Algumas coisas são verdade, quer você acredite nelas ou não.” 
City of Angels
Ele era muito bonito, muito forte e seus músculos se destacavam pela roupa, mas seu rosto era de uma doçura desproporcional, mesmo assim não minimizava sua beleza. (...)

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LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998. 
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PRÓLOGO

A raiva me inundava. Mas não era o único sentimento que habitava meu interior. Havia algo mais, alguma coisa que meu inconsciente tentava mandar para meu cérebro, mas que imprudentemente ele rejeitava. Eu não podia fazer mais nada, eu não tinha mais forças para sequer permanecer naquela discussão por mais cinco minutos, ou para forçá-la a descer daquela máquina mortífera. Eu queria poder abraçar minha irmã e falar que tudo iria ficar bem, mas ela notaria a mentira em minha voz. Então – com o sangue pulsando ferozmente em minhas veias, tornando meus batimentos audíveis – desisti, e sem saber, a joguei diante da morte. Com a raiva me tirando a lucidez, me virei para minha mãe – a total culpada por esse inferno que havia se alastrado sobre nós – e estando prestes a jogar em cima dela tudo o que eu havia escondido nesse último mês, ouvi um som explosivo, como se um enorme bloco de ferro tivesse se chocado contra algo tão resistente quanto ele e no mesmo segundo ouvi outro som, um som estridente, parecia que um carro estava sendo acelerado com alguém pisando no freio ao mesmo tempo. Assustada e sentindo como se meu fôlego tivesse sido arrancado, me virei para a direção do som. E o chão se abriu sob meus pés.

♥ ♥ ♥

Capítulo UM

Minha vida nunca foi muito interessante, pelo menos não pelo olhar de quem está vendo todas as situações do lado de fora. E hoje vai ser o dia, literalmente, hoje completo 17 anos.

Acordei com o barulho infernal do meu despertador que nunca respeita o meu sono e pra piorar, meu pai e minha irmã começaram a bater como dois loucos desenfreados na porta do meu quarto. Um dia horrível, foi esse o pensamento que passou pela minha cabeça.

- Sammy, abre logo essa porta! – Nathália, minha irmã, falou com uma voz meio zangada. É hoje que eu mato um. Fui, contra minha vontade, abrir a porta antes que eles a tirassem do lugar.

- Feliz aniversário, Sammy! – Desejou meu pai, tendo eu mal aberto a porta. Eu estava entediada, queria que tirassem o 14 de Maio do calendário, mas a parte boa de fazer aniversário é que você ganha presentes. Ao ver o rosto do meu pai com um sorriso reluzente, o mais bonito que eu já vira desde a morte da minha mãe, me fez ficar alegre também, acho que ele esperava muito por essa data: o dia em que sua filha completaria 17 anos, muito diferente de mim.

- Obrigada, pai! – Agradeci com o humor melhor

- Seu presente filha, espero que goste! – Falou ele estendendo a mão para me dar algo parecido com um livro embrulhado.

- Olha aqui tá o seu, é bom você gostar, eu gastei quase a minha mesada toda nesse presente! – A minha irmã conseguiu estragar o meu humor mais ou menos construído com tanto esforço.

- Eu não pedi pra você me dar presente nenhum, se quiser, fique com ele e faça bom proveito. – Ela definitivamente estragou mais uma vez o meu dia.

- Você é muito sem graça! Feliz aniversário maninha! – Falou ela me dando um abraço. Nessa hora ela conseguiu dissolver minha vontade súbita de matá-la.

- Vamos garotas, vocês têm aula. Sammy, depois você abre seus presentes se não, vão se atrasar. Já vou indo. Sammy, hoje você vai ter que ir com a Nathália para o colégio, ocorreu um imprevisto no trabalho, até logo. – Ele deu um beijo em mim e outro na Nathália, me desejou feliz aniversário novamente e foi exercer seu cargo de Oficial da Força Aérea Americana que ele tanto tem orgulho. E eu, fui para minha pagação de pecados com minha irmã problema.

- Olha, já faz um bom tempo que você acordou então quem vai para o banheiro agora sou eu, você já teve tempo demais. – Eu não ia deixá-la ir na minha frente de jeito algum.

- Mas eu ainda não fui porque eu estava embalando o seu presente, então o meu tempo foi gasto com você, ou seja, eu vou agora! – Ela saiu correndo para o banheiro e eu, atrás dela.

