Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.” 
City of Angels
Eu precisava correr, se fosse algum animal caçando, com toda certeza eu seria uma ótima presa. Não tinha como me defender e sem enxergar ficava impossível uma vitória.
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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. 
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PERDIDA


O final de semana foi monótono. Fiz alguns deveres de casa, lavei roupa, fui ao supermercado para comprar umas coisas que estavam faltando em casa, mas nada que compensasse o final de semana que tinha sido programado. No sábado à noite, Steve e Martin – amigos de trabalho do meu pai – foram para minha casa assistir um especial sobre Ferraris que iria passar na TV. Acabei indo para meu quarto mais cedo do que de costume, não queria ter de aturar eles dizendo: Olha como ela cresceu, como está bonita, etc. e etc. Eu não queria me sentir uma aberração. A Nathália não, nunca vi alguém tão necessitada de ser o centro das atenções. Durante o tempo em que fiquei na sala com eles para fazer meu papel de filhinha educada, ela não parava de falar, até que por fim, minha paciência se esgotou. Dei boa noite a todos eles e subi. Ao deitar, coloquei meus fones de ouvido e rezei pra que a segunda-feira chegasse logo. A imagem do Arthur me veio à cabeça, minha mente focando em seus olhos enigmáticos que me causavam pequenos calafrios. Com um suspiro de surpresa fiquei de lado na cama e fui de encontro à inconsciência.

A semana seguinte teve seu curso normal. Na segunda-feira soube por que alguns dos meus amigos não puderam ir para o acampamento. O pai da Bianca tinha viajado e sua mãe só ia deixar se o pai permitisse e ela não conseguiu entrar em contato com ele. Bernard e Miguel tiveram que viajar com os pais. Então, para a alegria geral, dei a sugestão de irmos no final de semana seguinte. Todos aceitaram de bom grado, até mesmo a Melissa que ainda me lançava inexplicáveis olhares de antipatia.

Minha amizade com Arthur Mason estava crescendo, com todos na verdade, mas com ele era tudo muito rápido, parecia que nossas conversas eram como textos ensaiados. Fluía. Mais natural do que o comum.Mas havia algo mais. Algumas vezes enquanto conversávamos, ele parecia querer dizer algo e falava tudo diferente. E tinha seus olhos.No começo não prestei muita atenção, mas depois percebi que ele não me olhava da mesma maneira que olhava os outros, quando seus olhos pousavam em mim, eram intensos, sinceros, pareciam arder nos meus. Isso foi me deixando intrigada, mas estranhamente lisonjeada.
  
Alguma insignificante ponta de intuição começava a acordar dentro de mim.
  
Eu não sabia o que isso podia significar.

- Ei, Sammy! – alguém me chamou enquanto andava pelo estacionamento até meu carro depois que acabaram as aulas da sexta-feira, e me virei para olhar.

- Oi, Arthur – sorri para ele.

- Oi – Seu sorriso em resposta me deixou sem fôlego – eu só queria confirmar se você vai mesmo amanhã.

- Claro que vou. Já até lembrei para o meu pai e tudo mais. Desde a semana passada que a mochila está arrumada, eu tive preguiça de desfazê-la.

- Ok. – seu sorriso tornou-se mais pronunciado. Um frio percorreu meu estômago.

- Bom, então até amanhã no acampamento. – acenei. Ele ficou triste por um segundo ou foi só impressão minha?

- Até, Sammy – respondeu ele.

 ♥ ♥ ♥

O dia amanheceu um pouco mais quente do que o esperado para esse mês. Pateticamente fiquei com preguiça de sair de casa e encarei o teto enquanto meus pensamentos vagavam pelo que pareceu ser duas horas. Quando me levantei da cama e fui para o banheiro, ouvi na sala o noticiário anunciar 18º C em Boston. Pelo menos não vou correr o risco de ficar tremendo no final de semana. Após tomar banho e me arrumar, desci para tomar café e minha irmã me recebeu com um belo sorriso no rosto.

- Bom dia, Sammy! Já são onze e meia, cuidado pra não chegar atrasada. – falou ela se virando para guardar a garrafa de leite na geladeira.

