mas era melhor não abusar da sorte. Após fechar a porta de casa, entrei no carro e me dirigi ao colégio. Estacionei o carro na última vaga disponível. Quando saí do carro algo em minha visa periférica me chamou atenção. Arthur estava encostado no capô do Jaguar e ao me ver, veio até mim. Meu estômago embrulhou um impulso nervoso gelado percorreu minha coluna.

 Engoli em seco e tentei normalizar a respiração.

- Posso falar com você? – ele parecia me sondar.

- Pode – respondi cruzando os braços.

- Desculpe por ontem. Na verdade, me desculpe por te causar medo. Sabe que na precisa ter medo de mim, não é? – ele perguntou, seus olhos azuis queimando os meus.

- Não sei nada disso – falei – Você age de uma maneira muito estranha, como se tivesse algo a esconder e...

Um barulho me interrompeu. Olhei para o lado e vi uma Yamaha R1 vermelha freando, uma camada de fumaça cobrindo vagamente os pneus. Iron estava olhando para mim e ao me ver, um sorriso torto apareceu em seus lábios.

- Você o conhece? – senti que Arthur me encarava. Olhei para ele e seus olhos estavam insondáveis.

- Conheço, por quê?

- Não devia.

  Franzi o cenho e andei em direção a moto.

- Onde vai? – ele perguntou vindo atrás de mim.

- Vou falar com ele – respondi como se fosse óbvio demais.

- Não devia – ele repetiu.

Controlando a raiva, virei-me para ele. Arthur estava perto demais e tive a necessidade de recuar um passo.

- Por que você não vai cuidar da sua vida? Já não basta o que fez?

- O que eu fiz?

- Me beijou do nada, parece estar preocupado comigo e de uma hora pra outra tem atitudes que me fazem ter arrepios de medo e...

O senti vindo para mim, seu corpo tocando o meu. Minha raiva esvaiu-se, seus olhos absorveram toda ela e transformaram em um imã que me movimentava de acordo com seus desejos.

- E...? – ele incentivou, sustentando meu olhar com o dele. Sua voz era quase um sussurro.

- Correntes elétricas passando por mim toda vez que... – minha voz era fraca. Arthur segurou minha cintura.

- Que...?

- Você me toca – minha voz era mais baixa que um sussurro.

Vi um sorriso crescer em seus lábios e o azul de seus olhos escureceram.

- Vai me deixar falar?

Acenei com a cabeça.

- Sammy? – alguém me chamou. Olhei para trás e vi Iron fuzilando Arthur com os olhos. Ele estava se aproximando – Algum problema?

- Me solte – pedi.

Arthur hesitou por um segundo e depois eu estava livre.



- Não – respondi

 Iron olhou de mim para Arthur e depois relaxou.

- Bom dia – ele sorriu torto.

- Oi. Como sabe meu nome?

- Não é um nome muito difícil. Tem na sua ficha da biblioteca. – ele arqueou uma sobrancelha.

- Ah.

- Temos que ir para a aula – Arthur disse. Olhei para ele e o vi encarando Iron, os olhos em brasa.

Iron deu um sorriso zombeteiro e pegou uma mecha de meu cabelo, minha temperatura aumentando um grau.

- Vejo você na biblioteca. Sei que irá precisar de meus serviços hoje – ele provocou.

- Pode me explicar... – Arthur começou quando Iron estava fora de vista.

- Não, não posso – olhei para ele e segui para minha primeira aula.

- Vou entregar esse livro ao Iron – disse quando saí da aula de literatura, aliviada por ter tirado uma boa nota.

- Quem é esse Iron? – Sophia perguntou, de repente interessada.

- É o cara da biblioteca – aquele que tá dando em cima de mim. Ele mesmo, aquele – nada demais – tentei parecer indiferente.

- Ele é gato? Tem olhos claros? Não me diga, me deixe adivinhar – ela colocou a mão na testa teatralmente – Tem olhos verdes e um conversível do ano! – ela despejou.

- Sim para as duas primeiras – falei enquanto andávamos pelo corredor – Já a cor e o carro você errou.

- Tem olhos pretos e um fusca – seus ombros relaxaram.

- Não – revirei os olhos – Eu disse que tinha olhos claros, mas não verdes.

- Azuis? – seus olhos brilharam.

- É.

- Mas continua com o fusca.

- Não! – joguei as mãos – Ele tem uma moto muito mais cara que vários caros por aí.

- Sério? – ela estava empolgada.

- É – respirei fundo – Quer ir comigo à biblioteca?