- Volta aqui Nathália! – Falei levando uma portada na cara. Sai com a cara batida e ainda por cima com a certeza de que eu iria me atrasar, novamente. Enquanto ela derrubava o banheiro, fui arrumar minha mochila e esperar ela sair para que eu pudesse ter um pouco de privacidade. Enquanto o tempo passava, decidi ir abrir os meus presentes. O do meu pai era um álbum de fotos, bem bonito por sinal, achei que devia ter dedo da Sophia nessa história. O da minha irmã também foi legal, um quadro pra colocar fotos, teria de me lembrar de agradecer.

- Samantha! – Aos gritos Nathália saiu do banheiro.

- O que foi?! – Ela até parece que viu um fantasma – Fala logo! – Eu estava saindo do quarto, indo para o banheiro.

- Nada, só estava avisando que eu já saí – Disse ela com um sorrisinho satisfeito. - Da próxima vez avisa só a mim, a vizinhança não quer saber que você saiu do banheiro – Falei fechando a porta – Ah! Obrigada pelo quadro, será útil. – Abri a porta e coloquei a cabeça pra fora – Gostei da cor.

- Eu sabia que você gostava de azul! – Disse ela presunçosa. - É, é sim... – Era melhor eu ir tomar logo banho antes que eu a jogasse pela janela. – Quando eu sair daqui, por favor, já esteja arrumada! – Falei de dentro do banheiro.

Quando eu finalmente consegui tomar banho, percebi que hoje nem foi um dia tão ruim, pelo menos essa parte da manhã e tirando a existência da minha querida irmã, é claro. Terminando de tomar banho e me arrumar, desci as escadas para tomar café e por um milagre, a Nathália já estava arrumada e terminava de comer. Revirei os olhos, seria todo o caminho da escola com ela me dizendo que terminou tudo antes de mim e que a atrasada era eu.

- Tá vendo, eu terminei tudo antes de você! – Eu definitivamente ia matá-la.

- Nathália, você já acabou com toda a minha quota de paciência que seria destinada para o dia inteiro, então, por favor, vamos embora e fica calada!

- Você não vai tomar café?!

- Não. Eu como alguma coisa na escola, vamos... – olhei para o relógio em meu pulso – Droga, eu vou me atrasar, Nathália anda! Deixa isso ai, depois eu lavo! – Por que ela tinha que querer lavar os pratos justo hoje? - Tá, tá bom! Vamos, que pressa! – falou ela passando por mim.

- Que pressa? Você pega na escola mais cedo que eu, então se eu estou atrasada, não quero nem imaginar como você está! Vai logo, entra no carro! – Falei fechando a porta e deixando a chave no beiral.

- Pra entrar eu preciso que a porta esteja destrancada, ou você quer que eu entre pela janela, acho que não seria bom, eu iria me cortar com o vidro. – Tagarelou ela.

- Não seria bom porque você se iria cortar com o vidro e sim porque você quebraria a janela do meu carro. Agora entra e fica calada. – Disse enquanto destrancava a porta e entrava no carro.

- Você o mudou por dentro? Da última vez que vi, ele era um Chevrolet normal. – Comentou ela, analisando o carro.

- Que parte de fica calada você não entendeu? – Perguntei virando para olhá-la. Coloquei minha música preferida e fomos para a escola sem mais transtornos.

Ela ficou calada e eu fui tranqüila para o meu dia escolar com um sorriso de vitória no rosto. Chegando lá, desejei boa aula para ela e fui para a sala, ver se eu conseguia entrar com vinte minutos de atraso. Quando cheguei à sala, a aula já havia começado, fui toda sem graça me sentar no meu lugar ao lado da Sophia. Estava contando as horas para chegar o intervalo para que eu pudesse perguntá-la o que ela tinha a ver com o presente que ganhei do meu pai, agradecer a ela pela ajuda e o melhor: Planejar a viagem do final de semana. Assim que o sinal tocou me virei para ela.

- Sophia, eu ganhei um álbum de fotografia do meu pai, queria saber se você tem alguma coisa com isso.

- O ajudei escolher, mas ele já tinha uma idéia do que queria, e ai, você gostou? – Perguntou ela curiosa.

- Gostei sim, obrigada.

- Ah, já ia me esquecendo, feliz aniversário! – Falou ela me abraçando – A gente tem que combinar a viagem do final de semana! – Disse ela me soltando, perdida em pensamentos.

- É! – E comecei a rabiscar na capa do meu caderno coisas que nem eu sabia o que era.

Quando o sinal tocou fui pegar meu livro para ir para a aula de Biologia, mas não consegui encontrá-lo no armário, depois lembrei que eu o tinha deixado em cima do criado-mudo porque eu havia estudado ontem, então teria que pedir pra alguém emprestado. Entrando na sala de aula, dei de cara com o Miguel.