- Hãã... Bom dia. Não tem problema. – sua repentina bondade me deixou chocada.

- Psiu! – meu pai me chamava da sala, eu olhei e ele acenou com a mão – O que deu nela? – perguntou quando eu havia chegado junto dele. Ele também tinha achado estranho todo aquele bom humor.

- Nada, ela só teve um surto! – respondi rindo da cara dele.

- Ah, então tá. Espero que esse surto dure o resto da vida dela. – Falou ele se virando de volta para a TV.

- Não se iluda pai! – quando voltei para a cozinha a Nathália já havia subido. Então fui preparar minha tigela de cereais.

Depois que terminei, lavei tudo e subi para pegar minhas coisas do acampamento. Enquanto estava dando uma última olhada na mochila, torci para não estar adiantada demais, afinal ninguém me disse a hora de nada e eu não tive a capacidade de lembrar de perguntar. Pra piorar, lembrei que eu havia saído do colégio antes de pegar anotado o caminho com a Anita ontem. Parecia que hoje ia ser um dia daqueles, pelo menos se eu me perdesse tinha o celular pra chamar o resgate, mas do jeito que eu tinha sorte, era bem capaz do celular ficar fora de área de cobertura. Achei melhor perguntar para o meu pai se ele ainda tinha uns sinais de fogo que nós levamos para acampar no verão passado. Desci as escadas lentamente, pois estava com medo de cair e sair rolando por causa da mochila pesadona nas minhas costas. Não seria uma cena muito boa. Quando cheguei ao último degrau percebi que meu pai estava falando com alguém, mas como eu queria o sinal de fogo, tive que interromper seu diálogo matinal.

- Pai, você ainda tem guardado aqueles sinais de fogo do verão passado? – perguntei indo para a cozinha encher minha garrafa d’água.

- Não sei, vou ter que procurar! Mas pra que diabos você quer isso? – enquanto ele falava, ouvi passos vindo em minha direção mas não olhei, estava terminando de encher a garrafa.

- Como vou acampar, prefiro levar alguma coisa que possa sinalizar onde estou para o caso de eu me perder. Com a sorte que eu tenho é bem provável que o número do resgate dê ocupado quando eu ligar!
- Acho que você não vai precisar se preocupar com isso Sammy. Ele veio te buscar.

Quando me virei pra ver de quem meu pai falava, fiquei inerte. Arthur Mason estava parado ao lado do meu pai, olhando para mim com um sorriso no rosto, caloroso e distante de uma forma atraente. Mas algo naquele sorriso me deixava um tanto nervosa, eu tinha a sensação de estar esquecendodever algo por trás dele, como quando alguém se sente culpado por não ter lido as entrelinhas. Ele parecia uma estátua de algum Deus grego. Todos os seus traços eram perfeitos, seus músculos se destacavam pelo contorno de sua camisa e seus olhos pareciam mais azuis e profundos sob a luz que irradiava pela janela. Tive que desviar o olhar para me livrar de seu encanto.

- Bom dia, Sammy. Eu vim te buscar porque achei que você não sabia a hora que a gente ia se encontrar e também porque você não pareceu memorizar o caminho todo. Anita me disse que você não pegou o caminho por escrito e fiquei com medo de que se perdesse. Desculpe não ter te chamado pra ir comigo antes, mas eu...

- Não precisa se preocupar rapaz, suas intenções foram as melhores. Eu sinceramente prefiro que ela vá com você, pelo menos ela vai com alguém que tem um mapa e um pouco de sorte.

- Obrigado Sr. Brandow – agradeceu ele e se virou para mim – Já está pronta Sammy?

- Hãã... – eu tive que esperar um pouco até minha capacidade de raciocínio voltar – Claro, vamos. Até mais pai. Qualquer coisa me ligue, está bem?

- Não se preocupe Sammy, eu consigo sobreviver dois dias sem você. Agora vá, se não vai atrasar o grupo todo.

- Está bem. Cuide-se pai e tente não se estressar muito com a Nathália, ok? – não tinha nem saído de casa, mas já estava preocupada com a sobrevivência do meu pai nesses dois dias. Ele certamente viu a preocupação emanar pelo meu rosto.