- Não posso – ela parecia decepcionada – tenho que me encontrar com meu pai – ela olhou no celular – E já estou atrasada.

- Que peninha – ironizei.

- Aproveite-o por mim.

- Pode deixar.

- Quer dizer... – ela pensou no que tinha dito – Não aproveite.

A Sra. Cooperman não estava na biblioteca. Subi até o andar de cima e Iron também não estava em seu habitual lugar. Decidi tentar ir colocar o livro na estante, eu sabia que era no final da sala, só precisava encontrar o corredor certo.

Ouvi um barulho de vozes quando ia chegando ao final. Concentrada, andei silenciosamente e vi Iron - ao que parecia – discutindo e depois segurando o braço de alguém.

Parecia ser uma garota. Aproximei-me dos dois e cheguei a tempo de ver Ashley levantando a mão para bater em seu rosto. Iron pegou seu pulso e encostou na estante atrás dela.

- Fique longe dela – ele falou.

- Iron? – chamei.

Ashley olhou para mim assustada e Iron largou sua mão.

- O que está havendo? – perguntei olhando para ela – Por que ia bater nele?

- Por que...

- Não foi nada. Disse algo que ela não gostou, uma indelicadeza minha – ele sorriu torto – Não foi, Ashley? – ele a encarou.

- É – Ashley passou por mim.

- Está tudo bem? – perguntei analisando-o.

- Está – ele colocou uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha – Não disse que precisaria de mim hoje?

- Vim entregar o livro.

- Ajudou? – ele o pegou.

- Sim. Tirei 9,5.

- Parabéns – Iron colocou o livro junto de outros ao seu lado. Não era o lugar onde me lembrava, mas talvez não houvesse nenhuma ordem para livros tão antigos.

♥ ♥ ♥

Depois do almoço fui para a aula de Inglês. Richard era meu parceiro, então nem iria notar o tempo passar com nossas trocas de recados por Bluetooth.

- A Myllena te contou alguma coisa? – perguntou ele em uma de nossas trocas de recados.

- Não, ela deveria?

- Acho que sim. =( - olhei para seu rosto e ele estava decepcionado com minha falta de resposta.

- O que aconteceu? – digitei.

- Ela me escutou dizendo ao Bernard que eu gostava dela. – olhei para ele surpresa antes de responder.

- Sério? Que bom! E como ela reagiu?

- Fingiu que não tinha escutado!

- Vou falar com ela, não se preocupe.

- Tá. Valeu Sammy!

- Disponha! – Eu tinha que pensar num modo de perguntá-la sobre o Richard sem que ela percebesse nada, mas como iria fazer isso? Não acho que ela tenha ficado chateada ou qualquer coisa. Richard era muito legal, além de bonito: Alto, forte, cabelo liso meio claro e olhos negros. Combinava com ela: Uns dois centímetros mais alta que eu, cabelos ondulados escuros que ficavam um pouco abaixo do ombro e olhos castanho-claros. Eles se davam super bem e tinham muitas coisas e comum. Ambos eram muito legais e eu estava disposta a dar uma mãozinha. Quando olhei no relógio do celular, já estava quase na hora do intervalo. A aula tinha passado mais rápido do que eu pensava.

 - Tenho que ir pegar uns livros no armário, até mais. – perguntou o Richard se levantando quando sinal tocou.

- Ok.

- Tchau. – disse ele indo em direção a porta. Comecei a guardar minhas coisas, concentrada em como iria tocar no assunto com a Myllena.

- E aí como foi a aula?

- Do mesmo jeito que foi para você, Bryan!

- Não. Eu estava prestando atenção, já você e o Richard...

- Se você estivesse mesmo prestando atenção, não saberia o que eu e o Rick estávamos fazendo na hora da aula.

- Você tem a resposta na ponta da língua, não é?

- É – decidi mudar de assunto – Bryan, sabe o que aconteceu com a Ashley e o rapaz que trabalha a biblioteca?

- Não – ele franziu o cenho – Por quê?

- Os encontrei juntos e ela estava prestes a dar um tapa nele.

- Qual o nome dele?

- Iron Reidy.

- Sammy, vou ter que ir – ele parecia perturbado – Tchau – Bryan saiu quase correndo.

Virei-me e peguei minha mochila. Quando ia para a porta, Iron estava encostado no portal, os pés cruzados e um sorriso torto nos lábios.

 - O que está fazendo aqui? – perguntei quando o último aluno saiu.

- Estava passando. Fui entregar uns papéis na diretoria – ele deu de ombros – Encontrei isso no corredor das crianças – ele me mostrou um anjo de origami em papel prateado.