- Miguel, você não é da minha turma de Biologia, então será que você pode me emprestar seu livro? - Nem vai dar Sammy, eu já emprestei para a Anita, tenta conseguir com mais alguém, ok? Vou indo pra minha aula. – Ele deu um beijo na minha testa e saiu da sala. Droga, como eu vou conseguir um livro se o professor já está na porta?

- Com licença? – Alguém falou e me virei para olhar – Eu sou da outra sala e só vim entregar um trabalho ao Sr. Williams, se quiser posso te emprestar meu livro. – quem falara comigo era uma garota um pouco mais baixa que eu, com o cabelo preto longo, na altura da cintura, todo desfiado na frente.

Seu rosto parecia a face de uma fada, por conta de suas feições miúdas e seu rosto infantil, seus olhos eram de um azul que parecia um pedaço do céu, sua voz parecia o toque de sinos e seu sorriso dava a entender que ela me conhecia há anos. Mas ela não me conhecia e eu nunca a tinha visto. Ao olhá-la fiquei com cara de boba e ela se sentiu na obrigação de esclarecer algumas coisas.

- Ah, me desculpe, eu nome é Ashley Mason, você é a Sammy, não é? - Hãã, é. Sim, sim, sou a Sammy, mas como que você sabe o meu nome? – Perguntei ainda meio fora de órbita, como é que eu nunca tinha falado com ela e ela sabia o meu nome?

- Bom, eu já vi algumas pessoas te chamando assim. – disse ela meio receosa.

- Ah, tá... – foi tudo o que eu consegui responder.

- Vamos meninas! Srta. Mason vá para sua sala e Srta. Brandow para sua banca, por favor. – o Sr. Williams falou num tom de voz meio estressado e eu acordei da minha viagem e me lembrei que eu tinha esquecido o bendito livro e que aquela garota estava perguntando se eu queria o dela emprestado.

- Claro Sr. Williams – Falei me virando para falar com a Ashley que já estava saindo da sala. – Ashley? Ainda pode me emprestar o livro? – Perguntei meio tímida.

- Claro! – Respondeu ela com um sorriso reluzente. – Só não se esqueça de me entregar na hora do almoço, porque tenho aula dele novamente nos últimos horários.

- Ok, ok.

- Até o almoço! – Ela me entregou o livro e saiu andando até sua sala, com uma elegância um tanto exagerada. Quando fui me sentar, percebi que estava com uma paz interior muito grande, parecia que todos aqueles pequenos estresses da manhã tinham ido embora com ela e que eu voltei ao meu humor normal. Depois da aula de Biologia fui para o refeitório e no meio do caminho encontrei o Miguel.

- E ai, conseguiu o livro? - Consegui, a Ashley Mason me ofereceu.

- A Ashley Mason te ofereceu um livro? – Perguntou ele sem acreditar

- É, por quê?! – Não entendi o espanto, ela parecia ser uma pessoa legal.

- Não é nada, é só que, eu acho ela e a família dela meio sem graça, eles são bonzinhos com todos, mas, ela nunca nem falou contigo.

- É, eu também achei estranho. – A essa altura já tínhamos chegado ao refeitório, ela estava numa mesa com a família dela. Só agora, olhando mais atentamente que eu percebi como todos eram lindos, todos tinham olhos claros e feições de pessoas que a gente só vê em filmes e em revistas de moda, até que a irmã dela me olhou e eu desviei o olhar.

Só quando o Miguel falou mais alto comigo que percebi que estava parada feito uma idiota, com um livro na mão.

- Sammy?! O que aconteceu, você está bem? – ele perguntou, provavelmente me achando estranha.

- Tô bem sim, vou só entregar esse livro a Mason e já volto, guarda um lugar pra mim, ok? – Pedi andando em direção a mesa dos Mason.

- Claro. – Pude sentir o olhar do Miguel nas minhas costas, mas não me virei para conferir.

- Bom, obrigada Ashley pelo livro – agradeci enquanto o entregava a ela. Ela me olhou gentilmente e soltou aquele sorriso de novo. - Não há de que, se precisar é só pedir.

- Está bem – não sei por que, mas eu estava com uma vontade inexplicável de sentar numa cadeira vazia que estava ao seu lado e começar a conversar com eles. Mas eu estava era ficando louca, eu nunca nem falei com eles. Obriguei-me a ir embora.

- Bom, então já vou indo –fui me virar para ir para minha mesa, mas ela me barrou.

- Espera, deixa eu te apresentar meus irmãos. – Ela se virou para uma garota muito bonita, com feições de mulher, não mais de menina como ela. – Essa é a Melissa.

- Oi. – Ela parecia um tanto entediada.

Eu acenei levemente com a cabeça.

- E esse é o Bryan! – Disse ela olhando para o rosto dele.