- Samantha, é sério, vai ficar tudo bem, não precisa se preocupar tanto, pelo amor de Deus! – senti que ele estava começando a ficar irritado.

- Então tá, boa sorte e até domingo! – me inclinei para dar um abraço de despedida nele – Eu te amo pai, se cuida – falei para ele enquanto o abraçava, depois o soltei e me virei para aquela perfeição que estava do lado dele – Vamos agora Arthur? – no instante em que falei seu nome senti algo diferente, Lembre-se de ser normal, ele só está te oferecendo uma carona!reclamei comigo mesma.

- Claro, vamos! – ele se dirigiu a entrada e meu pai o seguiu, abriu a porta para Arthur e eu passarmos e ficou na soleira enquanto íamos em direção ao carro estacionado na entrada de veículos. Pelo pouco que eu sabia de carros, consegui ver pelo símbolo que era um Jaguar, fiquei com uma estranha pontada de alegria, era como algo que pudesse amenizar a diferença entre nós, a marca do carro que você gosta, grande semelhança sua idiota, me xinguei por dentro. Ele abriu a porta de seu reluzente carro para mim e percebi que além de lindo também era cavalheiro. Depois que entrei, ele contornou o carro e entrou, mas não o vi, estava prestando atenção em minha casa, algo meio estúpido de se fazer, mas não consegui evitar.

Minha casa não era simples, mas também nada luxuoso, meu pai ganhava o suficiente para termos uma vida bem confortável e olhando por fora vi como ela espelhava o nosso estado de espírito, de cara dava pra saber que éramos uma família feliz. Ela era de madeira, com uma pequena varanda, o lado de fora era todo coberto de grama, só havia um espaço na frente que não havia nada, era a passagem para pessoas e a entrada de carros. Uma casa bonita, no final das contas. Mas isso não era hora de pensar nela, então me concentrei em Arthur do meu lado.

- Você nasceu aqui, Sammy? – perguntou enquanto estávamos a caminho do acampamento. O espaço tornou-se pequeno, eu parecia ter inflado de repente. Um garoto não podia estar fazendo isso comigo, não era possível.

Sim, era possível. Aquela voz faria a mais impossível das situações tornarem um mero fato concreto.

- Não, nasci em Dallas, no Texas. Cheguei aqui um pouco antes de você, no natal passado. – não olhei para seu rosto porque sabia que se olhasse meu raciocínio iria zerar.

- E por que se mudou? – ele estava curioso pela minha patética história de vida. Sem perceber, ao mudar de marcha a pele de seu braço tocou a minha, um arrepio percorrendo meu corpo. O que era aquilo? Uma espécie de eletricidade?

- Meu pai é Oficial da Força Aérea e foi transferido, então minha irmã e eu viemos com ele – me permiti olhá-lo e me arrependi, ele estava me observando, seus olhos azuis vidrados em meu rosto. Pareciam fascinados e pesquisadores, como se quisesse desvendar algo. Desviei o olhar e decidi mudar de assunto – Vem cá, como é que você sabia onde eu moro? Não lembro de ter te dito.

- Não, você não disse – respondeu ele como se eu o tivesse tirado de alguma linha de pensamento.

- Então como...

- Liguei para o Richard e perguntei a ele – respondeu ele a minha pergunta incompleta.

- Ah, tá. – depois disso não falei mais nada, nem ele. De vez em quando eu via pela visão periférica que ele me observava. Observava meus cabelos voando com o vento causado pela velocidade, observava como algumas vezes eu mexia na roupa, mas, quando inconscientemente me virava para olhá-lo, ele olhava para frente, me deixando tonta.

Estar tão perto assim me fez sentir algo entre nós, mas não uma ligação, algo que nos unia. Parecia haver um muro. Algo irremovível que nos matinha afastados.

Aquela sensação estava me perseguindo e eu começava a achar que algo de muito errado acontecia.

- Chegamos – disse ele estacionando o carro perto de uma trilha. Ele saiu do carro e enquanto eu tentava tirar o cinto de segurança, contornou e abriu a porta para que eu pudesse sair. Acho que ele viu a minha dificuldade com o maldito cinto e veio me ajudar.