- Obrigada – peguei a dobradura.

- De nada – ele tocou meu rosto, deixando um rastro quente.

O sinal tocou mais uma vez e assustada dei um sobressalto.

- Hora da aula – Iron sorriu torto e saiu da sala.


♥ ♥ ♥

- O que é isso? – Myllena perguntou quando cheguei à sala.

- Um anjo de origami – dei de ombros, colocando-o em cima da mesa.

- Você fez? – ela perguntou pegando o anjo nas mãos.

- Me deram – senti que alguém me encarava e olhei para o lado, quando vi Arthur me olhando. Franzi o cenho e virei-me para o quadro.

  Quando as aulas terminaram fui à diretoria entregar uns papéis que o professor havia me pedido.

- Olá Sammy – a secretária disse cansada.

- Oi Sra.Holmes. O Sr. Phillips pediu para lhe entregar – lhe passei a pasta.

- Obrigada querida – ela sorriu gentilmente

- De nada – quando abri a porta, Iron o fazia ao mesmo tempo.

- Sammy? – ele perguntou surpreso.

- Oi – disse – Esta me seguindo? – perguntei de brincadeira.

- Não. Tenho um ótimo atrativo para você – seu sorriso era malicioso.

- Qual?

- Uma biblioteca. Uma aluna aplicada que quer ser admitida pela Universidade de Harvard deve gostar de ler.

- Como sabe que quero ir para Harvard?

- Do mesmo jeito que sei que quer ser chamada pra sair...comigo – seu rosto era condescendente.

- Isso é um convite? – perguntei quase sorrindo.

- Sim.

- Vou pensar – respondi. Eu não diria aceito de cara, seria muito...oferecida.

- Sexta, às nove da noite. Estarei na porta de sua casa. – Iron falou baixo em meu ouvido quando passei por ele.

- Não sabe onde moro – olhei para seu rosto.

- Descobrirei – o canto de sua boca se levantou.

♥ ♥ ♥

- Pai? – chamei enquanto jantávamos.

- Sim?

- Sexta à noite vou sair – disse insegura.

- Tudo bem. Para onde vão?

- Quem? – perguntei confusa.

- Você e seus amigos.

- Pai...Não vou sair com meus amigos – murmurei.

- Um garoto?

- Na verdade ele deve ser um pouco mais velho que adolescente.

- Anos?

- Não sei. Vinte e quatro, cinco, eu acho.

- Onde o conheceu?

- Ele trabalha na biblioteca do colégio.

- Hmmm... Meia- noite em casa. E cuidado. Sei que sabe se cuidar e ele deve ser um rapaz bom, mas é preocupação de pai – ele falou se desculpando e levantou – última pergunta. Nome?

- Iron Reidy.

♥ ♥ ♥

  A semana passou rápido. Minhas suspeitas de que havia algo de errado com Arthur Mason só aumentava. Em todos os lugares que eu ia sentia que alguém me seguia e à noite parecia que alguém surgia em meu quarto toda vez que as luzes eram apagadas e quando eu ligava o abajur não havia nada. Isso estava me matando.

  E o pior. Todas as vezes em que eu sentia um calafrio, Arthur estava por perto, sempre me encarando, seus olhos me sondando.

  E aquilo estava começando a me deixar com raiva. Muita.

  Vesti-me com uma calça jeans escura e uma blusa de seda vermelha com decote em V e desci as escadas.

- Meu Deus – Nathália disse lentamente ao me ver – Você está muito arrumada!

- Não acha que essa calça está muito colada, não? – meu pai perguntou analisando.

- Não, pai – revirei os olhos.

- Estou brincando – ele sorriu levemente – Você está linda e muito perfumada, também.

- Pai – disse corando

- Ok.  Que horas ele vem?

- Já deve estar chegando. São quase nove horas – olhei no Iphone.

- Ok. Vou sair com o Steve – ele disse pegando o casaco no sofá – Meia noite.

- Tá, pai.

- E lembre-se de que ele tem vinte e cinco anos – ele levantou as sobrancelhas. Na verdade ele queria dizer: Ligue pra ele e cancele tudo, ele é velho demais pra você!

- Pai, Sammy sabe se cuidar – Nathália me defendeu.

- Tchau – ele saiu porta afora.

  Pouco menos de dez minutos depois,a campanhia toca.

- Oi – sorri ao vê-lo. Iron estava com uma jaqueta preta que cobria a camisa de mesma cor e jeans Calvin Klein escuro. Ele me olhou de cima a baixo e sorriu maliciosamente.