Ele era muito bonito, muito forte e seus músculos se destacavam pela roupa, mas seu rosto era de uma doçura desproporcional, mesmo assim não minimizava sua beleza.

Ele sorriu para mim, não parecia estar entediado como a irmã.

- Oi Samantha! Bem que a Ash disse que você era bonita, gostei da cor de seus olhos... – Falou ele despreocupadamente. Fiquei toda vermelha e senti minha cabeça pulsar.

- Hmmm, obrigada. – Eu não conseguia falar nada mais que isso. Já me disseram que a cor de meus olhos era bonita, eu tinha os olhos cor de chocolate e o contraste com a pele branca e o cabelo castanho-avermelhado os realçava, mas ninguém nunca me disse isso tendo me conhecido há dois minutos.

Pelo canto do olho vi a Melissa levantar uma sobrancelha e desviar seu olhar de reprovação e eu soube que já estava na hora de ir embora.

- Bom, até mais! Foi bom conhecê-los. – tentei ser o mais sincera possível. Eu não sabia quanto tempo ainda a Melissa me agüentaria então me virei e fui embora. Chegando a minha mesa ainda dei uma última olhada para a mesa dos Mason e ri comigo mesma ao lembrar que eu estava querendo sentar naquela cadeira vazia, certamente a Melissa não ia gostar muito dessa idéia, foi quando ela, como se estivesse pensando algo sobre mim, me encarou com um olhar de especulação, eu baixei a vista e deixei aquela mesa fora de meu alcance visual até o final do horário de almoço.

Após o almoço tudo seguiu seu rumo normal, só algumas vezes na aula de Trigonometria eu senti que a Ashley estava me observando, mas quando eu me virava para verificar, ela estava prestando atenção no que a Sra. Murf falava ou estava mexendo em alguma coisa. O resto do dia foi sem mais anormalidades.

Após o horário da escola, deixei Nathália em casa e fui comprar algumas coisas que estavam faltando em casa, no supermercado. Lá eu pude ficar distraída com as compras e me desliguei do tempo, mas depois me dei conta de que ninguém além da Sophia havia se lembrado do meu aniversário, achei estranho, na semana passada todos os meus amigos só falavam dele, hoje, ninguém lembrou. Deixei pra lá, eu não era aquele tipo de pessoa que adora aniversário mesmo. Quando sai do supermercado percebi o quanto já era tarde, olhei o relógio em meu pulso e já se passava das seis, se meu pai não voltou do trabalho, já estava a caminho de casa. Tive que ir correndo até o estacionamento porque chovia e eu estava desprevenida. Ao chegar em casa, comecei a ver os primeiros sinais de que algo estava errado. As luzes estavam apagadas, não tinha nenhum sinal de que alguém estava ali. Meu primeiro impulso foi pensar que a Nathália havia saído escondido.

Parei de tentar adivinhar o que estava acontecendo, desci do carro e levei as compras até a pequena varanda. Quando abri a porta de casa, me deparei com uma festa surpresa.

- Oh! – Perdi o fôlego quando abri a porta e todas as luzes se acenderam. Todos os meus amigos, meu pai e minha irmã começaram a cantar parabéns. Após dizer obrigado a todos, partir o bolo e conversar com eles, fui tirar fotos para colocar no quadro que eu havia ganhado pela manhã. Com as horas passando, meus amigos começaram a ir embora. Na hora e que minha última “convidada” ia para casa, a acompanhei até a porta.

- Bom, obrigada Bianca por ter vindo! – Agradeci com um sorriso no rosto.

- Que é isso Sammy, não precisa agradecer, nós todos gostamos muito de você, por isso é que somos amigos não é? – Perguntou ela, dando uma piscadela e um sorriso.

- É, acho que sim! - Sorri em resposta

- Então vou indo, até amanhã! – Disse ela acenando e andando pelo gramado em direção a seu carro.

- Amanhã a gente se vê! – Murmurei Antes de dormir fui tomar um banho. Enquanto estava debaixo do chuveiro e a água quente ia aos poucos relaxando meus músculos, eu pensei na mamãe. Pensei no que ela falaria hoje ao me ver fazendo 17 anos, o que ela vestiria, como ela estaria quinze anos após a última vez que ela me viu, pensei nas poucas lembranças que eu tinha na minha memória. A lembrança mais nítida dela é que ela me chamava de princesa e cantava para mim na hora em que eu ia dormir. Após tantos pensamentos do passado, senti uma enorme saudade repentina dela. Enxuguei-me rapidamente, penteei meu cabelo e após vestir minha roupa de dormir, desci as escadas e dei boa noite a meu pai. Ao subir, passei pelo quarto da Nathália e dei boa noite a ela também. Fui para meu quarto onde me deitei abraçada com a única foto que eu tinha da mamãe e rumei em direção à inconsciência.