- Dificuldades? – ele não me lançou um sorriso, era uma pequena elevação do canto de sua boca. Mesmo assim fiquei estagnada olhando para sua pele dourada.Arthur se debruçou dentro do carro para desatar o cinto. Fiquei muito perto dele, olhando seu rosto a centímetros do meu, a sensação de dois mundos sendo quebrada. O muro entre nós tinha sido espremido. Agora eu tinha um desejo que crescia a cada minuto que se passava, de tocar seu rosto e de acariciar seus cabelos, que agora balançavam levemente com o pouco vento que entrava no carro. Controle-se, assim você vai assustar o garoto. Concentrei-me em minha respiração e virei à cabeça enquanto ele saia do carro.

- Vamos? – ele estava do lado de fora, a mão estendida para mim. A segurei e meu coração deu um disparo que até me deixou assustada. Controle-se, repeti para mim mesma. Sua mão era firme, mas, macia como algodão.

- Obrigada – dei um sorriso mais largo que o necessário e soltei sua mão, que continuou estendida por mais alguns instantes.

- De nada. – respondeu ele. Depois franziu o cenho e foi pegar nossas mochilas na mala do carro. Eu não me lembrava de ter dado a minha a ele, mas eu duvidava que a essa altura eu lembrasse de alguma coisa, mas seja como for, não ia deixá-lo carregar as duas.

- Pode me dar a minha, por favor? – pedi, chegando perto dele.

- Se quiser, posso levar a sua. – ele propôs.

- Não, não precisa... Obrigada – olhei para seu rosto, mas ao invés de desviá-lo como ele sempre fazia, ficou me encarando, analisando cada pequeno movimento de minha pele e de meus olhos. Tentei, mas não consegui virar a cara, até que o que quer que seja que estava prendendo sua atenção em mim, o libertou.

- Temos que ir, os outros estão nos esperando. – ele fechou a mala do carro com mais força que o necessário e me deu minha mochila. A coloquei nas costas e comecei a atacar os fechos. Percebi pela visão periférica que ele fazia o mesmo, mas em certo momento vi sua mão se estender para mim. Depois de um segundo ele a recolheu e continuou seu serviço.

- Você é boa andarilha? – perguntou ele enquanto entrávamos na trilha.

- Dá para o gasto. Você não vai precisar se preocupar em andar devagar por minha causa, não se preocupe.

- Ok.

  A caminhada foi tranqüila. Algumas vezes ele perguntava algo sobre minha vida, mas nada que exigisse uma longa resposta. Só quando ele perguntou sobre minha mãe que me deixei abalar um pouco. Eu não gostava de dizer que ela faleceu, era como se abrissem um ferimento ilusoriamente quase curado toda vez que eu tocava nesse assunto.

- Então sua mãe faleceu depois do parto da sua irmã? – perguntou ele depois que eu contei toda a história.

- Sim, minha mãe não agüentou o processo pós-parto por algum motivo e chegou a óbito – minha voz era triste, ele podia perceber isso – Meu pai foi quem mais sofreu, minha mãe era o grande amor da vida dele. Quando ele a perdeu foi como se sua alma tivesse sido sugada. O que ainda o manteve sóbrio foi a Nathália e eu.

- E você não sentiu falta dela?

- Eu senti sim, mas, eu só tinha dois anos na época e meu pai me falou que ela havia ido para o céu e se tornado um anjo. Quando fiquei maior entendi o que realmente havia acontecido.

- E a Nathália? – ele diminuiu um pouco o passo para me acompanhar.

- Como ela tinha só algumas semanas quando a mamãe morreu, não pôde sentir falta de algo que não teve, mas meu pai sempre contava histórias sobre ela, pra que a Nathália soubesse quem foi sua mãe. Então ela ama aquele “personagem” das histórias de quem ele falava. Mas ela não pode ter tido a mesma dor que o papai ou até a que eu tive, porque ela nunca teve uma mãe mesmo.

- Você já pensou como seria ter uma mãe?