- Você está muito sensual – ele encarou meus olhos.

- Onde vai me levar? – perguntei enquanto a BMW x6 passava veloz pelas ruas.

- Tenho algo para você – ele olhou para mim e levantou o canto da boca.


♥ ♥ ♥

- Venha – ele disse quando paramos em frente à uma casa grande, a porta parecendo com as de construções antigas. Desci do carro e o acompanhei – É aqui onde moro.

  Sua casa parecia o interior de castelos. O teto era muito alto, um lustre luxuoso pendurado na sala. A escada em formato de um “L” de cabeça para baixo era rente a parede e embaixo tinha uma porta corrediça de madeira branca. Era tudo muito iluminado e para onde eu olhasse, detalhes em ouro refletiam em meus olhos.

  Iron me conduziu até a porta à minha frente e segurou as duas maçanetas douradas, as portas correndo e deixando à mostra uma mesa digna de restaurante.

- Nossa – murmurei ao ver o jantar e a decoração com velas – que iluminavam tanto quanto se fossem lâmpadas.

- Gostou? – ele perguntou atrás de mim.

- Sim – Iron foi para o lado da mesa e puxou uma cadeira para mim.

  Quando terminamos de jantar, ele veio para o meu lado e segurou minha mão – que pareceu queimar – levantando-me.

- Quero tocar para você – ele sustentou meu olhar e me conduziu até uma ante-sala, onde tinha um piano de cauda preto.

  Iron segurou minha cintura – seu toque fazendo minha pele abaixo da blusa queimar – e me levantou, sentando-me no piano, ao lado das teclas. A parte externa de seus dedos acariciou meu rosto, antes que ele se postasse e uma melodia quase sinfônica se espalhasse pela casa.

  O ambiente foi envolvido como se uma orquestra estivesse no ápice do concerto. Mas não havia. Só seus dedos deslizando pelas teclas.

  Após alguns minutos, o som se tornou suave e depois acabou. Iron levantou o rosto e seus olhos encontraram os meus.

  Sem tirá-los de mim um segundo, ele levantou, aproximando-se lentamente.

  Senti sua respiração em meu rosto, o ar quente batendo levemente em minha face. Seus olhos ardiam nos meus e ele se inclinou.

  Iron passou o braço por mim e ao voltar, sua mão segurava uma rosa vermelha. Ele a sustentou à minha frente, enquanto – sem desviar os olhos dos seus – eu a pegava.

- Obrigada – sussurrei.

  Seus lábios se distorceram em um sorriso de lado, seus olhos emanando faíscas de desejo.

  Sua mão acariciou meu rosto e deslizou até minha nuca. Senti meu coração acelerar e uma chama percorrer meu corpo.

 Iron se aproximou lentamente, seus olhos fixados nos meus, e em um instante senti sua boca encostar na minha.

 Eu era extremamente vulnerável à ele. Meu corpo foi possuído pelo fogo e o senti percorrendo minhas veias. Meu coração se torou enérgico e minhas mãos cobiçaram seus braços, seus ombros e por fim seu pescoço. Emaranhei meus dedos em seus cabelos e o puxei para mim, descruzando as pernas para que a distância entre nós fosse quase nula.

  Seus lábios movimentaram-se cada vez mais urgentes nos meus e senti que eu ia entrar em combustão.

  Iron me liberou por um minuto, encarado meus olhos – nós dois em chamas – e senti suas mãos deslizarem por meu corpo até parar em minhas coxas, suas mãos fortes puxando-as para que se encaixassem em sua cintura.

  Senti uma de suas mãos acariciarem minha perna em um sorrateiro aperto. Ele se aproximou e senti sua boca tocar meu pescoço, mordendo-o de leve. Sem paciência, enrolei minhas pernas nele e o puxei, seus olhos em labareda voltando aos meus. Olhei para seus lábios e apertei mais forte seus cabelos.

  Seus braços e sua boca me envolveram, alimentando meus desejos. Tentando ser rápida, tirei sua jaqueta – que caiu no chão com um baque surdo. Minhas mãos apertaram suas costas e um gemido baixo brotou de sua garganta.

  Suas mãos passaram ao meu quadril, alinhando-se a minha cintura, por onde ele contornou logo depois, deixando um rastro em chamas.

  Iron se afastou um pouco e minha mão desceu até seu braço, sentindo o contorno perfeito de seus músculos.

- Venha comigo – sua voz e seus olhos eram sedutores o bastante para me convencer. Sua mão acariciou minhas costas, causando-me arrepios. Olhei para o relógio em cima de uma prancha de madeira.