Acordei com um barulho estridente vindo do lado de fora que conseguiu abafar até o som perturbador de meu despertador. Quando olhei pela janela o céu estava num tom de cinza meio estranho. No começo era menos escuro, mas no horizonte se aprofundava num tom que quase chegava ao preto. É bom ir de casaco para o colégio se você não quiser congelar, mocinha!pensei comigo mesma enquanto pegava minhas coisas para ir para o banheiro. Quando acabei todo o processo de arrumação, desci as escadas conferindo a mochila para ver se não estava faltando nenhum livro ou o trabalho sobre Beethoven que eu teria que entregar. Chegando ao final da escada, tropecei no último degrau, mas não caí. Da cozinha vinha um cheiro que enchia toda a casa, chegando lá, vi a Nathália fechando a porta da geladeira, cheia de coisas na mão.

- Por que você não pega uma coisa de cada vez? – Perguntei com um ar de reprovação, indo ajudá-la a colocar tudo em cima da mesa.

- Bom, essacoisa que você chama é o seu café-da-manhã – falou ela olhando para baixo. Por essa eu não esperava.

- Ok, que surto de bondade foi esse? – Perguntei desconfiada. Geralmente ela só fazia o café dela e olhe lá.

- Nenhum. Olha, não abusa muito da minha boa vontade, ok? Toma logo café, se não você vai chegar de novo atrasada na escola e eu pior ainda, e mais de três atrasos é suspensão na certa!

- Vou fingir que você está preocupada com isso – Falei enquanto mordiscava o primeiro pedaço do sanduíche que ela tinha feito – A propósito, você cozinha bem, pelo menos sanduíche – Eu não conhecia muito dos seus dotes culinários.

- Obrigada – Agradeceu ela olhando para o relógio.

- Com pressa? – A desconfiança havia voltado. - Não, é só que eu tenho que entregar um trabalho, você também, não é?

- É – Eu ainda estava desconfiada.

- Dá pra você parar de comer toda desconfiada? – Perguntou ela irritada.

- Me desculpe, mas seu comportamento esses anos todos não me dá outra opção a não ser estar desconfiada. Olha, por que o papai não te levou pra escola?

- Ele teve que sair mais cedo hoje, de novo... – Ela falou como se estivesse decepcionada.

- É o trabalho dele Nathália e você sabe que ele tem que cumprir ordens – disse enquanto acabava o último pedaço do meu café-da-manhã.

- É, eu sei, mas às vezes sinto falta dele – Ela deu uma pausa e eu me distraí, depois ela suspirou e eu a olhei desconfiada de novo – Não me olha assim, já disse! Terminou? – Ela pegou meu prato e se virou para lavar o que a gente havia sujado.

Eu a olhei atentamente. Minha irmã problema estava se tornando uma garota muito bonita. Ela se parece muito com a mamãe: Os mesmos cabelos longos e castanho-dourados que ela tinha, o olhar transparente como um lago raso que demonstrava tudo o que se passava dentro de si, não que eu me lembrasse, afinal eu só tinha dois anos quando ela faleceu, mas o papai sempre falava como ela era e pela foto dava pra ver como ela era linda. Se a Nathália não fosse tão chata e implicante poderia ser a réplica dela, mas a mamãe era doce, meiga e carinhosa.

Fiquei distraída em pensamentos, até que ela percebeu que eu a estava observando e se virou para verificar.

- O que você está olhando? – Perguntou ela, agora desconfiada.

- Nada. Só estava notando que você está ficando parecida com a mamãe – Quando era pequena Nathália adorava quando o papai contava histórias sobre a meiga Lucy, como ele a chamava. Então, saber que ela estava se tornando parecida com ela a deixou nas nuvens. Quando vi seus olhos começando a brilhar, decidi que já estava na hora de parar com esse assunto. – Se a gente quiser chegar no horário da escola é melhor andarmos logo com isso. – Levantei-me rapidamente da cadeira e fui escovar meus dentes. Depois de tudo feito e uma última olhada na mochila, quiquei escada abaixo, sai em disparada pela porta e a bati sem trancá-la. Nathália, ao pensar que eu havia esquecido alguma coisa, olhou em direção a porta que ficou atrás de mim.

- Você...? – Ela meio que apontou para a porta.

Eu voltei e tranquei a porta.

- Satisfeita? – Perguntei abrindo a porta do carro e sentando no banco.

Ela só acenou com a cabeça enquanto entrava no carro.

- Sabe, já estou começando a me acostumar com o seu carro. – Disse ela ligando o som.

- Não se acostume, daqui a alguns dias você vai começar de novo a ir com o papai para a escola.