- Já, mas aprendi tudo muito cedo e quem ajudava o papai com a Nathália era eu, então não tinha tempo pra pensar como seria se eu tivesse uma mãe, quando eu tinha que fazer o papel dela, entende?

- Entendo. Você é uma garota muito forte, sabe Sammy? Admiro isso em você.

- Eu tento ser, mas às vezes é difícil, só que nessas horas penso que se isso aconteceu é porque era pra acontecer e também penso que se eu desistir, tudo vai desmoronar de novo e não sei se meu pai aguentaria outro tapa da vida. Então levanto a cabeça e vou cuidar da minha irmã e do meu pai que precisam de algum apoio, de algum alicerce pra poder viver. Eu quero ser esse porto seguro pra eles, quero poder ajudá-los no que eles precisarem.

- Mas e você? Você não precisa de um alicerce, de um porto seguro? – seus olhos eram insondáveis, mas vi preocupação neles.

- Talvez eu precise, mas ainda não encontrei ninguém que possa ser o equilíbrio do meu mundo. Talvez a minha base pra viver seja justamente essa minha capa de força que construo a cada dia. Não sei, é meio complicado falar disso. Eu nunca me preocupei em como eu estava por dentro, a minha vida toda foi voltada pra minha família e eu não reclamo disso. Eles estando bem, se mantendo firme e forte, é o que me faz seguir em frente e enfrentar o mundo, independente do meu estado interior. – depois disso, nós dois ficamos perdidos em nossos pensamentos.

Caminhamos por mais alguns minutos e quando conseguimos escutar o barulho da cachoeira paramos de andar para descobrir exatamente de que direção vinha o som. Enquanto ele fazia isso, peguei a garrafa de água e comecei a beber. Não havia notado que estava com tanta sede, quando acabei, tinha bebido quase a metade.

- Você quer água, Arthur? – ofereci, passando as costas da mão nos lábios.

- Não, obrigado, tenho aqui.

Sentei-me perto de uma árvore pra descansar um pouco, quando olhei no relógio, já eram nove horas. Pelo menos a gente está perto. Eu estava de olhos fechados e fiquei ouvindo o som da mata, o balançar das folhas, o canto dos pássaros, até que, quando abri os olhos Arthur estava sentado há uns dois metros de mim, me encarando. Quando viu a confusão em meu rosto sorriu, um traço de sedução neles.

- Você é muito desconfiada, sabia? – perguntou ele ficando intenso de repente, me deixando atordoada – Você fica ainda mais bonita no sol, a luz dele realça sua pele – ele fez uma pausa para me observar mais um pouco, depois levantou. Eu não consegui responder nada – Agora vamos antes que os outros pensem que estamos perdidos – Por que ele sempre fazia esse tipo de comentário, me deixava sem palavras e depois mudava de assunto do nada?

Levantei-me também e o segui pelo que faltava do trajeto. Depois de andarmos por quase uma hora pela floresta, chegamos ao acampamento. Pelo que percebi todos já estavam lá e pela cara deles pareciam preocupados com algo.

- Que bom que chegaram, já estávamos preocupados com vocês – disse a Sophia, vindo ao nosso encontro.

- Nós paramos um pouco para descansar – Arthur falou pra Sophia e se virou pra mim – Você deve estar cansada, foi uma caminhada meio longa, me dê sua mochila, guardo no armário pra você.

- Está bem – comecei a soltar os fechos que a prendiam na minha barriga. Mas quando terminei e fui tirá-la dos ombros para dar a ele, Arthur estava atrás de mim e a tirou de minhas costas.

Quando senti o suave toque de suas mãos em minha roupa fina, inconscientemente fiquei arrepiada e prendi a respiração, meu coração acelerou e comecei a ficar tonta. Repentinamente me afastei de suas mãos quentes que se demoravam em meu pescoço e cabelo. Ele também se esquivou, tirando a mochila rapidamente de mim e a colocando em seu ombro esquerdo. Eu tinha me virado pra ele e seu rosto estava indecifrável. Acho que ele pensou que eu havia me distanciado porque não tinha gostado de sua atitude, mas me afastei porque se eu permanecesse, iria desmaiar ali mesmo.

- Eu vou levar as mochilas pra colocar o armário – ele estava travado ao falar.