- Não posso – respondi.

- Por quê? – ele sussurrou.

- Já são onze e meia. Meu limite hoje é meia noite – eu não queria ir com ele. Sabia que o rumo que as coisas tomariam seria precipitado demais.

  Iron inclinou-se para meu ouvido e uma de suas mãos percorreu verticalmente o caminho de meu umbigo até meu colo.

- Fique – ele sussurrou, a voz quase como uma ordem.

  Eu sabia que não concordava com aquilo, mas seu corpo e sua voz fizeram minha decisão oscilar.

  Por um segundo eu queria ficar ali, ele havia conseguido me fazer sua prisioneira. Fechei os olhos e me concentrei em diminuir o fogo que me queimava.

- Não posso – murmurei fraca. Ouvi um suspiro pesado e ele voltou a me olhar. Seus olhos ardiam – Desculpe.

- Haverá outras noites – sua voz era baixa e seu olhar sustentava o meu.  Sorri levemente me desculpando e ele voltou a me beijar. Minhas mãos tatearam até seu peito – sentindo tudo o que podiam – enquanto as suas foram até minhas pernas e me suspendeu, sustentando meu peso. Forte e suavemente elas deslizaram até minha cintura – a blusa sendo afastada pelo atrito – e senti como se eu estivesse envolta por uma capa de fogo enquanto meus pés tocavam o chão.

- Não posso ficar aqui esta noite – disse afastando-o quando senti que em beijo ele me conduzia até a escada. Não olhei para seus olhos. Sabia que eu poderia fazer algo contra o que eu queria se os olhasse – Te espero na porta – disse me afastando.

  Iron voltou algum tempo depois e ao sentir sua presença, virei a tempo de vê-lo colocando algo metálico no bolso.

- Você tem uma boa audição – sua voz soou como crítica.

- Senti que estava atrás de mim.

  Seus olhos de repente focalizaram no detalhe em vidro ao lado da porta e se estreitaram.

- Vamos – ele disse e abriu a porta para mim.

- O que viu? – perguntei enquanto ele trancava a porta.

- Nada – ele parecia estar com raiva.

  Senti que estava sendo observada e ao olhar ao redor vi uma sombra encostada do outro lado da rua. Eu conhecia o desenho daquele corpo, era familiar demais. Um ônibus passou e quando avistei novamente não havia mais nada encostado na árvore.

  Balancei a cabeça achando-me paranóica.

♥ ♥ ♥

- Sammy, tenho que falar com você. Você não tem noção do que aconteceu! – disse a Myllena empolgada na segunda-feira, o que me fez olhar para o Richard. Ele olhou pra mim, sorriu e se virou para continuar a conversa com a Anita e o Bernard.

-Ok. Hmmm... na aula, tá?

- Que o Bluetooth se prepare! – respondeu ela.

- Sim senhora! – falei sorrindo.

♥ ♥ ♥

 O almoço passou arrastado para mim. Motivo? O de sempre: Arthur Mason. Sem paciência, assim que terminei de comer, levantei e fui para a sala.

- Ei, ei! Me espera! – me virei e vi a Myllena vindo em minha direção.

- Ai, desculpa Myllena! – bati de leve a mão na testa.

- Tudo bem, não se preocupe.

- Bom, o que era que você queria me contar?

- Eu ouvi o Richard falando para o Bernard que ele gosta de mim! – disse ela entusiasmada enquanto íamos para sala.

- Sério? – fingi estar surpresa

- Foi no estacionamento. Quando cheguei, eles dois estavam conversando encostados no carro do Bernard, fui falar com eles, mas o Richard estava de costas pra mim. Bernard nem se ligou e consegui escutar.

- E você?

- Adorei, é claro! – falou ela enquanto nos sentávamos.

- Você gosta dele? – essa era a parte que importava.

- Mas é óbvio que sim! O Richard é... perfeito! – ela estava totalmente encantada, mas estava esquecendo-se de algo: Ninguém é perfeito. – Tudo bem ele não é tudo isso, mas ele é lindo. Isso ele é! – ela corrigiu quando me viu de sobrancelhas levantadas.

- Ok... Agora vamos prestar atenção na aula, o professor já começou a escrever – peguei meu caderno e comecei a copiar o que tinha no quadro.

  O resto da aula passou como um jato. Myllena e eu não conversamos mais, pois o professor nos passou uma tarefa e não tivemos tempo nem pra piscar.