Ela suspirou e virou a cara pra janela. Comecei a cantar mentalmente a música que estava tocando no player. Depois de alguns minutos ela se virou para mim e me olhou meio duvidosa, como se quisesse falar algo, mas não sabia qual seria minha reação.

- Fala logo, Nathália. O que você quer perguntar? – Como o sinal estava vermelho, eu me permiti olhar melhor para seu rosto. Olhei-a nos olhos e levantei as sobrancelhas, esperando a pergunta.

- Ok... – Ela suspirou – Aquilo que você falou sobre eu estar ficando parecida com a mamãe foi verdade? - Foi. Eu não minto pra você, sabe disso. – O sinal abriu e eu já não pude mais olhá-la.

- É, tá então.

- Ela não falou num tom de voz de quem coloca um ponto final numa conversa, mas sim como alguém que coloca uma vírgula, pra depois perguntar mais. E quando ela fazia isso eu já sabia que a conversa ia demorar pra ser retomada, mas eu não iria forçá-la a nada, quando ela quisesse perguntar, o faria.

As aulas passaram devagar, talvez fosse porque eu estava desligada de tudo. A única aula em que prestei atenção foi a de História, afinal eu tinha um trabalho para apresentar. Quando o Sr. Phillips nos liberou dei um suspiro pesado, peguei minhas coisas e fui para o refeitório. Chegando lá, vi o que jamais pensei que veria em toda minha vida. A mesa onde eu costumava sentar estava totalmente vazia e não havia nenhuma cadeira ao redor dela. Por instinto olhei em volta e fiquei paralisada. A mesa dos Mason estava rodeada de pessoas e essas pessoas eram todos os meus amigos, que até ontem nem davam bom dia a nenhum deles. Olhei desconfiada e decidi ir pegar alguma coisa para comer, me virei e fui para a fila. Depois de ter pegado meu lanche, sem fome o bastante para almoçar, pensei onde eu ficaria, mas Richard Bulevarck me viu de longe e veio ao meu encontro.

- Hey, Sammy! O que você está fazendo aí parada com cara de perdida? – perguntou ele enquanto eu o olhava surpresa.

- Eu é que pergunto por que vocês migraram para a mesa dos Mason... – olhei para meus amigos e quem não os conhecia, pensava que eram todos amigos de longa data. Olhei novamente para o Richard esperando uma resposta.

- Ah, é isso? É porque a Beatriz e a Myllena os convidaram pra viagem do fim de semana, eles conhecem muito a floresta... Afinal, você vai, não é? – perguntou ele saindo de seus devaneios.

- Vou sim, mas, pra onde a gente vai mesmo? – decidi deixar um pouco de lado a história dos Mason. - Bom, quem tá vendo isso é o Arthur! – disse ele animado.

- Arthur?! – nunca tinha visto esse garoto, disso eu tinha certeza.

- É, cara ele é super bacana, é um dos Mason, mas é muito legal, pra falar a verdade a família dele é bem diferente do que a gente achava... – Ele começou a andar em direção a eles e me puxou junto.

Ao chegar, vi todos falando sobre a viagem, mas quando olhei quem estava com algo parecido com um mapa na mão, quase não consegui respirar. Ele estava de pé, com as mãos em cima da mesa, coordenando tudo, parecia que estava planejando a viagem. Ele era alto, forte, os músculos esguios se destacando no contorno da camisa, seus cabelos eram lisos, loiros e meio bagunçados. Ele tinha os olhos azuis como topázio, mas não eram transparentes. Parecia não haver nada além da cor de suas íris. Um oceano profundo e inacessível. Mas seu sorriso em resposta a minha chegada me deixou fora de órbita.

- Arthur, essa é a Samantha! – Richard me apresentou a ele e foi falar com a Anita que pelo pouco que vi estava fazendo uma lista.

- Oi Samantha – sua voz era tão suave quanto o som do vento, mas forte e firme como uma rocha, uma voz muito sedutora que deixaria qualquer garota fora do eixo. Inclusive eu

- Hãã... – tive que me esforçar um pouco para saber o que deveria falar – Oi, é... Só Sammy – dei um sorriso tímido e desviei o olhar para a Anita e sua lista – Anita, que lista é essa? – tentei recuperar o fôlego e a capacidade de raciocínio.

- Esses são os nomes de quem vai amanhã para o acampamento. Você vai, não é? – ela me perguntou com uma cara de coitadinha que não tive nem chance de pensar em algum motivo para dizer não.

- Vou sim, só me explica onde vai ser, tá? Não quero me perder no caminho.