- Está bem. Sophia me mostra onde é meu quarto? – perguntei, me virando pra ela.

- Claro, vamos – pela sua cara ela estava curiosa e eu já sabia que ela faria mil perguntas, então a segui até o quarto. Quando estávamos chegando a casa, dei uma última olhada para Arthur, ele retribuiu o olhar, mas, me virei antes que eu levasse uma queda na frente dele.

- Ok, que tipo de acampamento louco é esse? Não deveria ter barracas lá fora ao invés de uma casa? – perguntei quando a Sophia me mostrou onde seria meu quarto por dois dias.

- Quando o Dr. Mason soube que iríamos acampar perto da cachoeira, ele mandou o Bryan perguntar se não queríamos acampar aqui. É mais confortável, a gente não corre o risco de ser atacado por nenhum bicho e é próximo da cachoeira do mesmo jeito – explicou ela enquanto eu observava os quadros que tinham no quarto. Havia um deles acima de uma cômoda que ficava perto da porta. Era um lindo quadro: Várias crianças no meio de nuvens, todas elas com pequenas asas e feições meigas.

- Sammy?! Sammy, você está prestando atenção ao que eu estou falando? – perguntou ela com raiva.

- Hã? Desculpe-me Sophia, eu realmente não prestei atenção – disse.

- Tá, tudo bem, era besteira – ela fez uma breve pausa – Você vai lá pra fora? Você tem que procurar Arthur pra pegar sua mochila, ainda não entendi de onde ele tirou aquela idéia louca de armário! Falando nele, eu posso saber por que vocês demoraram quase uma hora numa caminhada de trinta minutos? – Eu já esperava por isso, só não esperava que ela fosse controlar o tempo da minha caminhada matinal com ele.

- E você só vem falar agora que não tem nenhum armário?Por que você não falou isso lá fora? – tentei desviar do assunto, mas ela me encarou de sobrancelhas levantadas – Ok, tudo bem. Nós paramos pra descansar e também porque não sou tão boa andarilha, então ele diminuiu o passo pra me acompanhar – Meu tom de voz estava meio melancólico, parecia que eu queria ter outra resposta à pergunta dela.

- Aham, sei... – ela estava desconfiada e me olhou como quem esperava algo. A minha única opção era sair daquele quarto e ir procurar o Arthur pra pegar minha mochila de volta. Revirei os olhos e sai porta afora.

- Ei, por que você me deixou falando sozinha no quarto? – perguntou ela quando conseguiu me alcançar do lado de fora da casa.

- Porque você faz muita pergunta sem lógica e ainda duvida da minha resposta – parei de andar de repente e me virei pra ela – E você? – ela fez uma cara de surpresa – O que você estava fazendo colada ao Bryan Mason quando eu cheguei?

- Hmmm... eu... eu não estava fazendo nada, você anda vendo coisas demais – gaguejou ela. Desconcertada, ela se virou e seguiu em direção a casa. Tinha me livrado de seu interrogatório por alguns momentos, então fui procurar Arthur. Pra não ficar feito uma idiota procurando por ele pelo acampamento inteiro, decidi perguntar a alguém sobre seu paradeiro.

- Myllena, você sabe onde está o Arthur? – ela estava preparando alguma coisa pra gente almoçar – já eram quase três horas e todos estavam se sustentando só com salgadinhos e biscoitos - mas ela tinha ido lá fora pedir pra algum dos meninos abrir um pote.

- Não, sinto muito Sammy. Pergunta a Ashley, ela deve saber! – Respondeu ela enquanto pegava o pote da mão do Bernard – Obrigada Bernard – agradeceu ela e saiu.

- Sammy? – alguém tinha chamado meu nome e me virei par olhar – Miguel que estava jogando cartas junto com os outros, respondeu a minha pergunta – Ele deve estar lá atrás, um pouco distante da casa, numa campina que tem aqui perto, ele deve estar com Ashley também.

- Ah, obrigada Miguel. – agradeci indo em direção ao lado de trás da casa. Tinha um caminho meio coberto por folhas indo para o norte. Segui por essa trilha, sempre olhando para trás pra ver o quão longe da casa eu já estava.