♥ ♥ ♥

Quando as aulas acabaram e fui para o estacionamento, vi Richard conversando com Arthur que ao meu ver – o que já era de praxe – ficou me encarando. Fui até Richard.

- Ligue pra mim hoje, tenho boas novidades – falei atrás dele, em seu ouvido.

- Não? – ele se virou pra mim.

- Sim. – sorri sugestivamente.

- Como eu viveria sem você?

- Sinceramente não sei.

♥ ♥ ♥

  Nathália estava na casa da Brenda e o papai no trabalho.  Eu fazia o dever de casa e estudava para as provas quando meu celular começou a tocar.

  Olhei no visor. O número era desconhecido.

- Alô?

- Sammy? – uma voz familiar chamou.

- Sim, quem é?

- Arthur.

- Como sabe meu número? – perguntei.

- Qualquer um dos nossos amigos tem seu número. Preciso falar com você. De verdade.

- Fale.

- Não pelo telefone.

- Ou assim ou nada.

  Ouvi um suspiro pesado do outro lado.

- Desculpe por fazê-la se sentir ameaçada quando estou por perto.

- Ameaçada? – bufei – Eu fico apavorada!

- Com a pessoa errada, por que...

- Fale logo o que quer.

- Tenha cuidado, querem te...

  Desliguei o telefone. Ele me dava nos nervos. Ter cuidado? Só se fosse com ele.


♥ ♥ ♥

Enquanto estava descendo as escadas o telefone começou a tocar. Fui correndo até a cozinha, onde o telefone ficava suspenso e o tirei do gancho.

- Alô? – disse meio aperreada.

- Oi! Sammy?

- É, sou eu Rick.

- Tudo bem? – ele parecia meio preocupado – Problemas com a Nathália? Se quiser, posso ligar depois.
- Não, não é nada. Olha, falei com a Myllena e ela gostou do que ouviu.

- O que ela queria te contar era isso? - perguntou ele empolgado.

- Era.

- E ela disse mais alguma coisa?

- Disse.

- O que ela falou?

- Ela contou que gosta de você.

- Sammy valeu mesmo! Amanhã vou falar com a Myllena!

- Ok.

- Está tudo bem mesmo Sammy? - sua voz havia se tornado novamente preocupada.

- Está tudo bem. Amanhã a gente se fala. Beijo, tchau! – desliguei o telefone sem esperar pela resposta dele.

♥ ♥ ♥

  Uma dor de cabeça que parecia maior que meu cérebro me atingiu. Antes das nove da noite tomei dois Tylenol e me arrastei para a cama.

- Pai, vou dormir – disse quase de olhos fechados.

- Está melhor?

- Não. Minha cabeça está me matando, acho que vai explodir.

- Se ela explodir,posso ficar com seu Iphone? – Nathália perguntou do sofá.

- Se ela explodir, o papai entalha meus restos e pendura no seu quarto – disse subindo as escadas, o riso baixo do papai ecoando na minha cabeça. Parecia alto demais.
  Desabei na cama e fitei o teto por insignificantes minutos até que apaguei.

Uma rajada de vento frio invadiu meu quarto e ainda grogue abri os olhos lentamente.

  Alguém estava em meu quarto, observando-me. Um calafrio percorreu meu corpo e levantei rapidamente, a cabeça girando por um segundo.

  E então não havia mais nada.

  Andei assustada até o interruptor e o liguei. Não tinha ninguém, mas a janela da lateral estava aberta. Fui até ela, mas não consegui fechar, olhei para o pergolado e vi um colar de corrente fina e longa com um pingente também fino, parecendo com uma aliança. Uma aliança prateada.

  Eu não havia surtado. Alguém esteve em meu quarto e deixou cair o colar.

  Olhei para fora, mas não havia ninguém. Nenhuma só pessoa na rua. Apavorada bati a janela e guardei o colar em minha bolsa.

- Está tudo bem com você? – Anita me perguntou no estacionamento.

- Alguém estava no meu quarto ontem de noite – disse quase sussurrando.

- O quê? Você está bem? – ela perguntou preocupada.

- Estou... Apavorada.

- Como sabe que tinha alguém? – ela perguntou enquanto estávamos indo para a sala.

- Eu en... – mordi o lábio para me conter. Eu não contaria a ela. Não havia confiança e amizade suficiente para isso.

- Você...?

- Eu sei – encerrei a conversa.

  Passei a aula inteira pensando: Sabia que estava sendo vigiada, eu sabia!

  E só existia um suspeito.

  Mas ele não faria isso. Como ele subiria até minha janela e a abriria sem que houvesse nenhum barulho? Era impossível. Eu podia ter todas as sensações ruins perto dele, mas com certeza ele não era um psicopata.
  