- Tá bom! Você vai em direção a estrada principal, quando chegar ao final você vai ver uma trilha. Depois de estacionar perto de uma placa que tem lá, entra na floresta, quando chegar mais ou menos no meio da trilha vai dá pra escutar um barulho de cachoeira, segue na direção desse som que você encontra a gente!

 - Ok... Depois quero anotado pra não esquecer nenhuma parte! Falando nisso, você colocou meu nome nessa lista? – perguntei tentando ver os nomes que estavam anotados, mas do meu ângulo estava meio complicado.

- Já sim! – Respondeu ela apontando para meu nome na lista.

- Ah, tá.

Depois que o sinal tocou, fui para a aula de Trigonometria com a Sra. Murf, eu bem que tentei me concentrar, mas na minha cabeça só vinha o rosto do Arthur. Eu nunca o havia notado. Até hoje. O resto do dia passou normalmente, nada fora da minha rotina: Fui para casa depois do colégio, estudei de tarde o assunto que foi dado pela manhã, decidi o que iria vestir no outro dia, lavei as roupas e ajudei minha irmã com umas questões de Matemática.

Decidi que era melhor falar logo com meu pai sobre o dia de amanhã. Assim que ele chegou, fui avisando sobre tudo.

- Pai, amanhã vou sair com meus amigos tá? – perguntei enquanto ele se sentava à mesa. Nathália continuou calada, um milagre, por sinal, acho que ela ainda estava pesando na conversa de hoje de manhã.

- Está bem, você vai de que horas? – perguntou ele se servindo. - A gente não combinou o horário, mas acho que pela manhã.

- Pra onde vocês vão?

- Vamos acampar numa reserva – fiz aspas com as mãos na última palavra – É perto da estrada principal, tem uma trilha por lá que dá para uma cachoeira.

- Quando vocês voltam? – ele estava começando a ficar preocupado e isso não era lá muito bom.

- No domingo de tarde. – respondi meio receosa

- Mantenha o celular ligado e perto de você, está bem? – ele havia deixado, o pior já passou, pensei. - Claro, pode deixar! – o resto do jantar não teve mais conversas, mas no final, quando ele já estava se retirando e a Nathália já havia subido, eu decidi tirar algumas dúvidas.

- Pai? – me virei um pouco e o vi se levantando para colocar o prato na pia, junto com os outros que eu lavava.

- Sim? – ele colocou a louça perto de mim, se encostou na bancada e cruzou os braços esperando que eu falasse.

 - Pai, você conhece os Mason? – parei por um instante para escutar sua resposta.

- Sim, John é uma pessoa de coração com, ele é médico do nosso hospital. É um ótimo profissional, mas ainda não conhece muito bem as pessoas daqui. Ele chegou à cidade faz pouco tempo também, sabia?

- Ele foi transferido como você?

- Não, eles vieram de outra cidade, mas não sei por qual motivo. Ninguém sabe muito sobre a vida dos Mason. Por que essa curiosidade pelo Dr.e sua família? – meu pai me olhou como se estivesse me especulando. Baixei a cabeça antes de responder.

- Por nada, é só que algumas amigas minhas convidaram eles para irem amanhã e achei que seria bom saber mais sobre eles.

- Você nunca falou com eles? – perguntou ele surpreso, o que me fez pensar o que se passava por sua cabeça.

- Não, nunca. – sinceramente os vim notar ontem

- Falei ontem com uma deles, mas só foi porque ela me emprestou um livro. Hoje, as meninas os convidaram para ir com a gente acampar amanhã.

- Ah. Que estranho, vocês do nada começarem a se falar.

- É, eu também achei. – e o garoto lindo, de olhos azuis, tão misteriosos quanto a noite também é bem estranho. Estranho o bastante para ser sedutor

- Bom pai, já tá ficando tarde, vou para o meu quarto. Ainda tenho que terminar de organizar umas coisas para a amanhã. – coloquei assim, um ponto final no assunto dos Mason. Quando entrei em meu quarto, fui tentar escolher com que sapato eu iria, mas acabei com um tênis, era a melhor escolha para quem iria caminhar. Depois de colocar numa mochila de acampamento tudo que seria necessário para passar um final de semana na “mata”, tentei ler alguma coisa, mas já se passava das dez horas, então fui dormir, mas assim que me deitei meu pai me chamou.

- Sammy! Telefone pra você! – chamou ele do andar de baixo.

- Já vou! – respondi. Desci as escadas aos saltos e peguei o telefone de sua mão – Valeu pai. Alô?

- Oi Sammy, é Sophia!

- Oi Sophia, tudo bom?

- Tudo, eu só queria te avisar que o acampamento de amanhã foi cancelado...

- Por quê? - Porque a Bianca, o Bernardo e o Miguel não vão poder ir, mas não sei o motivo, só segunda, ok?