Procurei – sempre indo para o norte – algum sinal de Arthur. Chamei algumas vezes por seu nome e de Ashley, mas não tinha nenhuma resposta além do barulho das árvores ao balançar com o vento.

Em algum momento pensei ter escutado passos no chão coberto de folhas e fui para a esquerda, buscando por algum sinal de Arthur. 

Alguns minutos depois, desisti e tomei o caminho de volta.

Não encontrei nenhum sinal nem de que estava regredindo ou andando em círculos, minha intuição começando a lançar pensamentos negativos à minha mente.

Parei onde estava e tentei me acalmar. Respirei fundo e continuei em linha reta, mas desisti ao ver que a floresta estava ficando cada vez mais densa. O sol começava a ir embora e devido ao nervosismo, um suor frio implantava-se em minha nuca.
  
Comecei a fazer curvas no labirinto imaginário que ali estava, questionando-me se as tinha feito no começo.
  
A noite começava a expulsar o sol do céu e em questão de poucos minutos vi a lua transmitir sua luz roubada.

- Não é possível, onde está o acampamento? – perguntei tateando pelas árvores para me apoiar.
  
Minha calma desapareceu no instante em que meus olhos não conseguiram mais enxergar. O pânico inundou meu corpo, o medo se alastrando como um veneno. Rápido. Doloroso. Letal.
  
Continuei a andar pela floresta. Precisava encontrar a saída. Eu não havia chegado longe, no máximo quinhentos metros. Então onde estavam meus amigos?

Tinha que confessar. Estava perdida, com sede e fraca de cansaço.
  
Pressupus que fosse quase meia noite quando minhas pernas adormeceram de dor e tive que parar. Sentei-me entre duas raízes de uma árvore grandalhona e fiquei como uma bola, a cabeça apoiada nas mãos.

O desespero possuiu a última parte sã de meu cérebro e quando notei, estava chorando. Eu não sabia como voltar e a essa hora todos já deviam estar dormindo, ninguém sentiria falta de uma pessoa.
  
Estava sozinha, sem nenhuma chance de sobrevivência. Soluços irromperam por minha garganta e me conformei com a ideia de que o dia chegaria dali a algumas horas. Eu poderia procurar pelo acampamento com o sol iluminando cada palmo à minha frente.
  
Um barulho de passos propagou pelo silêncio negro e cessei o choro, com medo. Não eram passos humanos, pareciam sorrateiros demais. Minha mente deu uma guinada e quase pude sentir a adrenalina se misturando ao sangue, o alerta de perigo correndo audivelmente por minhas veias.

Os passos se aproximavam cada vez mais Eu precisava agir. Rapidamente.
  
Quase como um salto, pus-me de pé e comecei a correr, agradecendo por minhas pernas colaborarem.
  
Tropecei duas vezes, ralando a palma das mãos e os cotovelos, mas continuei até onde meu medo me impeliu.
  
Eu precisava correr, se fosse algum animal caçando, com toda certeza eu seria uma ótima presa. Não tinha como me defender e sem enxergar ficava impossível uma vitória.
  
Ainda estava em disparada quando instintivamente olhei para trás. A lua iluminava pelas frestas na copa das árvores e consegui ver que tudo era um misto de negro, folhas e galhos balançando e centenas de troncos. Mas nenhum sinal de predadores. Com certo alívio, dei o passo que pararia minha corrida, os pulmões protestando, o coração batendo ferozmente na caixa torácica e ouvidos.
  
Não vi o relevo, a inclinação que o terreno fazia e de repente meus pés estavam no chão, assim como meu corpo. Rolei pela pequena ladeira e senti pedras e galhos secos chocar-se contra minha pele, rendendo-me arranhões e dores. Quando pensei que ia parar, bati a base das costas no que eu achava ser um tronco de árvore, enquanto minha nuca foi acertada em cheio por uma rocha pontiaguda.
  
Demorei meros dois segundos para perder a noção de tudo. O bastante para sentir partes úmidas e quentes pelo meu corpo.
  
Além da certeza de que a noite me levaria com ela.

Romance de:

Continua...


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