Quando o sinal tocou, eu já tinha congelado todas as minhas suspeitas de que Arthur teria entrado em meu quarto no meio da noite. Andei pelos corredores, aproveitando para ir ao banheiro.

 Quando ia saindo vi Arthur murmurando algo com Bryan, que estava encostado no armário. Freei e esforcei-me para ouvir o que eles diziam.

- Eu perdi, não sei onde coloquei – Arthur estava nervoso.

- Como assim você perdeu o colar? – Bryan disse.

  Meu coração se petrificou. Minhas suspeitas estavam corretas, meus instintos estavam mandando pensamentos certos à minha mente esse tempo todo.

  Arthur Mason estivera em meu quarto no meio da noite enquanto eu estava dormindo, completamente inconsciente.

  O quão ele era perigoso? Eu não sabia dizer. E nem queria descobrir.

 Quase corri pelos corredores e vi quando alguém me encarou e seguiu, não sabia quem era. Todos os rostos pareciam os mesmos. Todos eram perfeitamente iguais ao rosto de Arthur Mason.

- Sammy? - alguém tocou em meu braço e virei. Sophia arregalou os olhos ao me ver – O que aconteceu?

- Nada – minha voz saiu mais baixa que um sussurro.

- Você está bem?

  Acenei com a cabeça freneticamente.

- Sammy, você está bem? – ela me sacudiu de leve.

- Estou – minha voz saiu como um estalo.

- Sammy, você está tremendo! – ela estava desesperada.

  Só então senti. Meus músculos estavam se retesando e minha respiração era acelerada, como se acabasse de ter sido salva de um afogamento. Meu corpo todo tremia e minha cabeça começou a girar.

- Sophia – consegui balbuciar e cai em seus braços, chorando.

- O que houve? Pelo amor de Deus, o que te deixou assim?

- Ar... Alguém estava em meu quarto ontem à noite e quando me dei conta não havia mais ninguém. Evaporou. – balbuciei.

- Como?

- Eu encontrei um colar no pergolado da janela.

- Você está me contando que alguém subiu até seu quarto, destrancou a janela e depois saiu do nada, deixando um colar?

- Isso mesmo – eu ainda tremia.

- Venha – ela disse

- Pra onde?

- Até a biblioteca. Aqui tem muita gente. A fofoqueira e corrimão de bombeiro do segundo ano, está de olho em nós. – Ela disse me virando para o outro lado.

- Miley Spencer?

- Exatamente. Venha.

  Sophia me rebocou até a biblioteca, onde nos sentamos numa mesa no final, longe da entrada e de todos.

- O que houve? – ela perguntou quando eu havia me acalmado.

- Eu acordei no meio da noite com um vento gelado e quando olhei ao redor não havia ninguém. Liguei o interruptor e eu estava sozinha, mas a janela estava aberta e quando fui fechar, encontrei isso. – tirei de um dos bolsos da mochila o cordão e mostrei.

- Temos que ir à polícia.

- Não.

- Sammy, mas...

- Não, Sophia. Não sei com quem estou lidando. E provavelmente deve ser alguém conhecido –É alguém conhecido – Por favor – toquei sua mão – Não conte a ninguém, nem me obrigue a ir à polícia.

- Sammy...

- Por favor – supliquei.

- Está bem. Mas se as coisas piorarem, nós vamos. Combinado?

- Ok. – guardei o colar.

- Sammy?

  Virei-me para ver quem era.

- Oi Iron – sorri levemente.

- Está tudo bem? – ele franziu o cenho e se aproximou, sentando-se ao meu lado.

- Sim.

- Sério? Onde está seu sorriso? – ele tocou minha boca com o polegar.

- Com licença? – Sophia disse

- Ah, desculpe. Sophia, esse é Iron

- Olá – ele sorriu com o canto da boca

- Oi – Sophia disse – Sammy, vou indo. Qualquer coisa – ela fez sina pra que eu ligasse pra ela.

- Ok – suspirei.

- E então? Vai me dizer o que aconteceu? - Iron passou a mão por meus cabelos, seus olhos sustentando os meus.

- Coisas sem... importância – dei de ombros. Eu nãocontaria pra ele. Eu tinha toda certeza de que ele tomaria partido e eu não queria ver Iron machucado. E por incrível que pareça, eu me sentia desconfortável com a ideia de Arthur com um mínimo arranhão. Até demais.

- Não parece – ele me olhou de lado.