- Claro. Tudo bem. Depois a gente vê o que faz...

- Tá bom. Até segunda! Boa noite.

- Até. Boa noite. – coloquei o telefone no gancho e fui para a sala.

- Pai? – na TV passava comerciais, então era seguro falar com ele, me sentei a seu lado antes de começar.

- Sim?

- O acampamento de amanhã foi cancelado porque alguns amigos nossos não vão poder ir.

- Que pena. Quem não vai poder ir? – perguntou ele

- Bianca, Bernardo e Miguel. – respondi

- Que pena – repetiu ele – Seria bom se saíssem um pouco, vejo vocês o tempo todo estudando, relaxar um pouco faria bem.

- É. Bom, já vou indo. Até amanhã. – dei um beijo em sua cabeça e andei em direção a escada.

- Até Sammy. Boa noite filha.

Voltei para meu quarto e me deitei. Quando eu já estava adormecida, alguém bateu na porta e acordei para ver quem era. Acendi o abajur e olhei o relógio: já era mais de meia noite, então com um suspiro fui para a porta.

- Oi Nathália, o que você quer? – perguntei quando abri a porta e dei de cara com ela.

- Só queria conversar um pouco com você. Eu te acordei? – perguntou ela depois de ver minha cara de sono.

- Estava dormindo sim, mas já que você me acordou entra, se não a gente vai acordar o papai, falando aqui na porta.

- Tá bom. – eu fui me sentar na cama e ela me seguiu. Quando observei seu rosto, parecia meio pensativo. Eu logo decifrei o conteúdo da conversa: O assunto de hoje de manhã.

- Pode falar Nathália, sou toda ouvidos.

- Sammy, a mamãe morreu um pouco depois quenasci, não foi?

- Sim, por quê?

- É porque uma vez a tia Debbie disse que ela era muito mais carinhosa com você do que comigo e quando você falou da mamãe hoje, lembrei disso. – disse ela abaixando a cabeça.

- E o que você quer saber, exatamente? – o sono começava a ficar incontrolável e minha capacidade de pensar já estava sumindo.

- Ok, eu vou falar de uma vez, você está meio lenta hoje... – com um suspiro continuou – Você acha que a mamãe não me queria? – sua voz era triste, como se ela já tivesse certeza disso, como se minha resposta não fosse mudar essa certeza. Eu tinha que mudar isso, ela estava ficando louca.

- Nathália, você me acordou há essa hora pra fazer esse interrogatório sem noção? É claro que a mamãe te queria, ela nos amava da mesma maneira. A tia Debbie que viu coisas onde não tem.

- Você acha mesmo? – ela ainda estava triste, mas começava a mudar de idéia.

- Claro, sua bobinha! – a puxei para perto de mim. Ela deitou a cabeça na almofada que estava entre minhas pernas cruzadas e fez uma pausa por alguns minutos.

- Nossa, ela já dormiu – sussurrei para mim mesma.

- Não sua anormal, eu só estava pensando em como seria nossa vida se a mamãe estivesse aqui.

- Seria a melhor vida de todas – falei em seu ouvido e comecei a cantar baixinho a música que mamãe cantava pra mim na hora de dormir. Depois de um tempo, Nathália se sentou na cama com a cara um pouco feliz.

- Que linda essa música, a mais bonita que eu já ouvi em toda minha vida, principalmente essa parte: Sorrir quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos, vazios... Essa música combina com a gente.

- Com a gente, por quê?! – essa garota definitivamente tinha surtado.

- Porque mesmo sentindo falta da mamãe, mesmo com todo o sofrimento pelo qual a gente passou, nós ainda sorrimos.

- É, por esse lado você tem razão – concordei, franzindo o cenho

- Eu tenho razão por todos os lados, Sammy – disse ela fingindo estar ofendida.

- Ow, A ofendida, deixa de ser metida, ok? E vai dormir que já são quase duas da manhã e tenho que descansar.

- Tá bom. Você é um xarope, viu?

- E você é a farmácia inteira! Agora desinfeta daqui antes que o seu corpinho apareça estirado lá embaixo sem nenhuma razão aparente.

- Nossa! É melhor eu ir embora mesmo e ainda vou trancar a porta do meu quarto!

- É bom mesmo! – comecei a rir enquanto ela saia do quarto e fechava a porta.

Depois que ela foi embora eu consegui dormir, sabendo que, do lugar onde minha mãe estava, ela estaria sorrindo por saber que nós nunca a esquecemos. O mais importante não era tê-la viva conosco. Era tê-la viva em nossos corações. Onde nem a morte poderia tirá-la de nós.

Romance de:

Continua...
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