- Estou ok – sorri tentando convencê-lo e segurei seu rosto com as duas mãos, dando-lhe um beijo rápido.

- Melhor assim – ele disse com um sorriso torto – Bem melhor – Iron abraçou minhas costas e me puxou para mais perto.

- Você me queima – murmurei

- Isso é porque você não sabe o que faz comigo – ele inclinou a cabeça e o canto de sua boca se levantou.

- Iron...

  Ele revirou os olhos.

- OPS... – ele sorriu maliciosamente e me beijou.

- Aqui não – o afastei quando o beijo estava se tornando urgente demais.

- Venha – ele lançou todo o poder de seus olhos claros sobre mim.


♥ ♥ ♥

  Quase corremos pelas estantes cheias de livros, até a última – onde ninguém ia. Era onde ficava as edições da época em que tinha um jornal no colégio – Iron encostou-me à estante e me beijou - sua mão tocando a pele do meu quadril que minha blusa deixava exposta– e em segundos comecei a incendiar.

 Ele estava beijando meu pescoço quando escutei passos vindo até nós.

- Iron, Iron – tentei afastá-lo.

- O quê? – ele franziu o cenho .

- Tem alguém vindo.

- Ninguém vem aqui – ele distorceu o rosto e se inclinou para mim.

- Mas está vindo – me abaixei rapidamente e peguei sua camisa – Vista. Logo.

  Ele revirou os olhos e vestiu. Ao vê-lo comecei a rir.

- O que foi?

- Seu cabelo – ele estava todo bagunçado. Tentei ajeitar com as mãos – Pronto.

- Obrigado – ele se aproximou e me beijou de leve

- Você é...

- Também acho – ele voltou a me beijar.

- Sammy? – uma voz masculina me chamou. Sem fôlego afastei-me de Iron e vi Arthur parado olhando para nós dois. Iron se afastou, arqueando uma sobrancelha e lhe lançando um sorriso perverso.

- O que quer? – perguntei. Arthur não faria nada comigo. Não com Iron ali.

- O que você...? – ele cuspiu as palavras.

- Vai me dizer que não sabe? – Iron segurou o riso – Quanta ingenuidade.

- Iron, não – segurei seu braço - olhando para seu rosto – temendo por uma reação de Arthur.

- Vamos – ele pegou minha outra mão e saímos do corredor. Quando passei por Arthur, senti um calafrio. O mesmo de todas as vezes em que eu me sentia vigiada e de quando acordei na noite anterior. Tinha sido ele.

♥ ♥ ♥

  Eu estava no estacionamento quando o vi. Arthur estava sozinho – talvez esperando pelos irmãos. Olhei ao redor. Havia algumas pessoas, ele não faria nada comigo ele esperaria para quando a cidade estivesse adormecida. Incluindo-me na lista.

  - O que você pensa que está fazendo? – ele perguntou atrás de mim. Quase sem ar me virei e vi seus olhos azuis me encarando.

- Saia de perto de mim – disse lentamente.

- Sammy...

- Saia – disse entre dentes.

- Não.

- O que você quer? – disse prendendo o choro, minha garganta começando a protestar.

- O que tem de errado com você? – ele parecia nervoso.

- Comigo? Arthur pare de fingir! E por favor, me dê espaço! – o empurrei

- Do que você está falando? – ele beirava a raiva.

- Pode mentir pra qualquer um, menos pra mim. Eu não vejo você, mas sei que sempre que tenho um calafrio você está por perto. Todos os dias sinto que alguém está me seguindo. Mas ontem foi o cúmulo, Arthur!

- Do que...?

- Eu sei que você entrou na minha casa no meio de madrugada, mais especificamente no meu quarto – levantei o dedo pra ele – Mas sua fuga não foi tão perfeita quanto sua entrada. Você deixou cair isso – tirei da bolsa o colar e o pendurei em meu dedo – Só se deu conta de que tinha perdido hoje, não foi?
- Isso não é meu – ele respondeu num pavor fingido.

- Ah, não? É de quem então? Do namorado da Barbie?

- Sammy...

- Posso ser o que for, mas não sou idiota. Eu vi você desesperado dizendo ao Bryan que tinha perdido o colar. Grande coincidência eu ter supostamente achado um no mesmo intervalo de tempo, não acha?

- Você não...

- Entre na minha casa de novo e você sofrerá as consequências.

- O que vai fazer?

- Tente – falei perto demais de seu rosto.

  Virei-me e abri a porta do carro.

- Samantha...

- E tome seu colar – o joguei no peito dele.

Romance de:

Continua... 

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